Horários de trabalho actuais são uma forma de "nova escravatura"

“Quem cuida dos cuidadores?”, pergunta o psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, Pedro Afonso, que orientou a tese de mestrado sobre burnout e alerta para as consequências das pesadas cargas horárias a que estão sujeitos os profissionais de saúde.O absentismo aumenta e a produtividade diminui, avisa.

O que o surpreendeu mais nos resultados deste estudo?

A carga horária de alguns médicos é espantosa.  Nos internos,  são 19% os que trabalham mais do que 60 horas por semana. Actualmente, em várias actividades profissionais, há a crença  de que prolongar o horário e a permanência no local de trabalho corresponde a um maior compromisso e produtividade, mas esta ideia é errada. Isto é uma nova escravatura. Acho que o horário deve ser diversificado, não exclusivamente assistencial, e que o limite devem ser as 40 horas semanais, mas o ideal seriam as 35 horas.

Por que motivo é que neste trabalho foi analisada também a empatia na relação médico-doente?

A empatia na relação médico-doente tem consequências para o próprio, mas repercute-se também na qualidade do serviço. A disponibilidade para acolher o sofrimento do doente fica comprometida com o excesso da carga horária. Há um aumento do erro, isso está demonstrado, o número de queixas e  a conflitualidade têm vindo a aumentar.

Este desgaste extremo pode ser prevenido e tratado?

O burnout pode ser prevenido e tratado num certo sentido, com medidas a nível individual e definidas pelas organizações. Como? Criando formas de as pessoas participarem em decisões, reconhecendo devidamente o valor do trabalho e fazendo com  as remunerações sejam adequadas e alocadas à produtividade.

Mas isso não é o contrário do que está a verificar-se nas unidades de saúde?

O que acontece hoje é que se exerce uma grande pressão em termos de números, de quantificação de produtividade, de carga horária. Os números tomaram conta da gestão hospitalar e da medicina e a qualidade acaba por ser posta em causa. Devido a à sangria dos recursos humanos, com as reformas antecipadas e a emigração, quem está trabalha mais.Pede-se a muita gente que preencha buracos, falhas. Mas isto é um mito. Este estudo comprova que médicos com carga horária mais elevada são os que estão em maior risco de burnout. E  o burnout aumenta o absentismo e faz diminuir a produtividade.

O burnout não é um exclusivo da profissão médica, apesar de esta ser uma das mais afectadas. Nos últimos dias, tem sido muito mediatizada a situação dos técnicos de emergência médica, que dizem chegar a trabalhar mais de 20 dias seguidos...

Acho que é isso uma violência. Só quem desconhece a natureza humana pode aceitar e permitir uma coisa destas. Todos nós temos um limite físico e psicológico, e, se os ultrapassarmos, há consequências  e isso reflecte-se também no atendimento aos doentes. Este problema não está a ser valorizado, não aparece no discurso dos responsáveis políticos, porque não está quantificado. Um dos aspectos importantes deste estudo é qem demonstrar  que é possível quantificar estes fenómenos.

Como consequência do burnout, há profissionais que começam a  pensar em desistir da profissão, que emigram.  Por que é que isso acontece?

A falta de valorização profissional  origina sentimentos de impotência e de fracasso. A pessoa anda num estado de maior stress e de conflitualidade e podem surgir manifestações psicossomáticas, além de dependência e abuso de substâncias. Em situações-limite isto pode levar ao aparecimento de pensamentos suicidas. Há todo um percurso para um quadro depressivo, ansioso e para doenças não só físicas mas também psiquiátricas. Estas pessoas estão em risco.  Uma pessoa que trabalha imenso, faz imensos turnos, a determinada altura, para se manter acordada, recorre à cafeína, a medicamentos,  há alterações gastrointestinais, úlceras...

Na prática, isto significa que os profissionais que têm a responsabilidade de tratar doentes acabam por ficar doentes?

Ficam doentes. O culminar do burnout é a doença física e psíquica. Até valia a pena perguntarmos: afinal de contas, quem cuida dos cuidadores?

Não se ganhou nada, então, com o aumento das 35 para as 40 horas semanais na Função Pública?

Não se ganhou nada. Do meu ponto de vista, perdeu-se. Isto não tem sentido, é uma medida anti-natalidade. Uma das formas de incentivar a natalidade passa por diminuir a carga horária no trabalho. O que este trabalho prova também, curiosamente, é que ter filhos funciona como um factor protector para o burnout. Mas isto dava outro estudo….