Drones, confetti e serpentinas, é tudo um espectáculo dos Muse

Primeira noite de NOS Alive com lotação esgotada para ver os Muse. Os grandes concertos ficariam por conta dos Django Django e dos Young Fathers.

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Matt Bellamy, vocalista do grupo, baptizou como Drones o último álbum Miguel Manso
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O efeito cénico, tal como as gigantes bolas representando o planeta ou os confetti e serpentinas largados sobre o público, anula a ideia de perigo iminente e de catástrofe Miguel Manso
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Os Muse em palco são inatacáveis na sua entrega e na eficácia com que desfilam canções com o público na mão Miguel Manso
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É tudo espectáculo, montado com uma eficácia que faz com que a histeria da entrada em palco dos Muse se propague da frente do palco à venda de kebabs em menos de dois segundos Miguel Manso
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Matt Bellamy é capaz de emprestar um tom épico pop a qualquer riff de guitarra (por mais estafado que seja) e uma ambição operática a qualquer fio de melodia Miguel Manso
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Muse Miguel Manso
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Um dos grandes concertos ficou por conta dos Django Django Miguel Manso
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Ben Harper foi caindo numa modorra lodosa, da qual já não se conseguiu libertar. Miguel Manso
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Ben Harper Miguel Manso
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Ben Harper Miguel Manso
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Metronomy Miguel Manso
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Miguel Manso

Uma vez por outra, ao longo do primeiro dia do NOS Alive 2015, o som de algo que se assemelhava a um cortador de relva ou umas luzes intrusivas obrigavam a perscrutar o céu. E lá se avistava um drone, desses que por vezes surgem em concertos ou festivais, com uma missão pouco clara. Simbolicamente, esvaneceu-se durante o concerto dos Muse, cabeças de cartaz do arranque do festival, responsáveis maiores por os 55 mil bilhetes de quinta-feira estarem há muito esgotados — bastou assistir à gigantesca debandada findo o seu concerto para tirar quaisquer dúvidas.

Mas se o drone desapareceu com simbolismo, essa carga simbólica dever-se-á ao facto de Matt Bellamy, vocalista do grupo, ter baptizado como Drones o último álbum e desenvolvido toda uma narrativa que atravessa o disco assente nas suas teorias da conspiração e numa crítica às guerras modernas (travadas remotamente) e ao estado de hipervigilância em que vivemos. Baseando-se na leitura de investigações reais, Bellamy cria, talvez inadvertidamente, um ambiente mais próprio de distopia. A música dos Muse, com uma propensão natural para o excesso, transporta de imediato tudo aquilo que existe de preocupações legítimas e justificadas sobre a forma como os estados controlam os cidadãos para um campo ficcional. É como se a realidade fosse filtrada até se converter em histórias de super-heróis, de comics, sugada por delírios fantasistas.

Nos ecrãs em palco, vemos imagens de alvos e de radares, contagens decrescentes, explosões, palavras avisadas de JFK. Só que a ideia de perigo iminente e de catástrofe para o Homem é anulada pela espectacularidade do concerto montado pelos Muse — torna-se um adereço pop, mais uma ferramenta para produzir efeito cénico, tal como as gigantes bolas representando o planeta ou os confetti e serpentinas largados sobre o público. É tudo espectáculo, montado com uma eficácia que faz com que a histeria da entrada em palco dos Muse se propague da frente do palco à venda de kebabs em menos de dois segundos.

Musicalmente, no entanto, se os radares em palco estivessem à procura dos Muse no contínuo espaço-tempo o mais certo seria descobri-los no rock sinfónico dos anos 70 e no hard-rock das décadas de 80 e 90. Facilmente se ouve os Queen (Madness), mas até mesmo os Metal Church, os Van Halen ou os Iron Maiden naquilo que fazem, e longe vão já os tempos em que os Muse soavam a uma tentativa esforçada de seguir os passos dos Radiohead. A diferença para estas referências passadas prende-se sobretudo com a capacidade de Matt Bellamy em emprestar um tom épico pop a qualquer riff de guitarra (por mais estafado que seja) e uma ambição operática a qualquer fio de melodia. De resto, os Muse em palco são inatacáveis na sua entrega e na eficácia com que desfilam canções com o público na mão (sobretudo em temas como Supermassive black hole, Starlight e Time is running out). Mas esta é música que enche o olho. Não tanto o ouvido.

