Editorial

O ‘corralito’ argentino e o conselho à Grécia

Tsipras garante que a Grécia não sai do euro – mas não pode garantir que o euro não sairá da Grécia.

A frase “Nunca pensámos viver este pesadelo – e o que vem aí pode ser pior” foi dita esta semana pela grega Katerina em Atenas na reportagem da enviada do PÚBLICO em Atenas, Maria João Guimarães. Mas bem que podia ter sido dita em 2001 por um qualquer argentino que nessa altura vivia dias muito parecidos com aqueles que estão hoje a ser vividos na Grécia. Depois de em 1991 ter feito a paridade entre o dólar e o peso para debelar a hiperinflação, a Argentina chegou a 2001 com a economia em cacos, com os bancos sem dinheiro, com os credores a exigirem reformas estruturais, com um default de dívida e com uma grande agitação política: foi a famosa semana dos cinco presidentes.

Que conselhos têm os argentinos para dar à Grécia? Não saiam do euro. O antigo ministro da economia Domingo Cavallo, que impôs à Argentina as medidas de controlo de capitais que ficaram conhecidas pelo "corralito", disse esta terça-feira à agência Bloomberg que a saída do euro iria provocar uma forte desvalorização do dracma e a inflação iria provocar uma grande erosão no valor real dos salários e pensões, o que significaria uma perda de poder de compra bastante superior àquela que teriam se aceitassem a austeridade que lhes está a ser imposta pela troika.

Isto não significa que o Governo grego deve cruzar as mãos e resignar-se perante a sede insaciável dos credores pela austeridade. Mas é preciso dizer a verdade aos gregos. O primeiro-ministro, Alexis Tsipras, diz que o voto "não" que ele defende no referendo de domingo não significa uma saída da zona euro. Mas é preciso explicar a quem vai votar que, não existindo mecanismos legais para a Grécia sair do euro (a união monetária), o euro (a moeda) pode sair da Grécia. A banca está fechada precisamente por falta de euros. Não se trata de fazer uma campanha de medo, mas, como diz Katerina, alertar que “o que vem aí pode ser pior”.

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