Crítica

Dançar na corda bamba

Acreditar é uma palavra-chave neste circo interrogativo sobre a realidade e a excepção, que tem desequilíbrios mas é para acompanhar.

Foto
Lara Jacinto/NFactos

Lugar de encontro com o invulgar, o excepcional e o fantástico, um circo acolhe por "natureza" a convergência de especialidades diversas e histórias breves, qual amostra do humano, desfrutada numa atmosfera de curiosidade e prazer colectivo.

Nesta nova peça que Clara Andermatt criou com a companhia Radar 360o, ainda se sente a função de apresentar o desconhecido e o superlativo do antigo circo saltimbanco, que viajava para aceder a novos públicos, sobreviver e fazer circular valores culturais.

Passaram muitos anos de sofisticação numa linha de virtuosismo e magia que deixava bocas abertas perante o inexplicável e o espectacular. Embora por vezes evocados, o risco, o exímio e o extraordinário não são propriedades essenciais deste Novo-Velho Circo. Andermatt fez uma ponte eficaz entre épocas, saltando por cima do circo dos brilhantes exuberantes e dos acrobatas supra-humanos que ainda hoje dominam o circuito comercial.

O novo circo, enquanto género, fomenta afinidades com a interdisciplinaridade, a experimentação e a personalização que nesta peça são forças motrizes. Um primeiro exemplo surge com os intérpretes à mesa da sua própria cerimónia, olhando-se cúmplices, como quem combina todos os trâmites do ritual de uma comunidade que está para começar. Na composição musical de Jonas Runa reside uma valiosa pesquisa sobre a sonoridade de estados e sensações como o medo, a vontade, a alegria, a ansiedade ou o alívio, conseguida com acções tão simples como fazer rolar uma bola, rodopiar uma moeda, respirar, soluçar ou rir.

Tal como num circo tradicional, a peça decorre fragmentada em números, com diferentes actores que exibem qualidades e lhes juntam um tom existencialista que reflecte as suas dúvidas.

A sequência com a roda de Cyr é cativante do ponto de vista acrobático, mas é o jovem homem a falar entre curvas que explora o potencial simbólico do objecto como a roda da vida, onde ele se encontra “só e solto” (das Galáxias de Haroldo de Campos). Noutro número, as máscaras brancas que aparecem no escuro testam e brincam com a ilusão, mas é a coreografia de costas, num pulsar inconstante de aproximação e afastamento, que desenha uma bonita relação de afectos, delicada e recolhida.

O jogo com a percepção tem o maior sucesso na cena em que Mickaella Dantas aparece com uma perna postiça, que se lança para todos os lados e só atrapalha. Ela, que se debate com a questão mais profunda da vida de viajante, em eterno começo “aqui ou além ou aquém ou lá acolá” (texto novamente das Galáxias), percorre o estrado circular, em luta com a prótese incontrolável, num quadro de humor muito bem achado para uma intérprete de excepção, evidenciando o talento de Andermatt para trabalhar com as necessidades e os potenciais específicos das pessoas, dos contextos e dos propósitos.

Neste espectáculo surge uma reflexão interessante sobre o lugar do circo na sociedade e a sua dependência de épocas e meios. Aqui ele aparece como arte despojada em que acreditar é palavra-chave, mas também há desgaste e desequilíbrio no corpo dos artistas que armaram esta tenda e algumas ideias subjacentes são pouco desenvolvidas. Um exagero de nonsense, piadas e partidas no final aproxima-nos muito da realidade, limitando o poder encantatório e a capacidade imersiva da peça. A digressão deste exercício metafórico da vida continua este sábado em Guimarães (Centro Cultural Vila Flor, 22h).