Opinião

O efeito Sampaio da Nóvoa

A sua trajectória traduz a possibilidade do acumular de forças contra a tirania do pensamento único.

Conheço António Sampaio da Nóvoa há mais de 25 anos. É meu colega no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa e tem sido uma referência constante nas minhas investigações sobre história da educação e da cultura.

Invoco esta minha proximidade profissional com o propósito exclusivo de contribuir para o alargamento do debate sobre o sentido e os limites da participação cívica. Debate este que muitas mulheres e homens, jovens e velhos, em Portugal e no mundo, sentem e tomam hoje como absolutamente necessário para enfrentar a máquina de produção da vida triste que nos governa e nos atinge no coração de nós mesmos.

Refiro-me a uma economia da pobreza que está longe de se resumir à iniquidade da distribuição do dinheiro e do trabalho, o que já de si é trágico, mas que, na sua força totalizante e totalizadora, domina também as instituições, abatendo-se com o mesmo vigor sobre as relações que as pessoas estabelecem umas com as outras e até consigo próprias.

Uma máquina que produz exclusão, segregação, confinamento, impotência e apagamento, que se encontra à vista de todos, mas cujos mecanismos ainda não compreendemos bem. Pelo desassombro da iniciativa e pela proveniência de António Sampaio da Nóvoa, a sua candidatura constitui um verdadeiro acontecimento cívico – pressiona fortemente as regras do jogo e os limites do discurso político tal como se apresentam hoje entre nós.

Este é pois um texto sobre a potência, melhor dito, sobre o significado daquele que ousa tomar a palavra e, com o seu gesto, logo desencadeia múltiplos discursos de estranhamento e o mais vivo repúdio. Parecerá evidente aos olhos de qualquer observador, mais ou menos atento, que o anúncio de Sampaio da Nóvoa em concorrer à presidência da República causou um conjunto de reacções adversas.

Deixo o essencial dos argumentos sobre a sua pessoa expendidos nos últimos dois meses: que é um académico sem experiência governativa, partidária ou televisiva, estando por isso notoriamente incapacitado para qualquer cargo político; que usa os recursos da oratória para esconder a total ausência de projecto; que, na inversa, tem um entendimento exagerado dos poderes presidenciais e irá, se for eleito, exorbitar das competências que a Constituição lhe confere; que cita poetas e fala de Abril para se acercar do espírito do povo e do regime em que estamos, recursos argumentativos serôdios e que fazem dele o saudosista da loucura consentida dos idos de 70, a qual não cai nada bem a quem hoje está bem de vida.

Não irei rebater estas análises que declaram Sampaio da Nóvoa como uma não-existência. Tomá-las-ei enquanto sintoma e como parte do problema mais geral das relações entre verdade e política. Por detrás do ruído está uma importante pergunta a que todos os comentadores fogem: o que, na história de vida de uma pessoa, lhe confere credibilidade, honradez e competência, para participar de forma competente no jogo do poder?

A desvalorização e o silenciamento do património de ideias e práticas que o agora candidato Sampaio da Nóvoa foi acumulando ao longo dos anos é, a meu ver, o mais inequívoco sinal de que estamos face a uma possibilidade entusiasmante de exercer o poder. Alguém que possui a habilidade de congregar fortíssimos apoios à sua volta, mas tem a suprema audácia de reivindicar uma independência a partir da sua própria trajectória anterior, logo se transforma, como é evidente, na maior ameaça.

É, pois, do medo que brota a pulsão de ridicularizar, de apoucar. O desafio que a sua candidatura nos lança é o de saber como enfrentar o crescente acantonamento dos políticos e do discurso político, num circuito de participação assaz estreito, que fragiliza o regime e nos indigna a todos com as suas inúmeras e insuspeitas teias de cumplicidade.

Enquanto universitário, António Sampaio da Nóvoa é uma referência internacional na sua área de inserção disciplinar – a educação comparada e a história da educação nos períodos moderno e contemporâneo. Mas, para mim, o mais importante a reter é a sua capacidade de promover encontros, de pensar e desenvolver iniciativas no interior de grupos heterogéneos e tão sensíveis como os que se encontram no interior das instituições de ensino superior. De ter o entusiasmo e a resiliência suficientes para levar a bom porto projectos de grande dimensão há muito desejados mas que, por qualquer razão da realidade imediata, foram sendo uma e outra vez adiados. De facto, construiu e soube manter activas durante anos várias redes, que envolveram muitas dezenas de investigadores e de cujo persistente labor vieram a sair instrumentos para o conhecimento aprofundado da educação e ensino nos séculos XIX e XX, sem qualquer paralelo noutras áreas da investigação social.

Depois, enquanto reitor da Universidade de Lisboa, e além do governo da instituição, estabeleceu pontes e articulou ideias suficientes das quais resultaram a mais importante transformação – a fusão com a Universidade Técnica em 2013 – que a instituição sofreu desde a sua fundação, há pouco mais um século atrás. É, já se vê bem, um homem que, em nome de uma ideia para o futuro, construiu toda a sua fulgurante carreira a mobilizar outras pessoas; aprendeu a estar em comunidade com colegas e alunos, trabalhou arduamente para inventar e produzir objectos singulares, incitando outros a criarem igualmente os seus. Bateu-se por uma universidade do amanhã, centrada na inventividade, na cooperação e na sofisticação dos processos de investigação em clara ruptura com os modelos tradicionais e dominantes de reprodução do saber.

A sua trajectória traduz a possibilidade do acumular de forças contra a tirania do pensamento único e das hierarquias autobloqueadas, que dominam infelizmente ainda nas nossas instituições, sejam elas universitárias ou não. Todos precisamos, para nos desenvolvermos, de bons encontros, como diria Espinosa, encontros esses que nos levem a expandir o conhecimento entretanto adquirido, a querer ser mais. Ora, esse movimento para a frente só se cumpre criando espaços de relação, questionando e pondo em crise as evidências, aquilo que nos paralisa e nos é apresentado como verdade única.

Não tenho nenhuma dúvida que António Sampaio da Nóvoa será, como Presidente da República, o que sempre tem sido. Um elemento que combaterá os sistemas de exclusão no espaço público, que criará condições para a ampliação e a explosão das estruturas em que as pessoas falam por elas próprias e se fortalecem umas com as outras, a fim de construírem novas coisas. Que assume a possibilidade de estar frente-a-frente, de pensar conjuntamente.

Um presidente que promoverá acções de prática, que instaurará condições para o aparecimento de novos diagnósticos e redes e rostos individuais, que quererá conhecer para compreender e não apenas para constatar ou justificar. Imagino o meu colega como aquele que tem a audácia de dar as boas vindas, que está na Casa – no Palácio de Belém – sobretudo para acolher o outro, para falar a linguagem da hospitalidade, personificando assim um acréscimo inesgotável da atenção aos cidadãos.

Historiador. Professor do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa