Torne-se perito Crítica

O pássaro que atravessou o século

Orquestra e vídeo mapping parecem disputar entre si o espaço que a coreografia não consegue ocupar. Ainda assim a peça garante um bom serão de desfrute visual e auditivo.

Fotogaleria
Daniel Rocha
Fotogaleria
Daniel Rocha
Fotogaleria
Daniel Rocha
Fotogaleria
Daniel Rocha

Depois de um interessante Lago dos Cisnes, onde Odette/Odile, príncipe Siegfried e vaporosos cisnes dançavam dentro da cenografia virtual filmada por Edgar Pêra (2013), e de um ousado mas menos bem conseguido Quebra-Nozes “pop” (2014, dramaturgia de André A.Teodósio), Fernando Duarte, 36 anos, coreógrafo da Companhia Nacional de Bailado (CNB), abalançou-se a mais um clássico.

No icónico Pássaro de Fogo (Fokine/Stravinsky, 1910), baseado em duas lendas eslavas, conta-se o encontro do príncipe Ivan Tsarevitch com o majestoso pássaro mágico, prenúncio de desgraça e salvação do seu captor, a vitória do herói sobre o feitiço do despótico Kastchei e o triunfo do bem e do amor. A peça inaugurou a frutuosa parceria de Stravinsky com os Ballets Russes de Diaghilev, a implosão da dança académico-clássica e a transição para o modernismo que, nos alvores do século XX, alteraria para sempre os trilhos da dança teatral ocidental.

A dramaturgia (Carlos Pimenta) ensaiou uma transposição da intemporalidade do conto, onde apocalipse e sobrevivência, e a tradicional luta entre o bem e o mal, não se isentavam de uma certa leitura ecológica ou política. Com a sua allure neoclássica a peça hesita, contudo, entre manter-se nas cercanias da original e deixar-se catapultar para o século XXI. Apontamentos do guarda-roupa (José António Tenente), a evocar o modernismo de Leon Bakst, recordaram-nos o de Nuno Corte-Real para a versão da obra para a CNB, em1988.

O impacto da peça assenta principalmente na envolvência visual e sonora da Orquestra Sinfónica Portuguesa - 86 músicos ao vivo, sob direcção de Joana Carneiro, ocupavam a frente e laterais do proscénio, e parte das galerias - e da feérica cenografia em vídeo mapping (Nuno Maya): uma projecção a 270 graus transborda o palco e circunda a sala, com imagens de vegetação inóspita, de um bucólico jardim e uma árvore carregada luminosos frutos azuis, ou de devastação pós-cataclísmica, a trazer uma nota de contemporaneidade (sobretudo plástica) à peça.

Aos solos e duetos de Carlos Pinillos e de Filipa Castro (nos papéis de Ivan e do pássaro de fogo) correspondem os pontos altos de uma coreografia que tende a esvair-se nos movimentos de grupo: a tarefa de compor para a complexidade angulosa e imprevisibilidade rítmica da partitura de Stravinsky, as suas alusões transfiguradas a temas do folclore eslavo, é ciclópica, e, apesar de uma dinâmica cénica em crescendo, os 34 bailarinos em palco parecem submergir à imponência da música e das projecções. Nos momentos mais cativantes, há sobreposições de tempos e espaços: mergulhamos na atmosfera fantástica das aventuras de guerra, horror e romance dos super-heróis da banda desenhada dos anos 40-50; quando Ivan quebra o ovo gigante e desfaz o sortilégio de Kostchei, é a projecção que explode em jorros amarelos.

Orquestra e vídeo mapping parecem disputar entre si o espaço que a coreografia não consegue ocupar. Esta terceira visita ao Pássaro de Fogo pela CNB - depois da versão de Brydon Paige (1988), e da variante ficção científica de Uwe Scholtz (2006, a retomar, aliás, a ideia de John Neumeier, de 1970) - apesar de pairar num limbo, entre o peso mítico do original e um desejo de contemporaneidade, garante um bom serão de desfrute visual e auditivo.

Sugerir correcção