Quem vive na Grécia já não sabe o que pensar, ou sabe?

Com um primeiro-ministro a garantir que não cede nas suas linhas vermelhas e credores a dizer que não admitem desistir das suas exigências, a Grécia está num limbo.

Manifestação anti-austeridade na Praça Syntagma
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Manifestação anti-austeridade na Praça Syntagma Angelos Tzortzinis/AFP

Em Atenas, sentadas ao computador, estão Ariadne, uma professora primária com cinco filhos, e Politimi, uma jovem supervisora de call center (uma prefere não dizer a idade, a outra prefere não ter o apelido publicado).

O chat do Facebook vai piscando com as novas mensagens que chegam. Estão a responder a perguntas semelhantes, mas o que dizem não podia ser mais diferente: “Não acredito que os políticos sejam tão estúpidos que nos deixem sair do euro”, considera Politimi, 32 anos. “As pessoas não querem saber se ficam ou não no euro, querem ser tratadas com dignidade”, diz Ariadne Westerkamp.

Politimi espera que o país não saia do euro mas teme esta possibilidade; Ariadne acha que vai acabar por haver um acordo, mas pensa que talvez fosse melhor sair do euro.

A escalada de retórica do Governo grego não parece apontar para uma possibilidade de acordo cada vez mais distante? “Têm de apoiar a ideia de que não são como os outros para que de alguma forma façam aquilo que todos os outros fizeram”, opina Politimi. “Acho que é apenas um truque de magia para que as pessoas aceitem uma solução diferente daquela para que votaram”.

Ariadne acha que não: “Penso que o Syriza está a deixar a água ferver até as pessoas concordarem que é melhor sairmos da zona euro. Antes das eleições, as pessoas não estavam prontas, mas agora que vêem o que a União Europeia faz, já percebem. E penso que estão dispostas a pagar o preço, desde que sintam que estão a ser bem tratadas.”

10 mil euros em casa
Jornalistas em Atenas encontram uma série de pessoas a tirar o dinheiro que têm nos bancos. No bairro (caro e chique) de Kolonaki, onde muitas casas têm vista para a Acrópole, há dinheiro. É provável que haja, literalmente, muito dinheiro – mesmo dentro das casas. “Toda a gente está a fazer isso”, diz ao jornal britânico The Guardian Joanna Christofosaki, investigadora na Universidade de Atenas. “Há pessoas com 10 mil euros algures em casa”, outros no escritório. “Ninguém quer que o dinheiro perca valor, ou acordar e não lhe poder aceder”, justifica, invocando cenários de um regresso ao dracma ou de controlos de capital.

Voltando a Politimi e Ariadne, nenhuma delas tirou dinheiro de depósitos bancários. “Quando ganhas apenas o suficiente para sobreviver, ou menos, não consegues ter dinheiro no banco”, diz Politimi. Ariadne, com uma família numerosa, também não tem poupanças para se preocupar.

Casada com um grego e a viver na Grécia há muitos anos, Ariadne não é, apesar do nome, grega – é holandesa. Mas diz que “os gregos tiveram muitas guerras e muita pobreza, por isso não têm medo – têm mais medo de perder a democracia e a liberdade”.

Mais tarde vai aparecer no chat outra mensagem a piscar. É de Maria Terzaki, 36 anos, actriz e cantora que trabalha com programas de educação para crianças. “Acho que prefiro uma cisão do que uma cedência, se a Europa continuar a ser inflexível e insistir na austeridade”, diz. “Para mim, a Europa e o euro não estão acima de tudo. A justiça é mais importante.”

Nesta quarta-feira, uma comissão do Parlamento grego anunciou que considera que a dívida foi contraída de modo ilegal e por isso não deve ser paga. A presidente do Parlamento, Zoe Konstantopoulou, descreveu a dívida de 320 mil milhões de euros como “ilegal, ilegítima e odiosa” – a BBC lembra que a dívida odiosa é um conceito da lei internacional referindo-se a dívidas contraídas por ditaduras ou governos ilegítimos que fizeram empréstimos.

Pouco depois, juntavam-se milhares de pessoas na Praça Syntagma, em frente ao Parlamento, pedindo o fim da austeridade exigida ao país em troca de um acordo, com cartazes a dizer: “Stop Austerity – Support Greece – Change Europe”. Mas segundo o diário britânico The Telegraph, a atmosfera era quase festiva – não havia sinais de ira ou de pânico.

Ansiedade e stress
O envolvimento político de Maria tem sido maior e menor conforme as épocas. Apoiante do Syriza desde cedo, começou a desinteressar-se justamente quando se aproximavam as eleições que deram a vitória ao partido de esquerda. Achava que pouco ia mudar. Agora, voltou a entusiasmar-se. “Mas não me sinto muito ansiosa, acho que isso tem a ver com o facto de não ter televisão”, diz.

Já Politimi não tem conseguido desligar durante os últimos cinco anos, desde que começou a crise. “Quando algo afecta a tua vida e te provoca stress diário, não chega a ser ruído de fundo, por mais anos que tenham passado”, diz. “Não encontras um grupo de amigos sem alguém desempregado ou alguém com graves problemas financeiros”, por isso mesmo quando se juntam, “esse é sempre o tópico número um”. “Mesmo quem tem trabalho está ansioso se ainda o vai ter amanhã.”

Quanto ao euro, não há discussões: no círculo de Politimi – amigos, família, colegas de trabalho – todos acham que o país se deve manter no euro, e todos acham que vai ser assim. Sondagens de opinião dão resultados semelhantes, com percentagens altas a dizer que preferem o euro, mesmo com um acordo com cedências, a uma saída.

Independentemente disto, Politimi diz que o acordo com a União Europeia é o mais urgente, mas não é o mais importante. “Temos de mudar muita coisa na Grécia”, diz, “incluindo começar a trabalhar para o bem comum”.

Já Ariadne está optimista com o que pode acontecer, na zona euro ou fora dela. Diz que o Governo dá sinais de trabalhar e que isso lhe dá esperança. Um exemplo: “Este ano os livros escolares para o próximo ano chegaram antes das férias. Tivemos anos em que chegaram seis meses depois do início do ano escolar. São sinais positivos, que mostram que o Governo está a trabalhar”.