Os 200 anos de Waterloo

Os soberanos europeus foram confrontados, nas décadas seguintes, com revoluções liberais, democratas e independentistas cada vez mais radicais.

À semelhança dos franceses, como se viu no ano passado nas comemorações dos 70 anos do desembarque na Normandia, os belgas também são exímios em aproveitar tudo o que possa atrair multidões ao seu país. Acrescente-se que por razões bem melhores das que levaram em Portugal à edificação de uma estátua a Ronaldo, alguém que daqui a dez anos não será mais lembrado do que no reduzido mundo do futebol.

Em 18 de Junho de 1815 deu-se o embate final nos campos de Waterloo entre os exércitos de Napoleão e os seis reinos e principados aliados, comandados pelo experimentado Duque de Wellington, a que se juntaram as forças da Prússia, dirigidas pelo Conde Von Blücher. O imperador francês tinha regressado a Paris do seu exílio forçado na ilha de Elba três meses antes e, tal como Hitler que num último estertor tentara uma contra-ofensiva em Janeiro de 1945 na Batalha das Ardenas, na fronteira franco-belga, entrou na Bélgica uns dias antes para enfrentar alguns dos seus adversários mais poderosos e assim tentar prolongar o seu efémero império de dez anos. Derrotado pelo número superior de combatentes e apanhado em tenaz pela chegada dos reforços prussianos no final da tarde, foi feito prisioneiro e enviado desta vez para a Ilha de Santa Helena, bastante mais longe que a de Elba, onde morreria seis anos depois. Os aliados acabariam por entrar em Paris e impor o regresso do rei Luis XVIII, que tinha sido afastado por Bonaparte, aquando do seu regresso de Elba.

A primeira tentativa de hegemonia na Europa nos tempos modernos teria sido, segundo Paul Kennedy, a dos Habsburgos, englobando, à época, as casas reais de Espanha e da Áustria, que terminaria com o Tratado dos Pirenéus em 1659, pouco depois do final da Guerra dos Trinta Anos em 1648. Seriam estas (com a de Hitler) as três tentativas de hegemonia europeia falhadas, segundo este historiador, para quem as vantagens da Europa em relação a outros poderes concorrentes residiriam justamente no facto de nenhuma das forças em presença ter alguma vez conseguido superiorizar-se às outras.

