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ONU regista número recorde de 60 milhões de deslocados no mundo

Todos os continentes tiveram mais deslocados, mas o principal motor continua a ser a guerra na Síria.

Metade de todos os refugiados do mundo são crianças
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Metade de todos os refugiados do mundo são crianças Bulent Kilic/Reuters

É o maior número de deslocados em todo o mundo de que as Nações Unidas têm registo. Em 2014, por força da guerra, conflitos e perseguições, contaram-se 59,5 milhões que se viram forçadas a abandonar as suas casas. É a conclusão do relatório do Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) que avalia anualmente as deslocações forçadas no mundo e que foi publicado esta quinta-feira.

Trata-se de mais 8,3 milhões de pessoas do que em 2013, ou, numa métrica diferente, uma média de 42,5 mil novos deslocados todos os dias ao longo do ano. Este é também o maior crescimento anual nos arquivos das Nações Unidas

A principal razão, lê-se no relatório da ACNUR, prende-se com o crescimento recente de conflitos e guerras no mundo. Nos últimos cinco anos, “pelo menos 15 conflitos nasceram ou reacenderam-se: oito em África, três no Médio Oriente, um na Europa e três na Ásia”.

O número de deslocados dentro e fora do seu país aumentou em todos os continentes. A guerra na Síria, contudo, continua a ser o maior motor para este crescimento. O conflito provocou 7,6 milhões deslocados no interior do país e fez com que quase 3,9 milhões de sírios fugissem do território. Estes valores, aos quais se somam os mais de 2,5 milhões de deslocados no Iraque, 2,59 milhões no Afeganistão e mais de 300 mil na Líbia fazem do Médio Oriente a maior fonte de pessoas deslocadas à força no mundo.

A comunidade internacional, diz António Guterres, o alto comissário da ACNUR, tem de dar uma resposta à altura. “Estamos a assistir a uma mudança de paradigma, à passagem descontrolada para uma era em que a escala das deslocações forçadas ao nível global, tal como a resposta necessária, estão agora claramente acima de tudo a que assistimos antes”, escreve o alto comissário da ACNUR no relatório publicado nesta quinta-feira.

Os últimos registos das Nações Unidas reforçam esta ideia. Em 2005, a ACNUR contava 37,5 milhões de pessoas deslocadas à força em todo o mundo. Em 2010, este número estava nos 43,7 milhões, ainda longe dos valores de 2014.

Metade são crianças
Os 59,5 milhões de pessoas deslocadas repartem-se em 19,5 milhões de refugiados, 38,2 milhões de deslocados internos e 1,8 milhões de pessoas que aguardam a decisão sobre os seus pedidos de asilo. Metade de todos os refugiados são crianças.

Há ainda uma agravante sobre este último valor. Apenas 126,8 mil pessoas conseguiram regressar a casa em 2014, o valor mais baixo dos últimos 31 anos.

Em 2014, o número de deslocados aumentou 51% na Europa, graças sobretudo à guerra no Leste da Ucrânia, ao maior número de migrantes que atravessam o Mediterrâneo e aos refugiados sírios que chegam à Turquia. Na África subsariana, a segunda região no mundo que mais deslocados produz todos os anos, as Nações Unidas registaram um crescimento de 17% no número de pessoas fugidas – há conflitos em vários países, como na República Centro Africana, Sudão do Sul, Somália, Nigéria e República Democrática do Congo.

Na Ásia, o crescimento de 31% do número de deslocados deve-se sobretudo aos rohingya muçulmanos, que, vítimas de perseguição étnica e violência religiosa vivem sobretudo em campos de refugiados dentro do próprio país. Já na América, as Nações Unidas dizem que as deslocações forçadas aumentaram 12%. A Colômbia, ainda a tentar resolver o conflito com a guerrilha das FARC, continua a ser um dos países com o maior número de deslocados internos: 6 milhões, de acordo com a ACNUR.  

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