Entrevista

“Entre honrar compromissos com credores ou idosos, escolhemos os idosos"

A ex-bloquista, que foi mandatária para a Juventude de Mário Soares nas presidenciais 2006, é a nova secretária-geral do PTP e vai ser cabeça-de-lista do Agir por Lisboa nas legislativas. Para já coligado com o PTP e PDA, o movimento deverá alargar-se. Primeiro objectivo: eleger um a dois deputados.

Joana Amaral Dias
Foto
Joana Amaral Dias Rui Gaudêncio

Alguns cartazes a dizer “vendido”, recentemente postos em edifícios pelo movimento “Eu não me vendo”, foram-no pela mão de Joana Amaral Dias, 40 anos, activista do Agir e não líder, eles dispensam hierarquias. Ressalva que a política não é andar a colar cartazes, mas gosta da acção directa. Uma noite a colá-los é, aliás, uma das escassas memórias que a psicóloga guarda da curta passagem, aos 13, pela JS em Coimbra.

Foi também na rua, mais tarde, que ganhou consciência política. Era ainda estudante de psicologia. Distribuía seringas a heroinómanos, preservativos a prostitutas. Ganhou consciência “crítica” que há uma “imensa massa fora do sistema”, que é preciso “construir uma sociedade mais solidária”, com políticas públicas. O voluntarismo da juventude não chegava. Filha de pais presos pela PIDE, é “constitucionalmente de esquerda”. Mas o Agir não. Nem de esquerda, nem de direita. Quer antes dar resposta aos problemas concretos das pessoas. Joana Amaral Dias ouve-os todos os dias. Na rua, outra vez.

A coligação PSD-CDS surgiu, nas sondagens, à frente do PS. Os portugueses estão ou não descontentes com o Governo?

Tenho reservas em relação às sondagens. Têm falhado. Não tem para mim o valor de leitura da realidade, mas não me surpreenderia assim tanto se viesse a acontecer. As pessoas olham para o PS e para as propostas do PSD e CDS e não encontram diferenças substantivas. Ficam ali indecisos, se é a maçã vermelha, verde. São maçãs.

Mas não estão a punir o Governo…

Se as pessoas precisam de laranjas ou pêras, por que vão premiar quem só dá maçãs como o PS? Com uma adenda: as pessoas, se calhar, a certa altura, preferem o original. As medidas não são substancialmente diferentes. O PS acantonou-se. Não é específico deste PS.

Uma crítica aos outros partidos socialistas da Europa?

Todos os partidos socialistas na Europa, nestes últimos 10, 15 anos, se deixaram colonizar, seduzir pelas forças neoliberais, pela ideia do mercado auto-regulado, do mundo da finança.

De que forma o que está a acontecer na Grécia pode influenciar os resultados eleitorais em Portugal?

O que está a acontecer é uma negociação dura: uma Europa que defende o grande capital e um governo com forte apoio popular que quer defender os interesses dos cidadãos. O Syriza está a fazer aquilo que se espera que qualquer governo faça pelo seu povo. E nós olhamos com muito bons olhos para o referendo [

[o plano de resgate financeiro proposto pela

troika

vai a referendo na Grécia a 5 de Julho]

, é uma forma de devolver a voz e a própria democracia aos cidadãos.

Mas pode reforçar a esquerda ou, pelo contrário, deixar as pessoas apreensivas? Há receio de instabilidade, preocupação com o sistema bancário, uma corrida às caixas multibanco...

Independentemente do desfecho, há uma coisa que fica em cima da mesa: há quem esteja disposto a lutar até ao fim pelo seu povo. Aquela história de que não há alternativa, que não há outra solução senão ir para a câmara de gás, cabisbaixo, obedecendo às ordens do carrasco, é mentira. Não vamos ser colaboracionistas desses carrascos, essa é a questão que o Syriza levanta. Escolher o que é justo, que é o que o Governo grego está a fazer, não significa escolher o que é fácil.

Mas a esquerda pode ser prejudicada em Portugal, em termos eleitorais?

A prioridade do Agir não é o que é bom para a esquerda ou direita. Nem nos situamos dessa forma. Estamos interessados no que é bom para o povo português e para os povos europeus. Há muita poluição nesta história da Grécia. Quem trouxe o povo grego até esta situação não foi o Syriza, foi o PASOK e a Nova Democracia. Quem a seguir implementou a política da troika não foi o Syriza. E os resultados da austeridade? Nenhuns. A dívida, tal como em Portugal, disparou. Mais mortalidade infantil, mais suicídios, mais empobrecimento no tecido económico. O Syriza não teve nenhuma responsabilidade. Chegou agora. É uma espécie de bombeiro, que chegou com o edifício todo a arder e que vem tentar salvar aquilo que ainda é possível resgatar. Colocar a responsabilidade da solução de tudo o que aconteceu em cima do Syriza é intoxicar a discussão. A culpa desta situação é do bloco central grego.