Mas a ascensão de Napoleão e a expansão do Império francês durante os primeiros quinze anos do século XIX, justificam mais algumas notas, inspiradas nos excelentes trabalhos de Eric Hobsbawn e René Rémond. A grande instabilidade provocada pela revolução francesa de 1789, que deitou abaixo o Antigo Regime, iria durar décadas. Então, além do rei e das duas classes com poder, clero e nobreza, a burguesia estava incluída no Terceiro Estado, longe da assunção do poder económico que efectivamente já detinha. Os historiadores são consensuais em considerar que esta foi uma revolução burguesa com a participação das classes populares. A Assembleia Constituinte então criada proclamou a primeira Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, inspirada nos filósofos Iluministas que tinham publicado as suas obras na segunda metade do século XVIII. Ao contrário do Antigo Regime, que consignava direitos segundo as origens de classe, a partir de agora todos os cidadãos passam a ter os mesmos direitos segundo a lei. Uma tentativa de fuga abortada do rei Luis XVI para o estrangeiro provoca uma radicalização da revolução, como é habitual nestes processos, assim como tentativas de intervenção de potências estrangeiras. Da luta política travada entre os dois principais partidos, os Girondinos, representantes da província, e os jacobinos com base em Paris, resultou a hegemonia destes últimos, que provocou uma ainda maior radicalização e o começo dos confrontos com as outras potências europeias. Desta época chamada de Terror, Hobsbawn calcula que tenha havido 17.000 mortos em 14 meses. O que em relação com os 20.000 ocorridos em poucos dias logo após a destruição da Comuna de Paris, em Março de 1871, permite comparar as consequências de uma revolução com as da reacção a uma mesma revolução, sendo os efeitos desta última muito mais devastadores e fulminantes. Numa Europa das monarquias absolutistas, uma monarquia constitucional em França e em seguida a República, a partir de 1793, provocaram uma preocupação generalizada nos monarcas europeus e o entusiasmo da maior parte dos povos. Porque além da conhecida proclamação Liberdade, Igualdade, Fraternidade, existiu uma outra, nunca referida em Portugal por razões óbvias, do “droit des peuples à disposer d’eux mêmes”. Este direito de emancipação dos povos outorgou pela primeira vez a cidadania aos judeus que viviam em França e provocou uma onda de entusiasmo por toda a Europa, fazendo nascer o movimento das nações. Foi nestas guerras que se notabilizou Napoleão Bonaparte, general aos 24 anos. A páginas 105 da Era das Revoluções de Eric Hobsbawn, (tradução francesa), este autor cita alguns dos inúmeros intelectuais europeus, incluindo da Grã-Bretanha, escritores, artistas, filósofos, cientistas que saudaram efusivamente a Revolução Francesa, sendo a opinião contrária de Burke uma excepção. Até o grande compositor Beethoven dedicou a Sinfonia Heroica a Napoleão, retirando-lhe a dedicatória quando este se fez nomear imperador em 1804. Com efeito, o prestigio alcançado nas campanhas contra as outras potências europeias levou-o a tomar o poder absoluto, procedendo à modernização administrativa da França, de que é exemplo o Código Civil, utilizado mais tarde durante décadas por muitos países europeus. As campanhas iniciadas em 1794-95 abrangeram toda a Europa, chegando mesmo ao Egipto e à Síria. Nos países onde entrava, Napoleão colocava pessoas da sua família ou da sua confiança a dirigi-los, transformando-os em Estados satélites. As grandes potências Áustria e Prússia foram submetidas. E quanto à Grã-Bretanha, depois da derrota que esta lhe infligiu na batalha naval de Trafalgar, impôs-lhe um bloqueio continental, na tentativa de a asfixiar economicamente. O que deu origem às chamadas invasões francesas de Portugal, que não respeitou o bloqueio, apoiado pelos ingleses, e resultou na ida para o Brasil do futuro monarca D. João VI. O desentendimento com a Rússia acerca da aplicação do bloqueio continental levou à invasão deste país em 1812, que tal como no caso de Hitler seria o princípio do fim. Com Moscovo incendiada à chegada das tropas francesas, os soldados não tinham onde se reabastecer. Hobsbawn refere que dos 610.000 homens que entraram na Rússia em vagas sucessivas, apenas 100.000 puderam passar a fronteira de regresso a casa.

Foi a ruína total. Com as coisas também a correrem mal na Península Ibérica, onde os populares ajudados pelos ingleses implementaram uma verdadeira guerra de guerrilhas contra as tropas francesas, Napoleão abdica em 6 de Abril de 1814 e parte para a Ilha de Elba, donde regressará em Março de 1815 para encetar a sua última batalha em Waterloo, faz agora 200 anos. Mas na Europa nada ficou como dantes. O Congresso de Viena que reunia as potências europeias e iniciara os seus trabalhos em 1814, após a abdicação do imperador francês, e interrompera os trabalhos durante os 100 dias do seu regresso, criou a Santa Aliança com o objectivo de restaurar as condições políticas anteriores à revolução francesa. Mas, ao invés, esses monarcas tiveram que aceitar regimes constitucionais e em muitos casos o direito de voto dos cidadãos, assim como sistemas jurídicos semelhantes ao Código Napoleónico. Não levando em conta as aspirações dos povos à liberdade e à independência, que se lhes tinham juntado contra Napoleão, os soberanos europeus foram confrontados nas décadas seguintes, 1820, 1830, 1848, com revoluções liberais, democratas e independentistas, a Primavera dos Povos, cada vez mais radicais e obtendo sempre melhores condições de controlo e acesso ao poder político dos Estados, incluindo as independências das colónias espanholas e portuguesa da América Latina.

Doutorado em Relações Internacionais, Universidade Livre de Bruxelas, Universidade Nova de Lisboa