Cinco Grécias em 80 anos

A Argentina perdeu 4,5% do seu PIB em 2001 e 11% em 2002, mudou estruturas, e o aumento anual foi para 4 a 8% nos anos seguintes..

Nos EUA, na depressão de 1930, Roosevelt implantou o New Deal, i.e, gastos públicos em infraestruturas para criar emprego e aumentar a procura por bens e serviços ali produzidos. No mesmo período, Hitler investiu na construção quase manual de autoestradas e no Volkswagen, carro do povo, simples e barato, para aumentar a procura interna. Ambas soluções exigiam mudanças estruturais, e o poder foi dos grupos tradicionais para a indústria moderna.

Na década de 1970 a pequena Dinamarca, como Portugal há anos, dependia da exportação de calçado e produtos alimentares simples, como ovos, leite, pescado. Apesar da limitada extensão territorial como nós, concentrava a indústria em Copenhaga. A justiça era arcaica. Exportava de nichos com muitos concorrentes e importava, como nós, fármacos, máquinas e químicos, de oligopólios. Durante treze anos foi alterando a estrutura judicial, industrial e comercial. Hoje ela exporta muito do que antes importava e chega aos 80% do seu PIB. Portugal, dizem, não pode obter excepções às regras da UE. Se a Dinamarca, com 5 milhões, o fez, por que não nós?

Como a Itália hoje, a Suécia dos anos 1990 teve uma elevada dívida pública à banca local. A Suécia apoiou nichos que geravam emprego e reduziu o desperdício do setor público. Muitos milhares de chefes foram dispensados, após qualificação para iniciar PMEs. Como a Itália nos idos 1970 e a Dinamarca nos 1980, a Suécia desburocratizou nos 1990; em Conselhos não-políticos, convidou o cidadão a influenciar a administração, para as PMEs se expandirem.

A inovação, tão falada e pouco realizada por cá, tornou-se o motor das PMEs em outsourcing das grandes ou em clusters nas federações patronais, apoiadas, mas não ligadas ao governo.

Os nórdicos contrariaram a UE. Nas privatizações da distribuição de energia, telecom, transportes coletivos, etc, o estado manteve uma vital parcela do capital e blindagem, tipo golden-share.

A Argentina, no governo Kirchner, já neste milénio, fez default ao dizer ao FMI que pagaria a dívida quando pudesse, sem sacrificar o povo – como a Grécia quer. Houve forte controlo monetário e um curto caos financeiro. A indústria estrangeira com rapidez desmontou e levou máquinas, deixando armazéns vazios. Sem Pesos, o povo voltou às trocas, nesses locais já ocupados por associações locais. O povo ali vendia à stands (ex-lojas de rua) o seu supérfluo, e recebia “notas” emitidas pela associação ou banco local para ali comprar o que precisava. O Corralito, moeda paralela, satisfez.

A Argentina perdeu 4,5% do seu PIB em 2001 e 11% em 2002, mudou estruturas, e o aumento anual foi para 4 a 8% nos anos seguintes. Ao limitar e substituir importações, facilitou às PME gerar mais emprego, acumulou 28mil milhões de dólares e pagou tudo ao FMI em 2006, após três anos de cortes na especulação financeira.

A recessão na Grécia, Irlanda, Espanha e Portugal era há muito esperada. O Nobel Joseph Stiglitz já alertara em 2002. Este autor em 2004, e no “Prós e Contras” de 01/03/10. Noutros países, os erros nas contas públicas da Grécia pela Goldman Sachs levaria a efetiva prisão dos seus diretores. As agências de rating davam AAA a esses países, quando nós dávamos lixo. A dívida estava muito acima do nível de prudência da banca Norte-europeia. Mas agradava à grande banca dos grandes países, que permitiria depois comprar boas empresas aqui a preço de saldo.

Como oito autores de quatro países escreveram no livro bilingue Portugal pós-Troika, o Euro não tem futuro, pois não se pode impor uma moeda única a 19 países com competitividades e estruturas tão díspares, onde só dois lucram.

Consultor internacional, autor de Como Sair da Crise, Portugal Rural e Ontem e Hoje na Economia