Quais as prioridades do Agir?

Defendemos três eixos mais um. Em primeiro lugar, o combate sem tréguas à corrupção. Dentro desse combate, uma das medidas é uma auditoria cidadã à dívida que nos diga com transparência e seriedade que parte é legítima e que os contribuintes portugueses têm de arcar. Não podemos consentir que tenha havido dinheiro nestes anos para resgatar bancos, para parcerias público-privadas que criam contratos milionários, para swaps, e que nós tenhamos de pagar essa dívida. Ao mesmo tempo, não existe dinheiro para pagar reformas e pensões condignas.

E depois da auditoria?

Vemos se a dívida é pagável dentro daquilo que é honrar outros compromissos. Não temos só de honrar compromissos com os credores, mas também com pensionistas e reformados, com crianças que vão para a escola sem pequeno-alomoço, com pessoas que chegam às urgências dos hospitais. Se alguma vez o Agir estiver na situação de escolher entre honrar compromissos com os credores ou com pessoas idosas, vai escolher as pessoas idosas, que é uma questão de vida ou morte. Depois dessa auditoria, se o que sobrar for pagável, muito bem, se não temos de ir pelo caminho da reestruturação. A direita, os defensores da austeridade, quando estavam em campanha gostavam muito de usar a metáfora da família para falar do Estado, das finanças. Essa comparação tem muitas insuficiências mas, já que gostam tanto, proponho a seguinte: se lá em casa, os pais tiverem de optar entre pagar o condomínio ou ir buscar leite para dar às crianças, o que é que vão optar? Acho que qualquer pessoa opta por comprar leite.

O segundo eixo que propõem é o aprofundamento da democracia. Têm feito assembleias cidadãs, defendem o referendo revogatório…

Sim. Há muitas experiências de democracia directa combinadas com democracia representativa em vários países. Não é nenhuma excentricidade do Agir. O referendo revogatório é importante. Um conjunto alargado de cidadãos diz que este governo não cumpriu as suas promessas, faz-se o referendo, a maior parte diz que deve ir para rua, por que não há-de ser assim? Por que é que a democracia tem de se limitar a um cheque em branco que é passado ao poder executivo de quatro em quatro anos? Os mesmos actores políticos que, no domingo eleitoral, vão carpir a abstenção acham bem a quantidade de assinaturas que é preciso recolher para fazer um partido. E a quantidade de petições que chegam à Assembleia da República e são tratadas como lixo? Não há nenhuma justificação para, num país europeu do século XXI, com o nível de educação formal que atingimos, as pessoas não poderem participar directamente. É necessário envolver as pessoas.

Falta o terceiro eixo: as pessoas devem escolher o modelo económico em que querem viver?

Sim, devem ter esse direito. E estamos convencidos que, dentro desse modelo económico, existe um amplo consenso nacional que é a defesa das funções sociais do Estado: do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública, da segurança social. A economia deve servir as populações e não o contrário. Até a medicina está para servir as populações. Só num estado nazi é que as populações estavam ao serviço da medicina para serem cobaias. A economia, como qualquer ramo das ciências, é para servir as populações. Como os governantes estão aqui para servir as populações, são empregados do povo. O Agir não quer ter a pretensão da última palavra, mas queremos que isso seja claro: os portugueses querem ou não aquelas funções sociais do Estado protegidas? Se querem, temos de as proteger. Estamos aqui para defender os interesses das populações.

Querem eleger um ou dois deputados e, no futuro, formar governo. Tem noção da dificuldade deste combate, de se imporem não apenas como um partido de protesto?

Acho que vamos conseguir. Partimos para este combate sabendo que ia ser muito difícil, mas temos de tentar. Nestas eleições gostávamos de eleger. Temos propostas da ordem da transformação social, que podem contribuir para um parlamento mais representativo, mas diversificado. Mas o Agir, de facto, é diferente dos outros partidos, por várias razões. Não somos de esquerda, nem de direita. Não estamos preocupados com essa leitura da realidade. Achamos que, neste momento, o que interessa é trazer as pessoas que estão fora do sistema para dentro do sistema. Não queremos ser um partido de protesto, queremos ser um partido de poder. Mas interessa-nos marcar este espaço político, elegendo ou não, sendo governo ou não, já mais a médio prazo. Mostrarmos que é possível acção directa. Que é possível construir soluções políticas alternativas que defendam os interesses da população, da maioria e não propriamente do tal pequeno círculo dinástico que controla ou pretende controlar os recursos.

