Meninas do mar

Em várias vilas piscatórias do Japão, grupos de mulheres mergulham até 20 metros de profundidade, durante dois minutos, sem botija de oxigénio, para apanhar o que o fundo do mar tem para oferecer, exactamente como sempre fizeram. A idade não as faz parar. Mas é bem possível que esta seja uma prática

Há dois mil anos — talvez menos, ninguém sabe ao certo — que a tradição se repete no Japão. Um grupo de mulheres mergulha até ao fundo do mar para apanhar algas, ouriços, abalones, e antigamente também ostras e as suas pérolas valiosas. Vão como sempre foram: sem botija de ar, de peito dilatado, lançando primeiro um assobio. Não é o canto da sereia, é um exercício para encher os pulmões de ar.

A cineasta Cláudia Varejão chegou a pensar que seria uma coisa perdida no passado: “Deve ter sido, há-de ter sido.” Mas quis ir ver se estas mulheres existiam mesmo, e onde, e quantas, e de que idade. Foi procurá-las ao outro canto do mundo e encontrou-as. Agora estão diante dos nossos olhos, no Museu do Oriente.

Quando chegamos, Ama-San está ainda em montagem. Há imagens em grande formato (150x100) já colocadas, e outras, dezenas delas, muito mais pequenas (10x7,5), a ser cuidadosamente alinhadas numa das paredes: “É como se fossem fotogramas”, diz Cláudia Varejão. As fotografias, que podem ser vistas até 30 de Agosto (há também um livro), são como um esboço do filme que demorará ainda alguns meses a finalizar. Mas é através delas que se conta agora a história das Ama-San, as mulheres mergulhadoras. Vemo-las no mar, em terra, a enrolar um lenço, de máscara, a descansar. Vemos como tudo isto é um desafio à natureza e à resistência humana. “Todo o corpo é convocado a atingir o seu limite”, lê-se na parede à entrada da exposição.

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A cineasta fez duas viagens, em 2013 e 2014, e passou ao todo três meses em meia dúzia de aldeias entre Tóquio e Osaka. As fotografias foram aparecendo “como uma repérage, uma espécie de preparação do filme”. Foram o seu bloco de notas. O trabalho tem o seu quê de etnográfico. Na vila onde passou mais tempo, Wagu, há cerca de 50 Ama-San. “O problema é que nenhuma delas tem menos de 50, 60 anos, e uma das personagens do filme tem 83”, conta. “Comecei a pesquisar e percebi que era um ofício que está a deixar de existir e que há muito poucas mulheres [a praticá-lo].”

Por volta do ano mil, Sei Shonagon, escritora e dama da corte imperial, já dava conta destas mulheres no seu Livro de Cabeceira: “O mar é uma coisa assustadora mesmo nas alturas mais propícias. Quão mais assustador não deverá ser para essas pobres mergulhadoras que têm de enfrentar as suas profundezas para o seu sustento.”

Os homens partiam para o mar durante longos períodos e deixavam as mulheres sozinhas com os filhos a cargo; os mergulhos eram formas de ajudar a sustentar a família.

“Começaram a juntar-se e a mergulhar em zonas junto às rochas. Depois desenvolveram o trabalho delas e começaram a arriscar ir mais para a frente”, para as zonas onde há mais recifes, mais rochas e por isso mais tesouros para apanhar. Actualmente, é um barco a motor que as leva para mar alto. “É dirigido por um homem, um capitão — é o único elemento masculino que existe, e é sempre um homem que dirige o barco”.

Esta é uma prova da resistência, mas também de independência. “A determinada altura, nos anos 60, 70, os maridos das Amas não trabalhavam; todo o dinheiro que ia para casa era através do trabalho delas. Portanto elas deviam ganhar muito bem. Hoje em dia, são muito poucas e elas vivem, não mal, mas menos bem”, continua. “São muito, muito autónomas, por oposição à geisha, aquela figura dependente do homem. São muito dinâmicas.” De resto, a figura masculina pouco entra nesta história. “É muito ausente, muito desaparecida.” Apesar disso, no seu quotidiano, continuam presas à rígida hierarquia social japonesa. “Isso é muito vincado no Japão.”

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A rotina repete-se um dia após o outro. A partida faz-se às nove da manhã. Sente-se a tensão no barco: “Vão muito caladas, comunicam pouco. Depois, quando chega a altura de mergulhar, começam a ficar um bocado descontroladas e a rirem-se. Percebe-se que há medo. Talvez isto tenha sido o que me impressionou mais: ainda assim, elas vão. Podiam trabalhar noutra coisa, em terra. Não há muito, mas há a agricultura, podiam fazer outras coisas.”

Antes de mergulhar, o tal assobio. “Não consigo reproduzir, de todo! Aliás, as mais novas não conseguem fazer, só as mais velhas. É um assobio milenar. Elas têm uns óculos — em qualquer vila do Japão, estão sempre com estes óculos — e quando estão a dilatar produzem esse som.”

Ficam duas horas em alto-mar. O capitão pára o barco, às vezes vai dar uma volta e regressa depois para as apanhar. Voltam para terra. “Cada barco tem umas casinhas de zinco e elas ficam lá. Deitam-se de costas para a fogueira para aquecerem os corpos.” Estendem a roupa com que mergulham no chão, para secar. Almoçam. Depois voltam novamente para mais duas horas de mergulho. Quatro horas por dia. Mergulhos até vinte metros de profundidade, durante dois minutos seguidos se for preciso. “São uma espécie de agricultoras no meio do mar.” Os abalones que apanham chegam a ser vendidos por 500 euros. Comem-se de diversas formas: vivo, morto, cru, grelhado, sushi, sashimi.

