Opinião

A “syrização” da crise

Jean-Claude Juncker, que não hesitou em contrariar os membros mais ortodoxos do Eurogrupo e das grandes chancelarias

1. Quando António Costa e grande parte da prole socialista se ufanava com a vitória do Syriza e com tudo o que ela ia trazer, escrevi aqui, a 3 de Fevereiro deste ano, um artigo intitulado “o Syriza não é solução: é problema”.

2. Desde a aliança à direita radical dos “gregos independentes” aos permanentes sinais de vassalagem diante da Rússia de Putin e aos inacreditáveis acordos com o venezualeno Maduro, tudo mostra que o problema não é apenas de visão económica e financeira, é um verdadeiro e próprio problema político. Pior que isso, foi a constante variação das equipas técnicas de negociação em Bruxelas que impediu qualquer fio de continuidade no diálogo empreendido ao longo de meses. E, bem assim – ou mal assim –, a incapacidade sistemática de apresentar propostas, de as fazer chegar em tempo e em detalhe aos representantes das instituições e a falta de plausibilidade e de credibilidade dos números em que assentavam as poucas que ainda se atreviam a adiantar. Do ponto de vista técnico e administrativo, um desastre e nada mais – um desastre, portanto. Como se isso não bastasse, os membros do novo governo grego não quiseram nem souberam pôr-se do lado daqueles que – com grande sentido de responsabilidade e contra alguns dos grandes pesos e figurões da Europa institucional e do FMI – desejavam arduamente um compromisso. À cabeça deles todos, Jean-Claude Juncker, que não hesitou em contrariar os membros mais ortodoxos do Eurogrupo e das grandes chancelarias e não deixou de fazer a apologia da Grécia junto dos líderes de todos os executivos da Europa. Mas – a par de outros que mostraram a mesma abertura e boa-vontade – foi tratado como mais um: uma espécie de Kerenski idiota e útil, do qual se haveriam de desembaraçar no desenlace final da revolução. Havia, ao mesmo tempo, uma agenda paralela – que nada tinha que ver com o terrível transe europeu – e que era a da colectivização da economia, com futuras expropriações, nacionalizações e reversão das “relações de produção” na melhor tradição marxista. Para já não falar no nacionalismo, bem emparelhado com as alianças aos radicais de direita e bem documentado nas despesas de defesa (cuja redução só foi equacionada nos momentos mais exasperantes da barganha). Uma espécie, no fundo, de amálgama ideológica e de vertigem revolucionária a que quadraria bem o epíteto de “nacional-marxismo”. Ao que acresce o investimento bizarramente desproporcionado no marketing político, fosse pelo lado “charmeur” do pescoço descalço de Tsipras, fosse pelo lado glamoroso, vaidoso e casual chic do seu ministro Varoufakis. A esquerda caviar não se passeia apenas no Chiado, chegou também, e pelos vistos com mais estilo, à Acrópole. Tudo a contrastar – diga-se de passagem – com a omnipresente invocação de uma crise humanitária em Atenas, que, mesmo encenadamente, reclamaria um pouco mais de sobriedade e discrição.

3. Sendo um membro entusiasta do Partido Popular Europeu – coisa que agora parece quase motivo de criminalização política –, sendo um federalista convicto, fui sempre crítico (moderadamente crítico) da resposta que os governos europeus, por intermédio do Conselho Europeu e do Eurogrupo, deram à talvez inadequadamente chamada “crise das dívidas soberanas”. Sou, aliás, testemunha ocular e presencial de que personalidades como Durão Barroso (então presidente da Comissão Europeia) e Hermann Van Rompuy (à época presidente do dito Conselho) também teriam preferido outro tipo de resposta: mais rápida, mais maciça e mais lapidar à emergência grega de 2010. Sucede que, como todos sabem, a moeda única padecia de graves insuficiências institucionais e estruturais e, por isso, a resolução da crise ficou à mercê dos governos nacionais. E estes, acirrados pelas suas opiniões públicas e muito democraticamente cativos dos seus eleitorados, optaram por um caminho lento de restauro da confiança perdida. Arrancaram da divisão norte-sul e países disciplinados-países indisciplinados e deixaram – quando não, alimentaram – afundar um enorme fosso de confiança entre os executivos europeus, altamente contagiado aos eleitorados respectivos. A primeira prioridade tornou-se, pois, a de restaurar a confiança, impondo políticas de disciplina orçamental aos Estados em dificuldades. À medida que estes as foram adoptando, com maior ou menor diligência e debaixo de graves sacrifícios infligidos às respectivas populações, foi-se adensando o clima de confiança. Para isso contribuiu também alguma aprendizagem durante a crise e a emergência política de alguns vultos mais lúcidos como Mario Monti ou, acima de todos, Mario Draghi. A verdade é que a Irlanda, Portugal e a Espanha reconquistaram o reconhecimento e a confiança dos seus parceiros europeus, dos credores em especial e dos mercados em geral. E que isto abria caminho, para a prazo, levar a cabo uma reforma mais profunda de integração da zona euro que pudesse tornar ainda mais sustentável a recuperação e a viabilidade da convergência dos estados afectados pela crise. Apesar de ter problemas bem maiores, era nesse mesmo caminho que se encontrava a Grécia nos finais de Dezembro de 2014. O calvário percorrido suscitava confiança e permitia antever, fosse pelos índices económicos, fosse pela resposta dos mercados, que os gregos poderiam vir a beneficiar, no médio prazo, da dita reforma profunda da zona euro. Sem essa confiança, esta estratégia de pequenos passos, do tão criticado too little, too late, não podia ser levada avante.

4. A chegada ao poder do Syriza, do seu encanto contagiante sobre o radicalismo de esquerda na Europa do Sul e do seu efeito de indução do populismo de direita na Europa do Norte interrompeu, talvez, definitivamente esta perspectiva de solução dolorosa, mas evolutiva e progressiva. Ninguém esqueça: os aliados do Syriza no voto “não” do “referendo mais célere do mundo” são os radicais de direita “gregos independentes” e os neo-nazis do Aurora Dourada. Se isso não diz tudo, diz quase tudo.