Maria da Glória, a primeira vítima portuguesa do Estado Islâmico

Eram as férias do “retomar da vida” para esta professora reformada e viúva há dois anos. Foi assassinada na praia onde já tinha “feito amigos”. Na Tunísia, assiste-se ao êxodo dos turistas.

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Os turistas estão a abandonar a Tunísia Zoubeir Souissi/Reuters

Era professora reformada a portuguesa assassinada na sexta-feira pelo Estado Islâmico numa praia da Tunísia. Maria da Glória Moreira, de 76 anos, estava pela primeira vez de férias sozinha, num “retomar de vida” depois da morte do marido, há dois anos, com quem tinha visitado aquele país tantas vezes.

Em declarações à estação de televisão SIC, o genro da primeira vítima portuguesa do radicalismo islâmico contou que, na véspera do ataque, Maria da Glória falara com a família. “Estava tudo bem” e “já tinha feito amigos”. Esta viagem era um “retomar a vida” e escolheu Port el Kantaoui, junto a Sousse, porque ali se sentia segura. Foi morta pelo Estado Islâmico no quinto dia de férias.

A morte da cidadã portuguesa foi confirmada ao PÚBLICO na manhã deste sábado pelo secretário de Estado das Comunidades, José Cesário, que adiantou que um representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros acompanhou a autópsia.

Um familiar da portuguesa viajará nos próximos dias para a Tunísia com amostras de ADN, de forma a possibilitar a trasladação do corpo para Portugal ainda esta semana.

"Desde o primeiro momento em que começámos a ver que alguma coisa teria acontecido à minha sogra, preparámos logo com o Ministério dos Negócios Estrangeiros e com a embaixada [portuguesa] local quais seriam os procedimentos em cada um dos cenários. E o que nos foi explicado foi que, em situação de tragédia fatal, seria desejável que um membro da família se deslocasse lá com comprovantes de ADN para se poder fazer a trasladação do corpo", revelou à agência Lusa Luís Beires Fernandes, genro da vítima.

"Nesse sentido, a partir do momento em que a notícia do falecimento da minha sogra foi confirmada, ficámos a aguardar que nos dessem as instruções relativamente a essa viagem", sublinhou.

E acrescentou: "A embaixada explicou-nos que tal deveria ser tratado pela agência de viagens ou pela sua seguradora e, de facto, foi o que aconteceu. A agência preparou tudo mas, na prática, foi a operadora de seguros que realizou as reservas e que preparou tudo".

Em Sousse, onde morreram 39 pessoas na sexta-feira de manhã (já identificados estão 15 britânicos, alemães, belgas, uma irlandesa e uma portuguesa), assistia-se neste sábado ao êxodo dos turistas. Aliás, os visitantes estrangeiros estavam a abandonar a Tunísia — milhares deles, que passavam férias nas cidades e nas estâncias turísticas deste país do Norte de África. Segundo as autoridades portuguesas (ministeriais e de turismo), estarão na Turquia entre cem e 200; na praia do ataque estava apenas Maria da Glória.

Logo na noite de sexta-feira vários autocarros com turistas que decidiram pôr fim às férias fizeram a viagem entre Sousse e o aeroporto de Tunis, a cerca de 120 km.O êxodo prosseguia na manhã de sábado.

“Temos medo”, disse à AFP um turista que partia para casa, no País de Gales. “A nossa agência de viagens aconselhou-nos a voltar imediatamente para a Bélgica”, disse outro turista. A agência belga Jetair divulgou que, até à noite deste sábado, iria retirar dois mil turistas do país; a britânica Thomson retirou 2500 e anulou as reservas para as próximas semanas. O Governo francês também pediu aos operadores para repatriarem os cidadãos na Tunísia.

O Governo português não fez essa recomendação, mas José Cesário explicou que cabe aos operadores contactar os portugueses na Tunísia para organizarem o regresso dos que queiram deixar este país.

A identificação dos corpos vai demorar algum tempo, advertiam as autoridades, uma vez que muitos não tinham a identificação consigo — estavam na praia quando o islamista, um estudante tunisino, os assassinou.

O atirador — que foi morto pela polícia — foi à praia matar turistas. “Ele disse-nos: saiam daqui, não são vocês que eu quero”, disse à AFP uma testemunha tunisina.

Os comerciantes e os representantes do sector do turismo dizem que este foi um golpe muito duro para a economia tunisina. O sector representa mais de 12% do PIB e começara a recuperar, depois de alguns anos de desconfiança dos turistas, sobretudo europeus, e apesar do ataque contra o Museu Bardo de Tunis, há poucos meses, também reivindicado pelo Estado Islâmico.

“No lugar deles, não punha os pés na Tunísia tão cedo”, disse à AFP Imed Triki, um comerciante de Sousse. com Lusa