Opinião

O regresso de Versalhes

Para esta geração de tecnocratas que confundem países com empresas e eleitores com funcionários, não bastava, porém, uma vitória. Como em Versalhes, tinha de haver reparações pesadas sem direito a negociação.

O Governo arrogante e mitómano de Alexis Tsipras saiu do Eurogrupo de sexta-feira vergado não apenas pelos custos do delírio do seu programa político mas principalmente pela cegueira de uma geração de líderes europeus que não consegue ver além das sondagens e da sua sobrevivência política.

Custa determinar quem tem mais culpa no desfecho deste diálogo de surdos que dura desde Fevereiro. O Governo grego é um claro candidato ao prémio da irresponsabilidade, por julgar que o radicalismo e a ressurreição dos fantasmas de uma Europa de bons e maus (a invocação do passado nazi da Alemanha foi simplesmente abjecta) podiam satisfazer a sua vontade de matar a austeridade. Mas ainda mais culpa tem esta Europa que esqueceu mais de meio século de vida em comunidade e, em especial, esqueceu que o ressentimento é um vírus destrutivo, difícil de matar depois de ser gerado.

Entre o espírito punitivo do Tratado de Versalhes, que no final da Primeira Guerra Mundial castigou tão pesadamente a Alemanha que abriu as portas ao nazismo, e o Plano Mashall, que no final da destruição de 1939-1945 quis passar uma esponja pelo passado e inaugurar uma nova era de prosperidade na Europa, o comportamento das “instituições” seguiu claramente a primeira via nas negociações com a Grécia. Convém notar desde o início que a União jamais poderia aceitar as pressões do Governo grego que, com base em promessas irrealistas, se arrogava no direito de mudar unilateralmente a forma como se geriram quatro anos de crise do euro e exigia que a sua soberania se sobrepusesse a todas as outras. O problema é que a Europa reagiu ao discurso radical de Atenas com um inescapável desejo de vingança, no qual a ponderação e a racionalidade sucumbiram à vontade de vergar Tsipras e Varoufakis. Vale a pena notar que, desde o início, e apesar de toda a propaganda, a Grécia foi cedendo e na proposta do último fim-de-semana admitia já aplicar medidas de austeridade e parecia rendida ao músculo do Eurogrupo. Mas, em vez de aproveitar a abertura grega e entrar na negociação cedendo algo mais do que o limite do superavit primário (no qual já tinha cedido), a Europa decide manter a sua posição de vilão perante um pedinte fragilizado e desorientado.

A Europa, esta Europa, não percebeu que, no estado a que tinha chegado o processo, jamais poderia ser intransigente como o foi. Tinha de ceder nas vírgulas para que Tsipras mudasse o texto. Porque sabia perfeitamente que o primeiro-ministro grego estava a gastar com esse plano os últimos cêntimos do seu capital político – era até improvável que fosse aprovado no Parlamento grego. Perante o dilema de aproveitar a onda de optimismo que a Comissão e vários membros do Eurogrupo manifestaram no dia 21 e o desejo mesquinho de impor uma derrota incondicional às veleidades gregas, “as instituições” optaram pela segunda fórmula. Chegados aqui, já pouco interessa saber que Atenas se dispunha a aumentar impostos, a cortar pensões, a fazer reformas nas suas protecções ridículas a profissionais ou sectores económicos ou a mudar o seu sistema previdenciário nos timings e na substância que lhe era imposta. Pouco interessa também notar que essa receita era a repetição de uma política que levou a Grécia para um desastre.

A Europa e as “instituições” tiveram tudo na mão para sair bem do problema. Depois da capitulação de Tsipras à austeridade, a sua superioridade e o castigo à ovelha grega tresmalhada da ortodoxia oficial estavam garantidas. Para esta geração de tecnocratas que confundem países com empresas e eleitores com funcionários, não bastava, porém, uma vitória. Como em Versalhes, tinha de haver reparações pesadas sem direito a negociação. Em 1919, a Alemanha estava arrasada pela guerra e cedeu. Hoje, o Syriza sabe que a capitulação em Bruxelas significava a hecatombe em casa. Não apenas para os seus líderes, mas também para o país. Um acordo imposto pela lei dos mais fortes a um estado frágil derrubaria o governo, alastraria o ressentimento contra a Europa, faria explodir o ódio nacionalista e levaria ao florescimento de mil “syrizas” ou de mil “auroras douradas”. Mesmo que o referendo dite a vitória do “sim” ao acordo com as “instituições”, os gregos jamais deixarão de se sentir vítimas dos poderosos – se bem que as culpas maiores são dos líderes que elegeram nas últimas décadas.

Nesta estratégia de vistas curtas da Europa ninguém pareceu querer saber quanto custará o efeito de contágio de um colapso grego, que peso terá no desequilíbrio do euro e da própria União Europeia, que vírus nacionalista e antieuropeu ficará instalado entre os Balcãs e o Médio Oriente, que consequências geoestratégicas terá uma aproximação da Grécia à Rússia. Nesta Europa desmemoriada e perdida teria sido boa ideia ouvir os avisos de Washington, actuar com ponderação em vez de encostar às cordas um país arrasado. Nestes dias em que a tormenta radical islâmica ou o rosnar do gigante russo voltam a levantar os fantasmas da guerra, estamos a caminho do fio de navalha, de um mundo frágil que pode ruir ao mínimo solavanco. O eventual colapso da Grécia poderá ser visto dentro de alguns anos como um desses momentos que geram ondas de choque de consequências imprevisíveis. Evitá-lo por legítimo interesse teria sido a maior obrigação da elite que está no poder.

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