Morreu Maria Barroso, a ex-primeira dama que nunca abdicou do nome de solteira

Foi a única mulher na foto da fundação do PS, em 1973, na cidade de Bad Münstereifel, na então República Federal da Alemanha.

Maria Barroso, em Maio de 2006
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Maria Barroso, em Maio de 2006 Rui Gaudêncio

Maria de Jesus Simões Barroso Soares tinha o apelido do marido, mas nunca abdicou de ser conhecida pelo seu nome de solteira. Apesar de se ter tornado figura pública sobretudo por ter sido mulher de Mário Soares, a ex-primeira dama trilhou, a partir de certa altura, um caminho completamente divergente do do marido, um convicto agnóstico, ao converter-se ao catolicismo. A actividade pública que lhe ocupou a última parte da sua vida esteve ligada à defesa dos direitos humanos, sobretudo como presidente da fundação que criou, a Pro Dignitate.

Nasceu em Olhão, a 2 de Maio de 1925, filha de Alfredo José Barroso, oficial do Exército, e de Maria da Encarnação Simões, professora primária. Maria de Jesus Barroso Soares é a quinta de sete filhos. Morreu na madrugada desta terça-feira, com 90 anos, no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, na sequência de uma queda em casa, no passado dia 25 de Junho, que a deixou em estado de coma. 

Esta segunda-feira, a sua situação clínica deixou de justificar um internamento numa unidade de cuidados intensivos e Maria Barroso tinha sido transferida para um quarto particular, segundo a informação avançada pelo hospital. Dez dias após ter entrado no hospital pelo seu pé, Maria Barroso morreu na madrugada desta terça-feira.

Às 8h desta terça-feira, o porta-voz do hospital, José Barata, fez um comunicado aos jornalistas, informando que Maria Barroso morreu às 5h20, após um coma profundo e cabe agora à família informar sobre as cerimónias fúnebres. No edifício hospitalar estão os dois filhos, João e Isabel Soares. O marido, Mário Soares, ainda não chegou ao local.

Às 8h30, José Barata voltou a dirigir-se à comunicação social para informar que o corpo da ex-primeira-dama ficará no hospital até às 18h, seguindo para o Colégio Moderno, em Lisboa, onde estará em câmara ardente e poderá ser velado. As cerimónias fúnebres realizam-se na quarta-feira, com uma missa às 11h na igreja do Campo Grande, próximo da escola a que Maria Barroso dedicou a sua vida e que pertence à família Soares. O funeral seguirá para o cemitério dos Prazeres, também em Lisboa.

José Barata informou ainda que a família apela ao respeito pela dor e sofrimento por que está a passar e pede que não sejam recolhidas imagens durante o velório no colégio.

Entretanto, o Partido Socialista já manifestou a "profunda dor e sensação de perda" pela morte de uma das suas fundadoras e informou que as bandeiras do partido estarão a meia-haste.

O Presidente da República, Cavaco Silva, também já apresentou as condolências à família. "Mulher de cultura e de causas, Maria de Jesus Barroso distinguiu-se, ao longo de décadas, como uma lutadora pela liberdade e pela democracia, antes e depois do 25 de Abril", sublinha o governante, na mensagem divulgada no site da Presidência da República.

Conversão ao catolicismo
Um ponto de viragem na sua vida foi, de forma assumida, o acidente quase mortal do seu filho João Soares, num acidente de avião na Jamba [território controlado pela UNITA, em Angola}, em Setembro de 1989. Maria Barroso disse sempre que não gostava de falar da sua conversão, por fazer parte da sua vida íntima, mas admitiu várias vezes que, nessa altura, muito mudou.

“Era de noite, o meu marido já se tinha deitado, e eu estava a fazer as malas, porque no dia seguinte partíamos numa visita de Estado à Holanda e à Hungria. Foi curioso... Nessa noite, não conseguia dormir. A certa altura, a minha filha telefonou a dar a notícia de que o João tinha tido um gravíssimo desastre na Jamba, em Angola, e que estava muito mal. E soube que o João tinha sido levado para a África do Sul, para um hospital em Pretória”, disse ao Expresso numa entrevista em 2009.

