Comentário

A mais difícil decisão da chanceler

1. Nunca a chanceler alemã esteve perante uma decisão tão dramática e de tão pesadas consequências. Cinco anos depois do início da crise do euro, tem nas suas mãos uma decisão da qual dependerá, em boa medida, o futuro da Europa. Há duas maneiras de olhar para essa decisão. A primeira, que hoje ainda parece dominar, é aceitar que não haverá problemas de maior se a Grécia sair. Não era assim que a chanceler pensava antes do referendo grego. A segunda é que se trata de uma questão política de enorme relevância, que terá consequências pesadas no médio e longo prazo.

Na segunda-feira, na declaração conjunta com Angela Merkel no Eliseu, François Holllande deixou cair uma frase que estabelece toda a distância em relação a Berlim. O destino da Grécia “é também uma questão de credibilidade europeia.” A seu lado, a chanceler foi suficientemente vaga para não se comprometer. Aceitou que era preciso uma solução “duradoura”. E o que é mais preocupante é que conseguiu ser mais moderada do que o “número dois” da coligação, Sigmar Gabriel, líder do SPD.

Nesta terça-feira, Gabriel compareceu na habitual reunião dos líderes socialistas que precede as cimeiras europeias e de que não era grande frequentador. Foi criticado e prometeu aos seus pares uma posição mais positiva. Assinou a declaração comum de quatro pontos: evitar o Grexit; defender menos austeridade e mais investimento; e, finalmente, ajustar o serviço da dívida ao ciclo económico. O seu problema é que as sondagens mais recentes dizem que 85% dos alemães preferem um Grexit. A reunião também serviu para confirmar que, entre os líderes socialistas que estão no poder, a França e a Itália são os únicos que parecem dispostos a travar uma batalha pela Grécia. Matteo Renzi continua a defender uma solução política, à altura dos valores europeus. François Hollande não quer desperdiçar a oportunidade de regressar ao centro da integração europeia, como o salvador da Grécia. Vai medir a sua capacidade de influenciar a chanceler, lembrando-lhe que é mais fácil liderar a Europa com ele do que sozinha.

2

. Percebe-se a dificuldade de Merkel para enfrentar uma situação extrema que ela própria não foi capaz de prever. O resultado do referendo na Grécia foi, porventura, a maior derrota que sofreu desde que é chanceler. O que vai acontecer é um teste final à forma como geriu a crise. Se falhar com a Grécia, pode sempre dizer que a sua política teve resultados positivos em Portugal ou na Irlanda. Já não é esse o ponto. Como ela própria muitas vezes disse, o fim do euro seria o fim da União Europeia e ninguém consegue prever até onde o euro resistiria à sua própria reversibilidade. Quanto a Portugal, basta ouvir os comentários dos analistas americanos para perceber até que ponto a dívida portuguesa pode passar de sustentável para insustentável com uma enorme rapidez.

Faltou-lhe sempre a dimensão política da crise. Nenhuma democracia europeia é compatível com uma queda do PIB de 25% ou com um desemprego de idêntico valor. O efeito mais devastador deste resultado foi político. Os partidos do sistema, clientelares e corruptos mas dispostos a dançar ao som da música de Berlim, fracassaram um a seguir ao outro, deixando o campo aberto ao populismo de esquerda. A paisagem política europeia está a mudar de forma acelerada no mesmo sentido. Os apelos populistas que se ouvem em quase todos os países, venham da direita ou da esquerda, comungam do mesmo nacionalismo que Alexis Tsipras esgrimiu para ganhar esmagadoramente o referendo. É esse o mais sério problema da Europa neste momento: o regresso de um espírito nacionalista que não hesita em ressuscitar os mitos e as realidades de uma História que teima sempre em regressar.

3.

O mal, aliás, não é só da chanceler. Basta olhar para as reacções de uma maioria de pequenos e médios países da zona euro para perceber até que ponto a Europa está a desaparecer pelas frestas abertas pela crise. A AFP dava conta da reacção dos países de Leste que pertencem à moeda única (Estónia, Letónia, Lituânia e Eslováquia). Ninguém está disposto a ajudar a Grécia. “Ouço dizer que alguns gregos têm pensões de mais de mil euros. É um ultraje. Recuso-me a pagar pelas suas dívidas, quando estão a ganhar fortunas comparando com o meu salário”, diz à AFP uma empregada de restaurante em Bratislava. Nada de muito diferente do que os líderes políticos, nomeadamente em Berlim, andaram a dizer nos últimos anos.

Como é possível reverter os efeitos desse discurso? Em Lisboa, a frase mais repetida pelo Governo é que “Portugal não é a Grécia”. Não é. Mas também não é a Finlândia ou a Áustria ou a Holanda, que não fazem essa distinção entre gregos e portugueses: para eles, os países do Sul comungam das mesmas fraquezas e dos mesmos vícios, que apenas servem para enfraquecer o euro onde nunca deviam ter entrado. Criou-se um perigoso preconceito. As consequências de uma saída grega para Portugal são óbvias. Se um sai, outros podem sair no futuro. É só ficar à espera da próxima crise. Se Merkel quiser seguir pelo mesmo caminho estreito de intransigência, tem infelizmente muitos companheiros de jornada.

 “A tragédia é que o governo grego e os seus credores não estão a avaliar devidamente os seus próprios interesses”, diz Gideon Rachman, no Financial Times. “Os líderes da zona euro sentem que têm de ser duros com a Grécia” para desencorajar outros potenciais “incumpridores das regras.” Deviam fazer o contrário, na Grécia como em Bruxelas: “Olhar para o voto dos gregos como uma oportunidade”. Quanto a Merkel, arrisca-se a enfrentar o seu maior pesadelo: ficar na História como a chanceler que veio do Leste para acabar com a Europa.

Esta terça-feira foi inconclusiva mas teve uma vantagem: está toda a gente com vontade de negociar outra vez. 

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