Run The Jewels: Fazer sentido em tempos que não fazem sentido

O duo formado por El-P e Killer Mike, ambos com carreira longa, tornou-se um fenómeno recente que extravasou as fronteiras do hip hop (se é que elas ainda existem). Encontrámo-lo nos bastidores do NOS Primavera Sound.

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Hugo Lima

El-P e Killer Mike. Nasceram no mesmo ano, 1975. Apaixonaram-se pelo hip hop pela mesma altura, quando os anos 1980 o mostravam como género musical jovem, tremendamente excitante, lúdico, activista, experimentalista, cheio de futuro. El-P, em Nova Iorque, fundou em 1993 os Company Flow, antes de iniciar um percurso, a solo, enquanto produtor ou editor (fundou a Definitive Jux que revelou Cannibal Ox ou os Aesop Rock) que deixou como imagem de marca uma música densa, ocasionalmente soturna, animado por um imaginário sci-fi.

Killer Mike, em Atlanta, sob a protecção e encorajamento de Big Boi, dos Outkast, participaria, por exemplo, em Skantonia, álbum de 2000 da banda de Hey Ha!. O seu primeiro álbum a solo, Monster chegaria em 2003, e tornou-o um nome respeitado no cenário hip hop.

Em 2012, El-P é convidado para produzir R.A.P. Music, álbum de Killer Mike. Um encontro de almas gémeas, dirão mais tarde. No ano seguinte, uniram-se nos Run The Jewels. O álbum de estreia homónimo demonstra como é frutuoso o encontro: as produções de El-P e o seu imaginário, reunidos à fluência e sageza do discurso e do groove de Killer Mike. Em 2014, chegou Run The Jewels 2 e o duo tornou-se um pequeno fenómeno. O hip hop já é naturalmente transversal, mas esse álbum, distante do campeonato do superestrelato (os Run The Jewels não têm essa natureza), extravasou as fronteiras que ainda persistam.

Fomos encontrá-los nos bastidores de um festival associado ao rock independente e seus adjacentes, o NOS Primavera Sound, momentos antes de darem um grande concerto, em formato clássico e de apelo moderno (o tempo é agora e a música mostra-o), no palco ATP – isto, apesar da concorrência dos Jungle e de Ariel Pink, que tocavam à mesma hora nos outros palcos do Parque da Cidade do Porto.

Killer Mike, braço ao peito, culpa de uma luxação, está sentado ao nosso lado, ouvindo com bonomia e falando quando entende ser o momento. El-P, de pé, irrequieto, bebe refrigerantes e anda de um lado para o outro no canto do pequeno camarim enquanto alinha o discurso que lhe sai rápido como sairá em palco. Dez segundos depois de El-P nos deixar as últimas palavras da entrevista, “essa é a única verdade que queremos”, os Run The Jewels saíram porta fora. Havia um concerto para dar.

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El-P, Run The Jewels Hugo Lima

Cresceram num período, os anos 1980, em que o hip hop era já uma grande força musical e em que começava a mostrar-se uma expressão cultural de influência crescente. Imaginavam que esta música nascida nas ruas e becos de Nova Iorque se transformasse no que é hoje, provavelmente o género mais presente e influente no mundo?
Killer Mike – Quando era miúdo achava que era, mas quando tens 9 anos achas que, qualquer que seja o “hype” em que te envolves, todo o mundo gira à volta dele. Quando me tornei adolescente, já não achava o mesmo. Tornou-se um género para clubes e tínhamos entrado nestes bizarros regionalismos: “nós somos o norte!”, “nós somos o sul!”, “nós somos o oeste!”. Agora olho à minha volta e estou impressionado. Somos mesmo um fenómeno global.
El-P – Quando comecei a viajar para a Europa com os Company Flow [o grupo que fundou em 1992 com Mr. Len e Bigg Jus] é que percebi. Nos Estados Unidos não fazemos o que toda a gente faz, que é importar música e ouvi-la. Impressionou-me: “Estou nem país em que não consigo falar com ninguém na sua língua e eles sabem todas as minhas letras”. De qualquer modo, eu até fiquei surpreendido quando constatei que também havia hip hop em L.A. Achava que era uma coisa do norte [dos Estados Unidos]. E agora acredito que é a música mais importante a aparecer nos últimos 50 anos e acho que tem o potencial para se tornar a mais importante de qualquer tempo. O rap pode conter em si toda a História, e tem esta tendência para dizer coisas. Há mais palavras na nossa música que em qualquer outra e, consequentemente, mais potencial para dizer coisas diferentes.

Agora, porém, com o hip hop legitimado e assimilado também pelo mainstream, num momento em que já não é o underdog, mas o tipo sentado no topo da pirâmide, não será mais difícil escapar à estagnação e manter a aura rebelde e a inovação de eras anteriores?
El-P – Nós andamos a fazer o que fazemos desde sempre. [O sucesso dos Run The Jewels] resulta apenas de uma mudança na forma como o mainstream presta atenção a tipos de som diferentes. Muita gente tem a sensação que a música já não é tão inovadora e rebelde como costumava ser, principalmente porque houve um período no tempo em que o sentíamos verdadeiramente arriscado e anti-establishment. Mas tem havido uma explosão de diferentes funções para a música. Há coisas que são feitas para o clube, há coisas que explodiram num nível mais elevado como música pop, o que não é surpreendente e até faz sentido. Mas isso não afecta pessoas como nós, porque sempre fizemos o que quisemos fazer. Não acho que nenhum do risco e da natureza inovadora do rap se tenha dissipado. Nos últimos quatro, cinco anos, entrámos no limiar de uma Renascença.

