Indústria conserveira forçada a comprar sardinha a Marrocos, Espanha e França

Suspensão da captura da sardinha imposta no final do ano passado obrigou os conserveiros a adquirir matéria-prima fora para garantir produção, mas não faz parar a fábricas.

Além da sardinha, empresas passaram a produzir conservas de 16 espécies de peixe, quase o dobro de há dois anos
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Além da sardinha, empresas passaram a produzir conservas de 16 espécies de peixe, quase o dobro de há dois anos Nelson Garrido

Já houve tempos em que as fábricas de conservas tinham paragens na produção por falta de sardinha mas, desta vez, a mais recente suspensão da captura deste peixe devido à degradação dos stocks não fez parar as máquinas. Sem tanta sardinha nacional, a matéria-prima mais usada pela indústria conserveira, as empresas viraram-se para fornecedores em Marrocos, França e Espanha (Cantábria) e estão a importar cerca de 50 a 60% do peixe que precisam para produzir.

Castro e Melo, secretário-geral da Associação Nacional das Indústrias de Conservas de Peixe (ANICP), explica que quando há produto nas lotas portuguesas a percentagem de importações ronda os 20 a 30%, “valor que é muito variável e depende da quantidade disponível”. “A primeira opção da indústria de conservas é comprar sardinha nacional. Não havendo, fabrica outro tipo de peixe, nomeadamente a cavala e o atum e, muito naturalmente, importa”, disse.

As cerca de 20 fábricas a operar em território nacional não “têm tido problemas” em encontrar matéria-prima fora de Portugal, ao contrário do que sucedida em 2012. Nessa altura, “quando a crise rebentou houve, de facto, uma complicação porque as fábricas não estavam vocacionadas para importar”. Mais de dois anos depois, houve um “reposicionamento”. Além de terem garantido abastecimento, alargaram a oferta, aumentando por exemplo o fabrico de conservas de cavala ou outras espécies. “Não há paragens nas fábricas e as coisas mudaram fruto da evolução. É uma indústria dependente da natureza e a importação sempre existiu, em maior ou menor quantidade. Compramos sempre a nossa espécie de sardinha [sardina pilchardus] e há um controlo de qualidade feito nas fábricas. Depois, é na confecção que a diferenciação se faz”, defende Castro e Melo, sublinhando o “dinamismo” das empresas.

No ano passado, a quantidade de sardinha transaccionada em lota caiu 43% e aquela que já foi a espécie mais pescada em Portugal passou para um total de descargas de 16 mil toneladas. Tal como o PÚBLICO noticiou, em apenas três anos as capturas recuaram para metade. A redução também se verificou na cavala e no atum, em níveis próximos dos 21%. A cavala, com descargas de 30 mil toneladas, foi a espécie mais pescada no ano passado.

A escassez de peixe fez aumentar os preços, mas a ANCIP garante que indústria das conservas conseguiu repercutir esta subida no consumidor final, cada vez mais adepto deste produto. “A verdade é que o consumo aumentou no mercado interno também porque as conservas estão na moda”, garante Castro e Melo. De acordo com um estudo recente, o atum em conserva é consumido entre uma a quatro vezes por mês por 75,4% dos portugueses inquiridos, enquanto 35% escolhe a sardinha, o recurso do qual dependem 12 das 20 fábricas.

Vendas para Angola caem 67%
Foi em 2012 que as conservas de peixe deram o maior salto nos mercados internacionais, passando de 8º produto mais exportado do sector agro-alimentar para o 4º, atrás do vinho, azeite e cerveja. O sector exporta 65% da sua produção e em 2013 conseguiu mesmo ultrapassar as cervejas e ocupar a terceira posição entre os mais vendidos no estrangeiro.

Contudo, este cenário foi sol de pouca dura. Em 2014, as exportações caíram 6,5%, somando 193 milhões de euros, valor que - ainda assim - é o segundo mais elevado dos últimos quatro anos.

Lá fora, os maiores consumidores das conservas portuguesas são os franceses, que compraram 10.350 toneladas de conservas de peixe no ano passado por mais de 52 milhões de euros. Comparando com o ano anterior, registou-se uma queda quer nas quantidades exportadas, quer no valor do produto. Segue-se Espanha que quase duplicou os seus gastos com conservas portuguesas: de 25,4 milhões de euros, para perto de 42 milhões. O terceiro maior mercado é o Reino Unido que comprou mais 9% deste produto em 2014 por 31,6 milhões de euros.

Fora da Europa, Angola, Estados Unidos e Brasil são (por esta ordem) os principais clientes, mas todos à excepção dos EUA recuaram no consumo o ano passado. Angola gastava 26,8 milhões de euros com conservas em 2013, mas reduziu para 8,8 milhões, ou seja, 67% menos.

Espécies de peixe transformadas duplicaram em dois anos
Para contornar o problema da escassez de sardinha, a matéria-prima principal da indústria conserveira, as 20 fábricas de conservas que operam em Portugal (quatro nos Açores) começaram a diversificar produtos. Castro e Melo, secretário-geral da Associação Nacional das Indústrias de Conservas de Peixe, adianta ao PÚBLICO que, agora, se fabrica mais cavala e atum do que há dois anos. E o tipo de espécies transformadas quase duplicou.

“Há 16 espécies actualmente a serem transformadas. Antes de 2012 eram cerca de metade. A sardinha continua a ser a principal, mas a cavala e o atum aumentaram presença”, garante.

Os números das exportações de crustáceos e moluscos em conserva também sinalizam esta diversificação da indústria. Em 2014 as vendas para os mercados externos aumentaram 20% para 14,3 milhões de euros, com Espanha a comprar quase duas mil toneladas por 5,5 milhões de euros, ou seja, mais 60% (em valor) face a 2013. Todos os mercados aumentaram o consumo destes produtos menos Angola, onde as exportações caíram 19% em valor, numa tendência que se verifica em todos os outros produtos agrícolas e alimentares.