Em relação aos partidos do Parlamento, estão abertos a coligações?

Não estamos abertos a nenhuma coligação que envolva os colaboracionistas. Os que têm defendido os grandes interesses, os interesses da Alemanha, da China, e não dos portugueses, estão excluídos. PS, PSD, CDS, nunca. Essas são as pessoas que nos trouxeram até à ponta do precipício. Algumas deram o pontapé para que pessoas caíssem do penhasco. Não esquecemos e não perdoaremos o que se tem passado nestes anos em Portugal.

O Agir não se situa à esquerda, nem à direita. Mas defende o aumento do salário mínimo em 30 euros, a reposição das pensões, a proibição de mexidas na Taxa Social Única, o combate às privatizações…

Eu sou constitucionalmente de esquerda…

E outros rostos do Agir... O Nuno Ramos de Almeida…

Mas o PDA não é de esquerda. E muitas associações que estão connosco não são de esquerda, nem de direita. O que importa neste momento é resgatar os valores republicanos e democráticos, que estão ameaçados. As pensões de reforma serem intocáveis, isso é de esquerda? As privatizações? Até um ultraliberal percebe que são uma péssima gestão do erário público. Dizer que a TAP foi vendida a troco de um balão de ar é uma questão de esquerda? É uma questão racional de defesa do interesse estratégico do país. Nos últimos anos em Portugal, uma enorme massa de cidadãos saiu à rua. Não eram de esquerda, nem de direita, não eram trabalhadores, nem desempregados, nem artistas ou operários. Eram tudo e mais alguma coisa. O que queriam era um combate à corrupção, que parassem de mexer nos seus salários e pensões. São de esquerda? Penso que não. Estive nessas manifestações. Todas.

A Joana Amaral Dias e o Nuno Ramos de Almeida saíram do Juntos Podemos para formar o Agir que mantém, afirmaram, o mesmo ADN. Os eleitores não vos podem situar até numa esquerda mais radical? Dizerem que não são de direita nem de esquerda não é confundir o eleitorado?

O eleitorado sabe que o problema neste momento não é a esquerda e a direita. São as pessoas que estão debaixo, a ser esmagadas pelas botas cardadas dos grandes interesses financeiros, e o tal círculo monárquico de confiança de meia-dúzia a tentar controlar os recursos de todos. Esquerda e direita é uma grelha de leitura que não se adapta à realidade de hoje. O que encontro todos os dias na rua quando vou ao supermercado, dar aulas, para o consultório, nos transportes, são pessoas que querem falar das dificuldades em pagar as contas, em proporcionar um futuro aos filhos. Ninguém me fala da esquerda e da direita. Esquerda/direita interessa, claro, mas estou mais preocupada com os interesses dos cidadãos.

Para já na coligação estão o Partido Trabalhista Português (PTP), o Partido Democrático do Atlântico (PDA) e várias associações e movimentos. Estão a fazer mais contactos. Com quem?

Antes do Verão vamos ter novidades, para já só posso dizer que são partidos de esquerda e que não são propriamente de esquerda, como o PDA não é. Adoptámos uma forma negocial simples: todos os que aceitam, subscrevem os três eixos mais um, assinam um compromisso público. Têm um contrato com os eleitores de que é aquilo por que vão lutar até ao fim, é só isso que exigimos. Depois, não temos de estar de acordo em tudo. Eu não estou de acordo com tudo que dizem nem sequer os activistas do Agir, quanto mais os militantes do PTP ou do PDA.

Vai ser a cabeça-de-lista por Lisboa, José Manuel Coelho pela Madeira, o presidente do PDA Rui Matos, pelos Açores. Já há acordo em relação a outros nomes?

Cabeças-de-lista vão surgir naturalmente. Eu só estou nesta condição porque era uma das activistas do Agir com mais presença mediática. Não temos propriamente uma estrutura hierárquica, não damos essa importância ao combate pelos lugares, lugarinhos e lugarejos.

Estão a preparar mais acções, como as dos cartazes a dizerem “vendido”, para a campanha eleitoral?

Em breve haverá outras. Chamamo-nos Agir, fazemos acção directa.