Coreia do Norte anuncia que está a viver “a pior seca do século”

Ajuda alimentar ao país reduziu-se drasticamente porque o regime não desiste de desenvolver armas nucleares. Mas 10,5 milhões de pessoas vivem em situação de fome, diz a FAO.

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O líder norte-coreano, Kim Jong-un, inspecciona a quinta 1116, numa foto oficial REUTERS

Não são boas notícias para um país subnutrido e em que a alimentação depende quase totalmente do sector agrícola. O facto de o próprio regime o ter anunciado abertamente é revelador. “Indica que a situação é grave, e pode ser um sinal de que a Coreia do Norte quer ajuda externa”, escreve Stephen Evans, correspondente da BBC em Seul. “Não temos informações suficientes para saber se as pessoas estão a passar fome ou não”, afirmou ao diário britânico The Guardian Liliana Balbi, responsável da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). “Mas a situação é grave. Estão no limite.”

O mais recente fenómeno climático El Niño, que na Ásia pode causar episódios de seca, e está a ameaçar as colheitas de batata, trigo e cevada nas províncias de Hwanghae, além das de arroz, será a causa mais directa dos problemas actuais, dizem os peritos da FAO.

A Coreia do Norte tem vivido sucessivas crises alimentares, que têm forçado o regime a alguma abertura ao exterior. O país está longe da auto-suficiência. O número de pessoas com fome aumentou de 4,8 milhões de 1990, para 10,5 milhões de 2014, de acordo com um relatório da FAO de Maio, citado pelo Guardian.

A ajuda alimentar externa tornou-se uma arma de pressão política sobre o regime norte-coreano. Em 2008, por exemplo, ano da última crise alimentar, os Estados Unidos fizeram depender a sua ajuda humanitária do sucesso das negociações sobre o programa nuclear de Pyongyang. No mesmo ano, a Coreia do Sul exigiu que o regime pedisse expressamente ajuda antes de enviar mais apoio. Seul é, ainda assim, uma das principais fontes de apoio alimentar, tal como a China, que o faz em segredo de Estado.

Mas a ajuda internacional está subfinanciada. Em Abril, o Programa Alimentar da ONU pediu 111 milhões de dólares para manter a ajuda à Coreia do Norte, porque o financiamento tinha caído para apenas 50 milhões. Em 2004, eram canalizados 300 milhões de dólares para apoiar a alimentação dos norte-coreanos. Segundo a organização, um terço das crianças com menos de cinco anos sofre de malnutrição e o mesmo acontece com 20% das grávidas e mulheres em aleitamento. Cerca de 40% da população total sofre de perturbações alimentares.

O motivo desta situação são as sanções que o país está sujeito porque o regime insiste no desenvolvimento de armas nucleares. As negociações estão paralisadas desde 2008, e o regime já realizou três ensaios nucleares: em 2005, 2009 e 2013.

Apesar disso, o regime continua a sonhar com a autonomia alimentar. Numa das suas primeiras intervenções depois de ter chegado ao poder, em 2011, Kim Jong-un declarou que o país nunca mais teria “de apertar o cinto”.

Agricultura privada

A actividade agrícola é profundamente controlada, mas as sanções económicas impedem o acesso generalizado a instrumentos mecânicos de plantação. Até aos anos 90, a actividade agrícola dependia destes instrumentos e de fertilizantes químicos. Graças a eles, o regime terá estado perto da auto-suficiência na segunda metade da década de 80. Mas o acesso a combustível e a peças de maquinaria tornou-se mais difícil nos anos seguintes. Após décadas de cultivo intensivo e desflorestação, que levaram à erosão do solo, os terrenos agrícolas começaram a tornar-se inférteis.

A crise alimentar atingiu o pico entre 1994 e 1998, anos que ficaram conhecidos como a Marcha Árdua. Uma conjugação de mau tempo, falta de recursos e má gestão governamental deixou o país numa crise agricola sem precedentes. Estima-se que mais de 500 mil pessoas terão morrido de inanição.

Mas é pouco provável que a seca deste ano atinja as proporções do passado. Para além do apoio internacional – a China anunciou que está disposta a dar a “ajuda necessária” –, o regime abriu uma nesga da porta para a agricultura privada. As novas regras autorizam os agricultores a ter pequenos campos familiares e a guardar o que sobrar das colheitas. Isto contribui para uma maior segurança alimentar e para que surgissem pequenos mercados agrícolas, onde os produtores vendem parte das suas colheitas a preços mais altos do que ao Governo.

No entanto, tudo isto mantém a população no "fio da navalha", comentou à Reuters Daniel Pinkston, do International Crisis Group. "Podem ter tido quatro, cinco anos de produção decentes, mas basta um desastre, uma cheia ou um ano de El Niño para ter um impacto negativo."