Os futuros Young Fathers
Ainda mal a tarde tinha começado, e antes sequer de começarem a formar-se as intermináveis filas para jantar num dia de lotação esgotada, o NOS Alive podia já gabar-se de contar com o seu primeiro grande concerto carimbado na edição de 2015. Aquilo a que se assistiu no palco secundário do festival foi um concerto em crescendo — mais por parte da rendição progressiva do público do que propriamente por uma qualquer aceleração dos quatro músicos que compõem os Young Fathers. Vencedores do Mercury Prize de 2014, os escoceses assinam um hip-hop infectado pelo gospel, pelos blues e até pela música vocal sul-africana e ganesa, tudo tomando parte num transe em que as vozes dos três vocalistas (usando frequentemente outros tantos registos diferentes simultâneos) furam um instrumental que carrega na exploração noise. Daqui acabam por sair canções densas, magnéticas e nascidas de uma energia primitiva e selvática, que facilmente varreram para o esquecimento as prestações inofensivas que Wombats (devia ser proibido ter por refrão “I just want to be your shadow”, sombra de milhentos outros refrães) e James Bay iam deixando no palco principal. Com os Young Fathers sentimo-nos como se fôssemos arrastados para um culto religioso subterrâneo, encontrável algures no futuro.

Em substituição de Jessie Ware, cujo cancelamento devido a “razões de agenda” — assim o justificou a cantora inglesa em comunicado distribuído pela Everything Is New — foi anunciado no próprio dia, actuaram no palco secundário os Capitão Fausto, servindo com o habitual frémito o rock psicadélico que lhes enche as canções e que terá conquistado mais uns quantos fiéis no final da tarde de quinta-feira no Passeio Marítimo de Algés.

Quem provavelmente não juntou novos admiradores à sua conta pessoal foi Ben Harper, pela enésima vez a actuar em Portugal, e a avançar por um concerto que começou por entusiasmar com alguns dos seus melhores temas passados mas foi caindo numa modorra lodosa, da qual já não se conseguiu libertar.

O contraste com o concerto dos Django Django, já perto das duas da manhã, não poderia ser mais gritante. Menos afectos ao rock tresloucado que colhiam dos Devo no álbum de estreia, a boleia do segundo álbum Born Under Saturn lançou-os, de facto, para um outro campo gravitacional. O psicadelismo continua activo, o catálogo melódico dos Beach Boys não foi esquecido, mas a entrada galopante por terrenos mais electrónicos a partir de Skies over Cairo mostrou uma banda com jeito para menear a anca e com essa sageza fundamental que consiste em perceber que ficar parado e repetir a mesma fórmula musical indefinidamente não costuma conduzir a resultados memoráveis. À chegada de Default, o tema mais popular e mais Devo dos Django Django, a festa estava instalada e, dada a hora, não havia muitas dúvidas a quem se deviam os créditos.

Alt-J, o culto cumprido
As dúvidas ficaram apenas do concerto dos Alt-J (antes disso, rápida passagem pelo palco de comédia para entrever Manuel João Vieira de guitarra armado e cantando sobre um país “a morrer devagarinho/ do Algarve até ao Minho”, queixando-se de várias gerações “a votar nos mesmos aldrabões” e um refrão com a subtileza que lhe conhecemos nos versos “estão a foder Portugal/ e eu acho essa merda mal”). Enquanto os Metronomy não repetiram os níveis de euforia de há três anos no palco secundário, ainda que tenham encantado novamente com esta ultra pop que parece traduzir para a música a cabeça solar, endiabrada e em constante mudança de foco de um miúdo de dois anos — há uma permanente grandiosidade infantil nestas canções —, os Alt-J foram desta vez promovidos para o palco principal.

E por muito bonito que tenha sido o concerto dos ingleses, a verdade é que pareceu um palco demasiado amplo para a sonoridade do grupo. Embora contando com um culto numeroso a servir-lhes de chão, a sua descendência da Beta Band enquanto fazedores de uma música pop trespassada por uma electrónica macia, reminiscências da folk britânica e um torpor rítmico roubado ao drum’n’bass, tudo ao serviço da voz peculiar de Joe Newman (que, quase por milagre, não boicota as composições pelo caminho), o disco mais morno que é This Is All Yours dificulta a imposição da delicadeza destas canções num cenário mais propício a guitarras com o volume no máximo e a baterias hiperactivas. Ainda assim, canções belíssimas como Matilda e Taro tiveram a atenção devida e a recompensa chegou no final com Breezeblocks, o tema mais talhado para multidões e que pareceu ter despertado o público para a sua razão de estar ali a cumprir o culto.

O NOS Alive decorre até sábado. Nesta sexta-feira entram em palco Prodigy, James Blake, Batida ou Mumford & Sons, enquanto a última sessão fica por conta de Disclosure, Chet Faker, Jesus and Mary Chain, Azealia Banks ou Sleaford Mods.
 
Texto actualizado às 11h com fotos da primeira noite do Nos Alive