O meu estágio no atelier de Shinichi Ogawa

João Cepeda, Marta de Sousa Pinto, Teresa Azevedo e Tiago Atalaia foram os quatro vencedores do Prémio Arquitectos Agora, promovido pela OASRS. Como parceiro media, o P3 publica um excerto de um dos relatos

“Loft House” de Shinichi Ogawa, em Nagoya, Japa~o
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“Loft House” de Shinichi Ogawa, em Nagoya, Japa~o
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“Dear João, We think that your sense and skill are fit for our studio. We are open and like to receive you in Tokyo. Thank you, regards, Yoko Okegawa, staff of Shinichi Ogawa office.”

Assim começou a minha ‘aventura’ por terras nipónicas. Repentinamente.

Sem qualquer plano ou estratégia prévia, decido escrever um e-mail para o atelier do conhecido arquitecto japonês Shinichi Ogawa, pela grande admiração que tinha pelo seu trabalho. Envio o meu portefólio, e pergunto se existe a possibilidade de trabalhar/estagiar no seu escritório. Respondem-me de imediato, na madrugada seguinte. 

Ao longo da minha evolução como estudante e como arquitecto, fui aprendendo a admirar os ambientes e cenários do ideário japonês, assim como os fundamentos e a estética da arquitectura tradicional japonesa. O chão em ‘tatami’, as portas de correr ‘shoji’, a fluidez total dos espaços, a relação franca com a natureza e o exterior, a luz... ou mesmo a sombra, já tão ‘elogiada’ por Tanizaki no início do século XX (“O Elogio da Sombra”, Junichiro Tanizaki, 1933).

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Durante uma reunia~o no atelier com o arquitecto Shinichi Ogawa DR

Com uma linguagem marcada e assumidamente minimal, a obra do arquitecto Shinichi Ogawa transporta para a contemporaneidade dos nossos dias os princípios fundamentais que, desde os seus primórdios e pelas suas características (sempre) tão vincadamente modernas e inovadoras, a arquitectura tradicional japonesa ensinou a tantos mestres ao longo da história, nomeadamente a Frank Lloyd Wright, que sempre a referenciou como uma das suas mais importantes influências.

Sem tempo para grandes preparações, e depois de alugar um quarto (mínimo) pela internet, parto para o Japão, parto para Tóquio... parto, ainda sem plena consciência do que me espera, para um enorme desconhecido. 

 “Amae”

O rápido começo da minha experiência no atelier de Ogawa foi um ponto de charneira, uma espécie de ‘bóia de salvação’ que veio equilibrar todo este processo, apesar de uma das primeiras frases com que, depois de grande esforço e dificuldade, me presenteiam no primeiro dia: “Like most of Japanese, we don’t have good skill of English, so you may feel difficult.”

No entanto, começa logo aí a minha descoberta do verdadeiro Japão. E do habitual fascínio que um ocidental tem pelo Oriente, começa a surgir o meu encantamento pelo Japão, e pelos japoneses...: “But don’t worry, because Japanese is ‘Amae’.” Grande parte dos japoneses, ao tentarem expor a um estrangeiro a sua cultura de uma forma rápida e sumária, recorrem invariavelmente à palavra “Amae”, que procura sintetizar a sua linha de conduta tão própria e fundamental. “Amae” significa ‘depender da, ou presumir a benevolência do outro.’ Porque, apesar de tudo, existe no Japão uma premissa que minimiza qualquer barreira cultural e linguística: o profundo respeito pelo outro.

Sou recebido no atelier com simpáticas vénias, e (com gestos) pedem-me que retire os sapatos e os deixe à entrada. Tratam-me, no início, por “Jôá-san”, e pouco tempo depois apenas por “Jôá”. De facto, a comunicação aparentava ser extremamente difícil. Pensei que seria simples comunicar em inglês. Afinal, tanto no atelier como na cidade em geral, era praticamente impossível. Porém, a linguagem básica da arquitectura é, de certa forma, quase universal. Por outro lado, a minha grande identificação pessoal com o trabalho do arquitecto Shinichi Ogawa permite-me intuir de forma mais célere a sua abordagem projectual.

Espanta-me, em todos no atelier, a perseverante busca pela perfeição em tudo o que fazem. No entanto, para os japoneses a perfeição é algo inatingível, explicam-me. Embora aparentemente paradoxal, esta visão traduz a sua incessante e fatigante procura pelo que é ideal, por aquilo que é mais belo e harmonioso, por aquilo que, ainda que ‘quase-perfeito’, pode, até certo ponto, ser sempre aprimorado. Porém, as minhas primeiras impressões mais profundas são relativas ao seu tremendo ‘culto’ pelo trabalho, e às horas de expediente. Os japoneses trabalham, de facto, durante muitas horas. Domingo é o único dia livre no atelier. No Japão, o trabalho é sinónimo de prazer e não de obrigação.

“Kahouhanetemate, ‘Jôá’”

Desde o início que sou incluído nas reuniões do atelier e, ainda que nos primeiros tempos a minha compreensão de tudo o que passava ou discutia fosse diminuta, sempre me pediam opinião. Levam-me a obras do atelier em construção, e a outras já concluídas. Incluem-me em tudo, e levam-me a todo o lado – compreendo, passado algum tempo, também com o intuito de ‘orgulhosamente’ mostrarem o elemento (tão) diferente que agora fazia parte da sua equipa.

O meu cumprimento rigoroso das tarefas e horário do atelier faz com que Ogawa me dê a oportunidade de, com ele, poder desenvolver de raiz um novo projecto de uma casa para um casal que vivia em Hiroshima. O projecto acaba por não ir adiante, por motivos orçamentais. No entanto, o trabalho corre bem e o arquitecto aprecia o meu empenho, pelo que volta a dar-me nova chance, numa outra casa em Saitama, e outra, para uma casa na Polónia.

Recordo as suas ideias, (sempre) muito claras, e isso reflectia-se no desenho. O seu método, um ritual extremamente metódico e simples, que se repetia incansavelmente. Primeiro, várias maquetes de estudo, quase sempre com volumes muito simples e depurados. Depois, começavam os esquissos e os desenhos, até se chegar ao desejado resultado final. A (já referida) busca pela perfeição – ou pela "quase-perfeição" – era o lema em todos os projectos e estendia-se no estudo de pequenos pormenores, às vezes, por várias semanas, até essa ser finalmente alcançada. 

Passado quase um ano, e após quatro mudanças de casa, a experiência chegou ao seu fim. Existe a vontade de continuar no atelier, mas a extrema dificuldade em aprender a parte escrita da língua japonesa revela-se o maior obstáculo. Repetiram-me, inúmeras vezes, no atelier: “Kahouhanetemate”. “Kahouhanetemate, ‘Jôá’”. A expressão significa que ‘tudo de bom acontecerá a quem for paciente e não interferir no rumo natural da vida, e das coisas’.

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