Morreu António Garcia, um dos pioneiros do design português

Autor dos maços de tabaco SG Filtro, Ventil, Gigante e de capas de grandes obras da literatura para a Ulisseia, morreu em Lisboa aos 90 anos.

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António Garcia aos 85 anos, forografado no Mude Enric Vives-Rubio
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O trabalho gráfico nos maços da marca SG Enric Vives-Rubio
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As capas de livros foram um dos seus trabalhos mais reconhecidos Enric Vives-Rubio
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1984, de George Orwell, por António Garcia Enric Vives-Rubio
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A cadeira Osaka, de 1970 DR

O criador da imagem dos maços de tabaco SG Filtro, Ventil, Gigante, do Ritz, das capas de clássicos da literatura na Ulisseia, da cadeira Osaka’70 nem sabia bem que era designer. Tantos objectos do quotidiano português foram desenhados por António Garcia, um dos pioneiros da disciplina em Portugal, que morreu quarta-feira em Lisboa aos 90 anos.

António Garcia tinha problemas de saúde há um par de meses, que se agravaram nos últimos dias levando à sua hospitalização, disse ao PÚBLICO fonte da família. O velório realiza-se esta quinta-feira e às 8h45 de sexta-feira decorrerá a missa na Igreja da Encarnação, no Chiado, estando as cerimónias fúnebres agendadas para as 10h Cemitério do Alto de São João, também em Lisboa.

António Garcia recebeu o Prémio Nacional de Design Carreira em 2010, o mesmo ano em que depositou o seu espólio e assistiu à inauguração da exposição Zoom In/Zoom Out no Museu do Design e da Moda (Mude) em Lisboa. No ano passado, recebeu o doutoramento honoris causa pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa – o primeiro em Design daquela instituição.  
Garcia seguiu um percurso que era comum a muitos dos pioneiros do design português: o auto-didactismo, a formação como desenhador (na Escola António Arroio, em Lisboa), a ligação maior à arquitectura, o companheirismo e colaboração profícua com outros nomes sonantes da sua geração.

Trabalhou com António Sena da Silva em projectos de design gráfico na década de 1950 e, já no ano da revolução, criou com Daciano da Costa um gabinete de projectos e consultoria de design – foi com ele que desenhou os interiores do bar do Hotel Alvor Praia. Sem ele, pensou também os interiores dos aposentos de Américo Tomás no navio Príncipe Perfeito. Desenhou também o funcional auditório do Mude, então para o Banco Nacional Ultramarino, uma das poucas salas intocadas do edifício work in progress que acolhe o museu. "Se toquei a vida das pessoas? Não sei. O que mais pode tocar as pessoas é a arquitectura. Se conseguimos estar de mãos dadas com quem a vai habitar... É o que me liga mais às pessoas - os projectos de interiores", disse ao PÚBLICO em 2010.

Sofia da Costa Pessoa fez a sua tese de mestrado sobre António Garcia e escreveu Zeitgeist – o espírito do tempo, António Garcia, focado no trabalho que o designer residente no Bairro Alto desenvolveu nas décadas entre 1950 e 70. Sobre o designer que conheceu muito bem, que sempre trabalhou à mão, considera que o “grande valor” da sua praxis foi “a grande paixão pelo ofício e pela resolução de problemas a qualquer escala. É o grande sentido de construir, mas também da comunicação, da síntese, rápida. Gosta de resolver desafios". Veja-se o caso da cadeira Osaka, madeira escura e couro negro. É leve e prática, sim, por que se destinava à Exposição Mundial de 1970 na cidade japonesa, mas não ficou pronta a tempo de navegar até ao Japão. Resultado: uma cadeira modular, desmontável e mais leve, as Osaka Doityourchairs. Um dos vários "icones do design de produto" que assinou, como comenta ao PÚBLICO Bárbara Coutinho, directora do Mude, e cuja imagem em plano estará nos primeiros bilhetes para ingressar no Mude. 

O designer tem um "lugar cimeiro" no "processo de afirmação e consciencialização do design em Portugal. Ao longo da vida abraçou diferentes áreas do design com um sentido humanista, destacando-se sempre por uma inteliência prática, uma atenção a cada detalhe, uma qualidade dos materiais, uma simplicidade e originalidade das propostas", frisa Bárbara Coutinho.

O designer e coleccionador Paulo Parra descreveu-o em 2014, por ocasião do seu doutoramento, como “um designer global". É que Garcia desenhou a fábrica do refrigerante Canada Dry em 1956, no trabalho de design gráfico tocou desde os maços das emblemáticas marcas de tabaco nacionais (entre os anos 1960 e 70) até às capas da colecção Autores Modernos da editora Ulisseia, cabendo-lhe chamar leitores para as obras de Hemingway (O Adeus às Armas), Orwell (1984) ou Norman Mailer (Os Nus e os Mortos). Desenhou muitos stands para exposições, criou ainda as cadeiras Gazela (1955) e Relax ou as mesas Cubox4. Sobre ele, Sena da Silva diria, citado na página da colecção António Garcia no site do Mude, que o amigo produzia “obras exemplares de arquitectura, design de interiores e equipamento, além de uma obra notável de design gráfico, deixando para outros as justificações verbais”.

"Homem com uma transversalidade de interesses", corrobora a directora do Mude, "o seu olhar era atento e curioso", e exerceu sempre "com responsabilidade ética e sentido do colectivo. Mas, antes de tudo isso, António Garcia era um ser humano de grande generosidade, profundo sentido ético, sensibilidade e genuína humildade. Tê-lo conhecido e privado com ele foi um enorme privilégio e um grande ensinamento." 

Para António Garcia, como contou o designer ao PÚBLICO em 2010 entre as suas peças expostas no Mude – nas quais não resistia mexer, ajustando e alinhando – a ideia de design era afinal o nome que mais tarde se deu à sua tarefa e pulsão natural “de resolver coisas”. “O design é algo que tenho dificuldade em explicar.”