As mais velhas hão-de ter começado em miúdas, adolescentes, continua Varejão. “E inicialmente era uma coisa hereditária: a avó mergulhava, a mãe mergulhava, portanto a filha mergulhava.” Hoje já não será assim, já não se encontram raparigas em alto-mar. “Esta, por exemplo, [aponta para um retrato] tem 38 anos. Era a mais nova de lá. Acho que ela mergulha um bocadinho por fait-divers porque tem um marido muito rico, tem três filhos, tem uma vida maravilhosa e tem muito tempo livre, numa vila onde não se passa nada, não há nada para ela fazer. Então começou a mergulhar com uma amiga e é óptima. Diverte-se muito mais do que as outras porque não depende do trabalho.”

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A prática não chega para garantir o sustento de todo o ano. Durante o Inverno, há quem tenha de trabalhar na aquacultura de pérolas; outras em hotéis, ou nos campos de arroz. “Algumas têm terrenos, outras trabalham para outras.”

Ainda que quisesse, Varejão não poderia acompanhar os mergulhos: “elas não deixavam — aquilo tem uma série de regras”. Mas teve medo por elas. “Quando as via ir, ficava preocupada. E quando vi as imagens debaixo de água — porque uma grande parte do filme passa-se debaixo de água — fiquei muito assustada.” Elas mergulham para apanhar os abalones, têm de levantar as rochas debaixo das quais eles se escondem, tirá-los com uma faca, ter cuidado para não os riscar, porque se o fizerem valem logo metade do preço. “As rochas têm algas presas, muito altas. E no início da época de mergulho — entre Março e Abril (mergulham até Setembro) — estão gigantes. Algumas morrem porque ficam presas e ninguém dá por elas. Acho que todos os anos morre uma.”

Wagu é “uma espécie de Caxinas”, diz Cláudia Varejão, que nasceu no Porto. É uma vila piscatória, com mulheres simpáticas e generosas — noutras onde esteve encontrou mulheres “mais tribais, menos comunicativas”, talvez por serem de aldeias mais pequenas. Esteve sempre com tradutor, e o próprio mergulhador que captou as imagens debaixo de água era japonês — “explicava-lhe mais ou menos, porque tecnicamente não difere, em terra ou no mar. E todos os dias íamos vendo as imagens — ‘ok, então amanhã vamos mais por aqui, vamos seguir mais aquela, ou a outra’”.

Ama-San, só assim, chama-se o trabalho de Varejão, que acabou por se desdobrar em três: o filme que terá co-produção suíça e deverá sair primeiro no estrangeiro antes de poder ser visto em Portugal; a exposição de fotografia que foi inaugurada no dia 25; e o livro que saiu no mesmo dia. Serão editados 300 exemplares, todos forrados com papel japonês e todos com capas diferentes. Não terá texto, só um encarte com a mesma nota explicativa que está na entrada da exposição. De um lado, as fotografias do trabalho no mar; do outro, as fotografias do trabalho em terra, em harmónio.

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Talvez seja pela sua independência, talvez pelo seu desafio constante às forças da natureza e, pelo caminho, a certas convenções sociais, talvez seja ainda por uma ligação ancestral ao que nos une à Terra, as Ama-San têm vindo a ocupar o imaginário de japoneses e não só. Em 1814, Hokusai pintou uma Ama a ter relações sexuais com dois polvos: O Sonho da Mulher do Pescador. Em 1954, Yukio Mishima editava O Tumulto das Ondas — a história do jovem Shinji que se apaixona por Hatsue, mergulhadora e colectora de pérolas. Nesse mesmo ano, o fotógrafo e etnólogo italiano Fosco Maraini captou-as assim: jovens de corpo nu, com um sabre pontiagudo de madeira preso à pequena tanga que apenas lhes tapava o sexo e uma corda à volta da cintura para as ligar ao barco, como um cordão umbilical. Era visível a sua juventude e uma certa irmandade entre elas. A Ilha das Mulheres Pescadoras, chamou ao seu trabalho.

Agora não se confundiriam tanto com sereias, e não só por serem bem mais velhas. Desde a década de 60 que foram forçadas a cobrir-se. O pudor e o conforto fazem-nas quase parecidas com qualquer outro mergulhador, de óculos e barbatanas nos pés. “Hoje em dia já há uma série de regras e um sindicato de pesca das Amas, e mergulham sempre de fatos térmicos”, afirma Varejão. Mas para além dos fatos acrescentam “umas vestes brancas por cima, um lenço na cabeça que tem toda uma lógica de colocação”, segundo a religião xintoísta ou budista. “São todas muito religiosas… o lenço é todo carimbado, com carimbos dos templos, e o branco à partida é para afastar os tubarões, para não correrem perigo. Já estão todas muito modernas, fatos de borracha, barbatanas, luvas, e umas facas muito quitadas, e depois têm uns paninhos brancos e umas coisas muito artesanais — é muito lindo.”

Mesmo no Japão, há algo de enigmático neste grupo de mulheres. São respeitadas, mas também incompreendidas. “Porque é que não vão com botijas? Porque é que se submetem a isto? O que é que elas fazem? Porque é que estão no mar em vez de estarem em casa a tratar dos miúdos? Isto, fora das vilas mais piscatórias, não se entende muito bem.”

Esta é a síntese do próprio país. A tecnologia não se sobrepõe a mergulhos milenares. “Na verdade, este é um trabalho que podia ser feito com uma botija às costas e apanhavam muito mais, mas o Japão é isto — há uma série de coisas que eles podiam fazer muito mais rápido, em série. Eu perguntava ‘mas porque não com botija?’, e nem há muita conversa sobre isso. Nem pensar. É assim que se faz. Há milhares de ofícios artesanais que aos nossos olhos redondos são estranhos.”     

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