Exportações de calçado foram as que mais subiram de preço

Subida dos produtos colocados no exterior foi de 1,7%.

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Sector tem apostado em produtos de maior valor acrescentado e na promoção externa Adriano Miranda

Entre os bens exportados que mais cresceram no ano passado, o destaque vai para os do sector do calçado, que, segundo uma análise agora divulgada pelo Gabinete de Estudos Económicos (GEE) do Ministério da Economia (feita com base em dados do INE), foram os que mais subiram de preço.

Os dados do GEE mostram que a subida de preço sofreu uma variação positiva de 1,7%,  ou seja, que não só estamos a vender mais calçado, como estes produtos estão a ser colocados no estrangeiro a um preço superior ao do ano anterior. Ao ter em conta que o crescimento, em volume, foi de 15,4%, e que o saldo (tendo em conta as importações) é positivo, percebe-se que este sector atravessa actualmente um momento positiva, mesmo com a baixa do euro face a moedas como o dólar.  

Olhando para a componente preço, seguem-se, depois do calçado, os sectores da madeira, cortiça e papel, (com uma subida de 0,4%) e o dos têxteis ( 0,2%). E, em volume,  também os têxteis registaram um bom comportamento (ver infografia) ao crescer 7,7%, abaixo apenas dos 8,8% do sector agro-alimentar.

Juntos, têxtil e calçado representaram, em 2014, quase 15% da estrutura de exportações em valor, aproximando-se dos 7000 milhões de euros.

Para os responsáveis dos sectores do calçado e dos têxteis,  os dados da análise na óptica do preço feita pelo Gabinete de Estudos do Ministério da Economia reflectem a aposta que foi feita em produtos de maior valor acrescentado.

Paulo Gonçalves, director de Comunicação da APICCAPS, a associação do sector do calçado, destaca que “o preço médio do calçado português aumentou mais de 30% desde 2010, o que lhe garante o segundo maior preço médio de exportação a nível mundial”.

Mais do que em volume, que no ano passado atingiu os 2162 milhões de euros, Paulo Gonçalves acredita que as exportações do sector deverão crescer em valor, já que, defende, “o preço médio do calçado nacional vai continuar a crescer”.

Este responsável explica que o crescimento é o “resultado da migração das marcas nacionais para segmentos de maior valor acrescentado e do esforço da promoção externa”, conduzido “através de campanhas internacionais e na participação anual em mais de 70 feiras profissionais, espalhadas pelo mundo”. 

Por sua vez, Paulo Vaz, director-geral da Associação Portuguesa de Têxteis e Vestuários (APT) defende que a variação positiva dos preços “reflecte a aposta nos produtos com maior valor acrescentado”.

“Há indiscutivelmente um aumento de produtividade, mercê da alteração do perfil industrial das empresas, que hoje apostam claramente em produtos com maior incorporação tecnológica e em muita intensidade de serviço, em detrimento da produção massificada, da concorrência pelo preço ou na venda de capacidades produtivas sem nada que a distinga ou qualifique”, assegura Paulo Vaz.

O sector têxtil, que em 2014 exportou 4673 milhões de euros, admite atingir já no próximo ano ou em 2017 o montante de cinco mil milhões de euros. Na prática, isso significará regressar aos valores de 2001 (antes da liberalização do comércio mundial de têxteis e vestuário), mas com metade dos trabalhadores (126 mil em 2014 contra os 220 mil de 2001).

No início deste mês, após terem sido conhecidos os últimos dados das exportações de bens, a Associação Nacional da Indústria de Vestuário e Confecção (ANIVEC) destacou que as venda ao exterior tinham voltado a crescer 9,35% até Abril, chegando aos 970 milhões de euros, “dando assim continuidade à trajectória gradual sustentada de crescimento”.  

Energia mais barata
Os dados trabalhadores pelo GEE mostram, no quadro geral, houve mais sectores com descidas de preços do que com subidas.

O que sofreu a maior quebra foi do dos produtos energéticos, devido à descida do valor do petróleo nos mercados internacionais (o que afecta essencialmente a Galp), seguido pelo dos minérios e metais (aqui influenciado pelas vendas de cobre da mina da Somincor, em Neves Corvo, que tem assistido também a uma descida do preço a nível internacional).
No agro-alimentar, houve uma subida de 4% em volume, mas o preço desceu 0,9%, com destaque para as oleoginosas (+15,5% e -13%, respectivamente), frutas e hortícolas (+18,7% e -1,8%) e as conservas (+4% e -1,5%).

Olhando para a energia, também as compras ao exterior foram mais baratas. Este é um dado relevante já que a energia é o agrupamento de produtos com maior peso nas importações portuguesas e, apesar da subida de 0,2% em volume face a 2013, registou-se uma descida de 8,7% no preço a pagar, equivalente a quase 1000 milhões de euros (de 11.160 milhões passou para 10.213 milhões de euros).

De resto, apenas um sector assistiu a uma subida de preço nas importações, com o material de transporte a subir 1,9% (21% em volume, graças ao incremento do consumo interno e aquisição de automóveis).  Ao todo, as importações de material de transporte chegaram aos 6189 milhões de euros. A menor queda verificou-se nos produtos de calçado e couros, que recuaram 0,8%. Seguiram-se a madeira/cortiça/papel (-1,8%) e os têxteis e vestuário (-2,1%).

Sobre o calçado, Paulo Gonçalves diz que o sector tem importado produtos mais baratos, enquanto nos têxteis e vestuário Paulo Vaz destaca o aumento em Portugal de grandes cadeias de lojas de artigos hard low cost, “o que obriga todas as marcas no mesmo segmento a baixar preços”.