Já no hospital, continuou a contar, encontrou João Soares em estado grave. "Quase não reconheci o meu filho. E todos os dias perguntava ao médico: ‘Como está o meu filho?’ Ele dizia-me sempre: ‘Um bocadinho melhor, mas continua muito doente. Peça a Deus’”. E Maria Barroso conta que pediu. Mal recebeu a notícia do acidente, lembra que ligou a uma amiga: "’Vá ter com o senhor padre da igreja do Campo Grande [em Lisboa] e peça-lhe que reze pelo meu filho!’ Porque eu estava angustiadíssima. Foi um afastamento de muitos anos. Pode haver um fenómeno que nos toque, que nos fira, que provoque uma angústia, um desejo de nos agarrarmos a qualquer coisa que nos dê força para aguentar. Deus ajudou-me”, disse na mesma entrevista.

O pároco da igreja do Campo Grande, Vítor Feytor Pinto, não fala desse momento da vida passada de Maria Barroso e daquele seu momento de aproximação à fé, por fazer parte “da sua intimidade espiritual”. Prefere falar do presente. Maria Barroso ia à missa das 19h todos os domingos, mas "chegava sempre uma hora antes". "Era de uma grande ternura, atendia e falava com toda a gente que vinha ter com ela. É um exemplo muito bonito de uma cristã que praticava o amor aos outros.”

O sacerdote disse ao PÚBLICO que a ex-primeira dama “era uma paroquiana que participava intensamente na vida da comunidade”. Usando os seus dotes de antiga actriz, “Maria Barroso ensinava a ler ao microfone a quem faz as leituras na missa”, tanto em termos de dicção como de projecção de voz, explicou. "Em festas da paróquia, declamava poesia, como fazia na sua juventude”.

Maria Barroso admitiu que passou por um longo período de “afastamento da fé”. Foi baptizada em criança, mas disse que a vida política contribuiu para a afastar da religião, assim como o facto de, na altura da ditadura, haver “uma discrepância muito grande entre a doutrina de Cristo que pregava a Igreja então em Portugal e a sua prática”, disse na mesma entrevista ao Expresso. “Parte da Igreja apoiou Salazar, aceitando medidas injustas e desumanas e permitindo que a polícia política se instalasse e cometesse os crimes que cometeu em relação à oposição.”

Na vida pública, a sua acção cívica das últimas três décadas ficou marcada pela ligação a instituições como a Cruz Vermelha Portuguesa, cuja presidência assumiu no ano seguinte ao fim do mandato de Mário Soares, e sobretudo a fundação Pro Dignitate, criada em 1994 e que se apresenta como “um grupo de personalidades com o objectivo de prevenir a violência e promover os direitos humanos”.

A vice-presidente do Instituto de Apoio à Criança (IAC), Dulce Rocha, diz que a manutenção do seu apelido de solteira na forma como era tratada era apenas um sinal que “demonstrava uma personalidade forte. Era uma mulher com vida própria, com um percurso de vida muito autónomo que não se confunde com o do marido. Tinha o seu próprio programa”.

A magistrada conhece de perto a actividade da fundação, com quem o IAC mantém uma parceria, notando que “a Pro Dignitate foi precursora nas questões em torno [da prevenção] da violência nos media”.

Maria Barroso divergiu de Mário Soares na fé e noutras questões. Por exemplo, afirmou-se a favor do sistema de quotas para as mulheres na política, ao contrário do ex-presidente da República que acredita que "as mulheres sobem pelo seu valor." Maria Barroso disse: “Sei que é uma forma artificial, mas é a única que consegue ajudar a transformar mentalidades. Sobretudo as dos homens, para um dia admitirem que as mulheres têm os mesmos direitos”. Também discordou de Soares no momento nuclear da criação do PS. Votou contra a fundação do partido, em 1973, tal como defendia Salgado Zenha.

Ao longo da sua vida, manteve uma forma de independência discreta, bateu-se pelos direitos das mulheres mas viveu conformada com a ideia de que “as mulheres ficam sempre na sombra". Gentil Martins, cirurgião católico que conhecia a ex-primeira dama, diz: “Sempre me fez confusão, como é que ela conseguia conciliar as suas crenças com as do marido, que eram antagónicas? Mantendo sempre a coerência com aquilo em que acreditava”, responde.

