LNEC lidera projecto europeu sobre efeitos das mudanças do clima na água

Objectivo é procurar soluções concretas – e adaptadas às diversas realidades regionais – para lidar com o impacto das alterações climáticas sobre os recursos hídricos na Europa e além.

Modelo em miniatura de barragens portuguesas nas instalações do LNEC, em Lisboa
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Modelo em miniatura de barragens portuguesas nas instalações do LNEC, em Lisboa Rui Gaudêncio

Um consórcio liderado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) lançou oficialmente esta sexta-feira, em Lisboa, o projecto europeu Bingo. O evento foi transmitido em directo via Web. O projecto visa “avaliar os impactos das alterações climáticas no ciclo (…) da água e promover estratégias de gestão de risco e medidas de adaptação, numa lógica de redução de vulnerabilidades”, explica o consórcio em comunicado.

Integrado por 20 organizações europeias de seis países – Alemanha, Chipre, Espanha, Holanda, Noruega e Portugal – o consórcio foi escolhido entre 40 candidatos no âmbito do programa Horizonte 2020 da União Europeia (UE) e terá um orçamento de oito milhões de euros ao longo de quatro anos (2105-2019). Os parceiros portugueses são, para além do LNEC, a EPAL (Empresa Pública das Águas Livres), a Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo (CIMLT), a Direcção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR) e a Sociedade Portuguesa de Inovação (SPI).

Bingo é acrónimo de Bringing INnnovation to onGOing water management – a better control of our future under climate change, o que, informalmente traduzido para português, corresponde a “inovar na gestão da água, para um futuro melhor num contexto de mudança climática”. No seu conjunto, a equipa multidisciplinar que irá desenvolver o projecto inclui perto de 80 elementos, de cientistas a utilizadores da água, de peritos da gestão da água a pessoas vindas da indústria e das empresas.

Paul Fleming, da agência municipal fornecedora de água potável de Seattle (EUA), que aceitou o convite para presidir ao conselho consultivo do projecto, falou na experiência norte-americana durante a apresentação. Para este perito, a palavra-chave é adaptação. “É provável que os recursos hídricos não possam ser devidamente geridos com as práticas existentes; por isso temos de nos adaptar. Precisamos de melhorar a utilidade da ciência do clima, de perceber o que as alterações climáticas poderão significar para os nossos sistemas de gestão da água – e fazer chegar aos políticos resultados que lhes permitam tomar decisões informadas, resilientes e robustas.”

“O Bingo quer fornecer soluções práticas, ferramentas que ajudem realmente a lidar com as mudanças climáticas”, disse por seu lado Rafaela Matos, responsável pela equipa do LNEC e uma das progenitoras do projecto. O Bingo assenta em três “blocos” principais, salientou: conseguir fazer previsões climáticas muito mais finas, graças a modelos não globais, que funcionem “a uma resolução espacial de dois a três quilómetros e temporal de uma hora”, algo que ainda nunca foi feito; avaliar o impacto das alterações climáticas ao longo de todo o ciclo da água; e por último, numa colaboração próxima entre cientistas e decisores, “co-produzir ferramentas e metodologias destinadas aos utilizadores finais”.

Na fase inicial do projecto, lê-se ainda no comunicado do Bingo, serão feitas previsões de cenários climáticos para os próximos 15 anos, numa resolução espacial adequada aos problemas a resolver a diversos níveis geográficos. Para isso, a equipa vai realizar seis estudos, respectivamente em três localizações do Norte da Europa e três na Europa do Sul.

A norte, são eles a cidade de Bergen (Noruega), “que tem um problema de qualidade da água, com Verões quentes e um ciclo de inundações e secas”, referiu Rafaela Matos; a região do parque natural do Alto Veluwe (Holanda), “uma zona seca onde co-existem a natureza, a agricultura e algumas pessoas, todas a competir pela mesma água; e a bacia do rio Wupper (Alemanha), “onde vive um milhão de pessoas, que tem indústria, floresta e uma cascata de 40 barragens e onde às águas residuais acabam no rio, que também serve para abastecer a região”.

A sul, os casos em estudo serão a cidade de Badalona (na costa catalã de Espanha), que vive do turismo e cujo sistema de esgotos transborda devido às inundações que também aí alternam com períodos de seca; Chipre, que devido ao seu carácter insular depende totalmente da água da chuva, mas conhece actualmente “variações incríveis” em termos de inundações e de secas; e, last but not least, a lezíria do Tejo, perto de Lisboa.

“Esta zona [portuguesa] é principalmente abastecida pela barragem de Castelo de Bode”, frisou a cientista, “mas também por aquíferos”. Inclui zonas agrícolas, zonas naturais, cidades – e constitui segundo ela um problema adicional que vai representar “um grande desafio”: a influência da água do mar sobre o rio Tejo e a zona envolvente, “onde a salinidade do solo e da água estão a aumentar”.

“Temos quatro anos para desenvolver o projecto de norte a sul, e de leste a oeste na Europa, mas queremos crescer muito para além disso, produzindo algo que perdure para lá desses quatro anos”, concluiu Rafaela Matos, que acredita que as soluções encontradas também serão aplicáveis, por exemplo, aos países da Bacia do Mediterrâneo.