"É fado? Parece algo tão longe"

A Virada Cultural matou saudades a portugueses e animou brasileiros a conhecerem o país do outro lado do Atlântico.No Experimenta Portugal, o fado foi rei, com concertos de Gisela João, a abrir, e de Carminho, a fechar os dois dias de animação cultural em São Paulo.

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Concerto de Gisela João no Experimenta Portugal Walter Craveiro
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Concerto de Gisela João no Experimenta Portugal Walter Craveiro
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Concerto de Gisela João no Experimenta Portugal Walter Craveiro
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Os músicos de Concerto de Gisela João no Experimenta Portugal Walter Craveiro
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Concerto de Gisela João no Experimenta Portugal Walter Craveiro
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Os agradecimentos de Gisela João e dos seus músicos Walter Craveiro
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O público a aplaudir o concerto de Concerto de Gisela João no Experimenta Portugal Walter Craveiro
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A cantora Fafá de Belém com Gisela João
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Walter Craveiro
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A exibição de Um Dia Normal – um mosaico de Portugal em 1440 minutos Walter Craveiro
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Concerto de Carminho Walter Craveiro
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Concerto de Carminho Walter Craveiro
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Concerto de Carminho Walter Craveiro
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Concerto de Carminho Walter Craveiro
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Concerto de Carminho Walter Craveiro
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Carminho Walter Craveiro
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A fadista Carminho Walter Craveiro
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Concerto de Carminho Walter Craveiro
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Concerto de Carminho Walter Craveiro
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O filme de Bruno de Almeida , The Art of Amália Walter Craveiro
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Sessão de documentários na Experimenta Portugal Walter Craveiro
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A conversa entre o realizador Sérgio Tréfaut e o crítico de cinema Vasco Câmara Walter Craveiro

Era só um teste, uma passagem de som do documentário Fado Camané, e foi o bastante para chamar a atenção de Alex Monteiro, que trabalha como segurança particular. Sem nunca ter ouvido fado, ele definiu-o como poucos: “É como se mexesse no passado, parece algo tão longe”...

A saudade foi mesmo um tema recorrente da Virada Cultural de São Paulo que, pela primeira vez, homenageou um país: Portugal. Ao transformar temporariamente em território luso uma extensa área do mais importante parque de S. Paulo, o Ibirapuera, o Experimenta Portugal permitiu a muita gente matar saudades de casa, reencontrar origens perdidas e também avivar a curiosidade por Portugal.

Na sua décima primeira edição, a Virada Cultural reuniu mais de mil e quinhentas atracções no parque paulista. Foram cerca de quatro milhões de pessoas circulando durante 24 horas, das 18h de sábado às 18h de domingo, pelos inúmeros palcos espalhados pela cidade. Uma oportunidade para ver de perto e gratuitamente artistas brasileiros como Daniela Mercury, Caetano Veloso, Lenine, entre tantos outros.

 A parceria inédita entre o consulado de Portugal e a Prefeitura de São Paulo abriu as portas e milhares de pessoas foram ao Ibirapuera em busca dos sabores e das sensações oferecidas pelo que de mais tradicional e moderno Portugal tem a oferecer.

O mais genuíno estilo musical português, o fado, marcou presença nas telas e nos palcos. Fado Camané e The Art of Amália (ambos de Bruno de Almeida) foram exibidos. O início da maratona de shows, no final da tarde de sábado, coube a Gisela João. Foi para vê-la bem de perto que a reformada Mara dos Santos chegou muito cedo ao Ibirapuera. Durante o espectáculo cantou boa parte das músicas de cor e disse sentir-se recompensada porque “só Gisela é capaz de tirar a impressão de tristeza que os brasileiros têm do fado”.  Ao tirar as sandálias, descontraidamente, e encantar o público com a sua espontaneidade, Gisela pareceu dar-lhe razão.

A cantora brasileira Fafá de Belém, que da plateia acompanhava o espectáculo, considerou a iniciativa Experimenta Portugal sensacional, porque “conhecer esse Portugal jovem, fresco, é fundamental para os brasileiros”. A cantora explicou assim a sua admiração pelo país: “é um povo que foi para o mundo e soube manter o seu quintal, sua história e suas raízes.” Frescor e raízes que a cantora Carminho também levou ao palco, no domingo, para encerrar a jornada portuguesa na Virada Cultural.

Ao ser questionada sobre que impressão lhe deixou o fado afinal, se triste ou alegre, a jovem executiva Susana Tadei resumiu ao PÚBLICO: “É  intenso”. Quem experimentou, gostou. Apesar do frio, muita gente acompanhou Mimicat, alter-ego da cantora Marisa Mena, que subiu ao palco à meia-noite para mostrar o seu disco de estreia: For You. Já ao meio-dia o som dos The Black Mamba agitou o público. Robergson Brito dançou o tempo todo e atribuiu isso ao carisma e swing da banda. Virou fã. Tocaram ainda os Souls of Fire e o DJ Rui Vargas.

Maria Madalena Silva Lopes, portuguesa, está no Brasil há 55 anos; veio com o marido 15 dias depois do casamento. Em São Paulo constituiu família e diz que toda a comunidade vê com bom olhos a iniciativa do consulado de aprofundar os laços entre as duas nações. Para ela, os portugueses que hoje imigram para o Brasil estão mais preparados, por isso enfrentam menos preconceito e têm mais facilidades.

Foram justamente as propostas vantajosas de trabalho que trouxeram Gabriel Dias e a mulher Corine para o Brasil. Chegaram há um ano e a saudade de Portugal ainda é tanta que decidiram passar pela Virada. Durante um bom tempo acompanharam a exibição de Um Dia Normal – um mosaico de Portugal em 1440 minutos, realizado pelo PÚBLICO e lançado no seu 25º aniversário –, e a diversão era, quadro a quadro, adivinhar o lugar de cada cena do vídeo. Com o peito apertado pelas recordações, Gabriel saiu-se melhor e ganhava por 4 a 2.

Para a funcionária pública Mirna Kube, não foram as imagens mas os sons do quotidiano português que mais lhe chamaram a atenção: homens a trabalhar, barcos a navegar… o barulho de um país com quem ainda não tem relações mas quer ter. A Virada “atiçou a curiosidade”, disse ela. Mirna quer agora conhecer Portugal.

O Experimenta Portugal reservou também um espaço para os negócios. Várias empresas participaram do evento, mas foi no universo da cultura que brasileiros e portugueses realmente se encontraram. A experiência vivida por Rose Moreira é um exemplo. Ela compareceu no Experimenta Portugal especialmente para assistir ao documentário Alentejo, Alentejo, de Sérgio Tréfaut.

Acompanhou toda a conversa no fim da exibição entre o realizador e Vasco Câmara, crítico de cinema e editor do suplemento Ípsilon. A cada explicação sobre as origens, a força e a tradição do cante alentejano, hoje sendo retomado em Portugal e reconhecido como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, Rose ficou emocionada ao recuperar boa parte da  história da sua família. Um sentimento de pertença que se aprofunda nas relações entre os dois países e que a Virada Cultural, em São Paulo, também conseguiu promover.