Uma pergunta longa e um erro de tradução, mas "o povo percebe as implicações"

Conselho da Europa critica a forma como a questão do referendo foi elaborada, dizendo que o conteúdo e as consequências da decisão podem não ser claras.

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O referendo foi convocado no final da semana passada Alexandros Avramidis/Reuters

Depois do falhanço das negociações entre o Governo da Grécia e os seus credores internacionais, as atenções começam a virar-se para a pergunta que os cidadãos gregos vão responder no próximo domingo.

O anúncio da convocação de um referendo, feito no final da semana passada pelo primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, tem dividido opiniões – tanto em relação à decisão como à pergunta em si.

Se estivesse escrito em língua portuguesa, o boletim que os gregos vão colocar nas urnas no próximo domingo teria uma pergunta seguida de uma referência aos nomes dos documentos em causa, escritas nestes termos: "Deve ser aceite o plano de acordo que foi submetido pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetário Internacional no Eurogrupo de 25.06.2015, e que consiste em duas partes, que constituem a sua proposta unificada? O primeiro documento tem como título 'Reformas para o cumprimento do actual programa e para além dele' e o segundo 'Análise preliminar da sustentabilidade da dívida'."

Mais do que a legalidade da convocação de um referendo, os críticos da decisão contestam o facto de os gregos terem apenas uma semana para discutirem e reflectirem sobre uma pergunta que, segundo eles, poderia ser feita de uma forma mais simples. Para além da forma como está escrita, há quem critique também o facto de a opção "Não" (defendida pelo Governo grego) aparecer no boletim em cima do "Sim" – uma opção que a directora executiva do grupo britânico Electoral Reform Society, Katie Ghose, classificou como "pouco habitual", em declarações à BBC.

Entre os críticos está o Conselho da Europa, uma organização que avalia a situação dos direitos humanos nos países europeus, e que não produz pareceres vinculativos nem depende da União Europeia.

"Por ter sido convocado tão em cima da hora, não é evidente se o conteúdo das perguntas e as consequências da decisão são completamente claras" para os gregos, disse à agência Associated Press o secretário-geral da organização, Thorbjorn Jagland.

Para além disso, a agência Bloomberg News noticiou que há um erro na tradução para grego dos documentos que vão ser referendados – um "não" que devia estar no texto em grego, e cuja ausência muda completamente o sentido de uma das afirmações.

Na versão original, lê-se que o financiamento da Grécia nos próximos anos "não aponta para problemas de sustentabilidade nos primeiros dois cenários", mas na tradução lê-se que "aponta para problemas de sustentabilidade".

A directora da Electoral Reform Society, Katie Ghose, também considera que os poucos dias que separam o anúncio de AlexisTsipras do referendo em si podem dificultar a discussão pública, mas acredita que os gregos sabem muito bem o que está em jogo.

"No final, o povo grego vai perceber as implicações de votar 'sim' ou 'não' – mesmo com pouco tempo para se fazer campanhas." E dá como exemplo o referendo sobre os acordos de paz de Sexta-feira Santa no Reino Unido, em 1998, que incluía "uma pergunta muito complexa, mas com escolhas implícitas que as pessoas percebiam".

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