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Killer Mike, Run The Jewels Hugo Lima

Como desde sempre, a transformação do hip hop continua. Nunca se fixa num som estanque. Adoptou novos sons da electrónica, novas realidade líricas, trouxe-nos as produções esparsas dos Odd Future de Tyler The Creator ou Earl Sweatshirt, e tem em Kendrick Lamar uma ponte entre o que já foi e que pode vir a ser. Como gente que testemunhou muita desta história, com que olhos vêem o presente do hip hop?
KM – Essa é uma das perguntas a que não respondemos. Desculpa, mas não conseguimos.
El P – Não estamos a falar de um partido político ou de um membro da família de que queremos saber notícias. As pessoas perguntam pelo hip hop como se perguntassem pelo primo viciado em crack.
KM – “Como anda o Jerry? Ouvi dizer que roubou a dentadura da avó. Não está nada bem. Trabalha na City agora”.
EL P – Muitas vezes tentam fazer do hip hop uma coisa apenas, quando são tantas ao mesmo tempo. Artisticamente, o estado do que quer que seja está constantemente a mudar. O que interessa é que há um miúdo neste momento num quarto a ter a melhor ideia de sempre, e nós vamos ouvi-la daqui a três anos.

O seu filho disse-lhe recentemente que queria seguir as suas pisadas e fazer uma carreira no rap. Respondeu-lhe que era a pior ideia que tivera em toda a sua vida. Porque é que alguém como Killer Mike, que dedicou quase toda a sua vida ao hip hop, diz isso ao filho?
KM – O melhor que já me aconteceu foi o meu pai ter duvidado. Ele ligou-me há um par de meses para me dizer que estava muito orgulhoso do que eu tinha alcançado artisticamente, enquanto empresário, enquanto marido e enquanto pai. Pediu-me desculpa por, quando lhe disse que queria ser rapper, ter-me dito que não teria futuro. Eu agradeci-lhe tê-lo feito, porque me deu um desafio. Acho que o meu filho merece um desafio. Se crescer a apresentar-se como filho do Killer Mike será julgado e será julgado muito severamente. Quando me disse que queria ser rapper, disse-lhe que era a pior ideia de sempre, mas, ao mesmo tempo, encorajei-o e aconselhei-o. Estou confiante que, como qualquer outro rapper, descobrirá o seu lugar. Rappando, produzindo ou sendo DJ deixará a sua marca por si mesmo, e não enquanto filho do Killer Mike.

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Hugo Sousa

Em Early aborda a questão da violência policial cometida sobre a comunidade negra nos Estados Unidos. Tornou-se, aliás, uma voz ouvida e respeitada nos media do seu país pela forma tem comentado e reflectido sobre o problema. De que forma pode a música, e a música dos Run The Jewels em particular, contribuir para o debate?
KM – Não entras no estúdio a planear ser uma banda importante ou em tornares-te uma voz de alerta nestes tempos de turbulência. Isso não é o que nós somos. Acontece que toda essa história está ligada à nossa narrativa enquanto cidadãos e enquanto músicos. Eu sou pai e sou negro, portanto isto toca-me directamente. O que posso dizer é que me sinto feliz por a nossa música fazer sentido em tempos que não fazem sentido. Nenhum ser humano devia ter que se preocupar com a possibilidade de ser morto pelas autoridades a quem paga com os seus impostos, mas não foi para abordar essas questões que comecei a fazer rap. Para mim, o importante é fazer a música mais incrível possível, mas estou feliz por se estar a expor a todos que a América não é país justo que proclama ser.
El-P – Sempre falámos desta questão, mas agora as pessoas estão a ouvir-nos mais, ou seja, estamos num momento da nossa vida em que somos os cabrões que dirão as coisas sem pedir permissão. Era isso que o Mike estava a dizer e é o que eu digo. Também podemos gravar o disco mais estúpido que alguma vez ouvirão na vossa vida. Com orgulho.

Algo como Meow The Jewels, a regravação, com sons de gatos, do último álbum, em que trabalham neste momento?
KM – Precisamente. Isso é estúpido.
El-P – Farei orgulhosamente um disco com sons de gatos. Farei orgulhosamente uma canção com o refrão “dick in her mouth all day” [de Love again]. Fazemo-lo falando do coração. Tudo isso está nos nossos corações, tanto a estupidez como a empatia. O Mike tem escrito com empatia toda a sua carreira. Eu tenho escrito com empatia toda a minha carreira. É uma consequência natural do que somos enquanto pessoas e do que temos sido enquanto compositores. É essa a única verdade que queremos.

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Hugo Lima
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