Única mulher na foto do PS
“Tive medo algumas vezes (…) mas também tinha a convicção de que era importante ter coragem”. Esta reflexão de Maria Barroso, em entrevista ao DN há dez anos, é a marca de uma geração. Da geração que lutou contra a ditadura. Muito antes de estar do lado da oposição ao Estado Novo na Faculdade de Letras de Lisboa, Maria Barroso já conhecera as privações impostas pelo regime de excepção.

O seu pai, oficial do Exército, esteve deportado no Forte de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, nos Açores, por ter participado na Revolta de Fevereiro de 1927, a primeira rebelião, liderada pelo general Sousa Dias, contra a Ditadura Militar instaurada a 28 de Maio de 1926. No mesmo forte de Angra, décadas mais tarde, o seu sogro também estaria preso.

Maria Barroso sempre recordava que o 74.º aniversário do seu pai fora passado em tortura de sono na sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso. Ela própria foi interrogada duas vezes pela polícia política, uma das quais depois de um recital de poesia revolucionária em Santarém.

Declamar publicamente o poema Prometeu, de Joaquim Namorado, valeu-lhe dois interrogatórios pela PIDE. “Ficavam furiosos com este poema”, disse numa entrevista ao jornal i, em Maio deste ano, por altura do seu 90.º aniversário, antes de o recitar: "Abafai meus gritos com mordaças/ maior será a minha ânsia de gritá-los/ amarrai meus pulsos com grilhões/ maior seria minha ânsia de quebrá-los/ Rasgai a minha carne/ triturai os meus ossos/ O meu sangue será a minha bandeira/ e meus ossos o cimento duma outra humanidade/ que aqui ninguém se entrega/ isto é vencer ou morrer…”

Na segunda metade dos anos 40 do século passado, Portugal vivia na ebulição da luta dos aliados contra o nazismo. Nas universidades sentia-se o fervilhar da esperança. Era assim na Faculdade de Letras de Lisboa onde Maria Barroso conheceu Mário Soares, então estudante de Letras e Filosofia: “Encontrei no meu marido o desejo de lutar por um mundo melhor, isso foi uma das coisas que me atraiu extraordinariamente”. Em Maio de 1945 participam, com muitos jovens convocados pelo Movimento Unidade Democrática, nas manifestações de júbilo pelo fim da Segunda Guerra Mundial.

Casariam em 22 de Fevereiro de 1949, por procuração, quando Soares estava preso na cadeia do Aljube. É o início de uma vida de casal fora do comum. Entre várias detenções pela polícia política, um dos momentos mais difíceis foi o tempo de deportação, em 1968, de Mário Soares em São Tomé e Príncipe. Com ele vive durante algum tempo na antiga colónia.

Em 1969, a oposição tenta aproveitar a abertura anunciada por Marcello Caetano. Soares, alguns sectores republicanos e elementos da Acção Socialista Portuguesa - fundada cinco anos antes em Genebra por Mário Soares, Manuel Tito de Morais e Francisco Ramos da Costa - criam a CEUD [Comissão Eleitoral de Unidade Democrática] que concorre às eleições à Assembleia Nacional nos círculos de Lisboa, Porto e Braga. Maria Barroso é candidata em Santarém pela CDE [Comissão Democrática Eleitoral], aliança de comunistas, católicos e independentes de esquerda.

Com o marido no exílio, em Paris, assume um duplo papel. Dirige o Colégio Moderno, pilar da economia familiar, e ocupa-se da educação dos dois filhos, João e Isabel, então adolescentes. “Falava-lhes do pai como um pessoa que desencadeava uma acção a favor da democracia, com o desejo de que os direitos humanos fossem respeitados”, recordaria. Em 1973, é, a única mulher na foto da fundação do PS, em Bad Münstereifel, na então República Federal da Alemanha.

Após o 25 de Abril de 1974, foi eleita deputada à Assembleia da República nas legislaturas iniciadas em 1976, 79, 80 e 83, pelos círculos de Santarém, Porto e Algarve.