Encerramento de Santa Apolónia foi ideia da própria Refer

A ideia lançada há dias pelo vereador Manuel Salgado para acabar com o complexo ferroviário de Santa Apolónia não é original.

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Infraestruturas de Portugal confirma que libertará 18.000 m2 Hugo Correia/Reuters

A ideia lançada há dias pelo vereador Manuel Salgado para acabar com o complexo ferroviário de Santa Apolónia não é original.

A própria Refer, através da sua subsidiária Invesfer, chegou a elaborar um projecto que previa substituir a linha férrea por um metro de superfície até ao Oriente e Cabo Ruivo e construir um projecto imobiliário nos terrenos agora ocupados pelas linhas. O edifício da estação seria um hotel.“A câmara [de Lisboa] era favorável porque havia a hipótese de revitalizar toda aquela área, mas [o projecto] não avançou”, recorda Rui Loureiro, último presidente da Refer e actual presidente da Transportes de Lisboa (Metro e Carris). A crise afectou fortemente o sector imobiliário e, já no mandato de Rui Loureiro, o projecto foi reformulado. Santa Apolónia não seria encerrada, mas o parqueamento dos comboios seria deslocado para a zona de Braço de Prata (perto da gare do Oriente) para a zona ser requalificada. E mantinha-se a intenção de fazer um hotel na estação terminal.  A nova abordagem, recorda o gestor, tinha em conta o terminal de cruzeiros a construir ao lado da estação e uma maior ligação ao Terreiro do Paço. “Era estender o centro da cidade até Santa Apolónia. Até há uma maquete com esse projecto.”Contactada pelo PÚBLICO, a Infraestruturas de Portugal (que resultou da fusão da Refer com a Estradas de Portugal), a empresa não quis comentar as declarações de Manuel Salgado, tendo-se limitado a dizer que “está prevista a libertação de 18.000 metros quadrados de espaços actualmente ocupados por serviços no complexo de Santa Apolónia que, numa lógica de rentabilização, poderão vir a ser afectados a actividades comerciais no médio prazo”.O PÚBLICO apurou que se pretende transformar grande parte da estação numa unidade hoteleira e afectar ao comércio os edifícios colaterais, nomeadamente aquele onde hoje funciona o bar Clube Ferroviário. O hotel não será um hostel como os das estações do Rossio e do Cais do Sodré, mas uma unidade hoteleira de algum luxo, articulada com o terminal de cruzeiros de Santa Apolónia. O projecto inicial da Invesfer para o canal ferroviário surgiu depois da Expo 98, numa altura em que se verificou uma verdadeira corrida, por parte de grandes investidores imobiliários, a tudo o que eram terrenos potencialmente urbanizáveis entre o Parque das Nações e Santa Apolónia. A Câmara de Lisboa, por seu lado, desencadeou em 2000, ainda no mandato de João Soares, a elaboração do Plano de Urbanização da Zona Ribeirinha Oriental (PUZRO).  Este plano, cuja primeira versão foi chumbada pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional em 2006, deveria viabilizar os diferentes projectos imobiliários que o Plano Director Municipal (PDM) proibia, mas que estavam nas intenções da câmara e de grupos como a Obriverca (entretanto falida), a Inland (de Luis Filipe Vieira) e vários fundos de investimento do Grupo Espírito Santo.Em 2008, já com Manuel Salgado à frente do pelouro do Urbanismo, a câmara acabou por desistir de levar o PUZRO por diante, ficando o futuro da zona resolvido com o novo PDM, que entrou em vigor em 2012, e com os planos de pormenor previstos para a zona. Um deles, o da Matinha foi aprovado em 2011 e contempla a urbanização de cerca de 20 hectares do Grupo Espírito Santo. O seu autor, por encomenda do grupo proprietário feita em 2005, foi Manuel Salgado e o atelier Risco, de que a primeira mulher e os filhos são proprietários. Com José António Cerejo