Madeira: A História vista pelos "de baixo"

Centro de Estudos de História do Atlântico quer que a Madeira seja exemplo de região com História de todos, e não apenas das elites. No início do próximo mês lança um primeiro livro escrito a partir de material recolhido entre ilhéus: Cartas no Intervalo da guerra.

Miguel Manso
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Miguel Manso

João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira, Bartolomeu Perestrelo. A História fala dos navegadores que “descobriram” a Madeira. Diz que os capitães-donatários e as suas famílias foram os primeiros colonos. A História não diz de quem eram as mãos que seguraram os lemes e içaram as velas dos navios, nem de quem eram as mãos que abriram caminho entre os arbustos e o arvoredo.

A constatação é de Alberto Vieira, investigador-coordenador do Centro de Estudos de História do Atlântico. O tempo corre e a História vai sendo contada com o nome de uns quantos – o dos que têm “voz de comando”, os “de cima”. E os outros, “os comandados”, os “de baixo”?

“Não ignoramos a documentação, nem ninguém, mas queremos que a História da Madeira seja um caso exemplar, entre as histórias regionais, de todos e não apenas de alguns protagonistas”, escreveu o historiador, em Maio de 2013, na newsletter que lançou o projecto Memórias das gentes que fazem História. “Queremos juntar a voz e o contributo de eleitos e eleitores”.

Na tentativa de fazer com que a “História vista de baixo” complete a “História vista de cima”, um apelo vai sendo lançado aos ilhéus, mês após mês, ano após ano: “Se guarda memórias, cartas, fotografias, diários, documentos vários e registos e deseja que sejam dignificados enquanto histórias da História, por favor contacte-nos.”

A equipa, integrada por Graça Alves e Cláudia Faria, não se limita a recolher as histórias de vida e os documentos associados. Vai inserindo as entrevistas e os documentos numa base de dados digital, que poderá ser usada por quem faz trabalhos de investigação ou trabalhos técnico-artísticos.

Não são historiadoras, elas. Uma é professora de Inglês-Alemão e a outra professora de Português-Francês. Estão, porém, ambas destacadas no Centro de Estudos de História do Atlântico, no Funchal.

Cláudia Faria já tinha feito um mestrado em literatura e cultura. Debruçara-se sobre uma família britânica residente na Madeira de oitocentos, a família Phelps. Encontrara um diário escrito por uma das filhas, Mary (1839-1843), e decidira fazer um doutoramento a partir desse documento.

Naquele tempo, percebera o quanto estava a crescer essa forma de fazer ciências sociais e humanas. Há cada vez mais gente a estudar vidas privadas. Solidificam-se iniciativas como o Museu da Pessoa, a Rede Internacional de Museus da Pessoa, o Dia Internacional das Histórias de Vida.

Ela e Graça Alves apresentaram a ideia a Alberto Vieira. Num instante, estavam a discutir os detalhes. O centro estava muito concentrado na história do vinho e da cana-de-açúcar. Importava aprofundar outras áreas temáticas. Podiam começar por duas: as actividades à volta do porto do Funchal e a mobilidade, dentro da qual cabem bem as migrações e a guerra colonial.

Juntam-se os três a conversar com o PÚBLICO e qual deles o mais entusiasta desta nova fase. Identificam-se todos com Jim Sharpe, autor do célebre ensaio a História Vista de Baixo, para quem a História não se pode cingir aos grandes feitos, às elites, até porque a “História vista de baixo ajuda a convencer os nascidos sem colheres de prata na boca que também vieram de algum lugar”.

No boca-a-boca, nas redes sociais, nos meios de comunicação social, passa a palavra. E chegam-lhes às mãos maços de correspondência diversa: cartas, postais, aerogramas, telegramas, notas avulsas.

As vidas extravasam as gavetas pré-definidas. Graça Alves dá um exemplo: “Fomos à procura de histórias de emigração. De repente, percebemos que miúdos de 12 e 13 anos emigravam sozinhos para o Brasil, para a África do Sul, para fugir à guerra colonial.” A hora deles ainda vinha longe, mas viam chegar homens “estropiados, tontinhos, mortos”. E queriam fugir quanto antes.

Contam, até agora, 36 histórias de vida. Uma delas acaba de dar um livro: Cartas no Intervalo da guerra, cujo lançamento está agendado para as 18h de 2 de Julho, ali mesmo, na Rua das Mercês, nº 8.

Graça Alves faz a sinopse: António avançou para Moçambique, decidido a fugir para a África do Sul, como tantos conterrâneos. Apanhado pelas autoridades, foi reconduzido à fronteira e tornou à Madeira. Forçado a cumprir serviço militar, foi mobilizado para o Ultramar. Teve madrinha de guerra, figura restaurada pelo Movimento Nacional Feminino, num pacto de fidelidade com o poder.

Maria Adelaide, rapariga do campo, membro da Acção Católica, escrevia-lhe a transmitir confiança, a contar notícias da terra. Naquele tempo, não raras vezes, os “afilhados” tentavam transformar as “madrinhas” em namoradas. Foi isso mesmo que aconteceu. Depois de muito olhar para a fotografia de Maria Adelaide, toda sorridente, António pediu-lhe namoro e ela aceitou. Casaram-se quando ele voltou. E, durante anos, ele guardou as cartas trocadas por ambos.

“Este caso é muito rico”, enfatiza Graça Alves. Ele emigrou para a Venezuela, como faziam muitos naquela época. “Ele diz que, nos anos 70, a Madeira só era boa para viver com dinheiro ganho fora dela. Hoje está cá. Tem o seu próprio negócio.” Continua casado com a mesma mulher.

Já estamos para lá da História oral, sublinha Alberto Vieira. Estamos no universo das histórias de vida. E esse leva a pensar em que medida “a história de cada um, enquanto alguém que preserva e transmite valores e experiências, pode contribuir para construir o consciente colectivo”.

Não é tão pacífico quanto pode parecer. São muitas as armadilhas das “escritas do eu”. Só que tudo isso tem vindo a ser esmiuçado por estudiosos diversos. O diálogo sobre o vivido, o verdadeiro, o imaginado já está descrito no livro O Pacto Autobiográfico, publicado por Philippe Lejeune em 1973. Só que Philippe Lejeune e os seus discípulos aceitam a subjectividade de quem narra.

Não há como evitar: o tempo subtrai, baralha, dá, torna a baralhar. “A pessoa esquece, tem lembranças que não são suas, das quais se apropriou”, explica Graça Alves. “Nós assumimos isso. O que recolhemos é o olhar daquela pessoa sobre a sua vida, sobre determinados acontecimentos.”

Ao falar sobre a guerra colonial, por exemplo, há uma tendência para os homens se apresentarem como corajosos, heróicos, para não falarem sobre os seus medos, as suas fraquezas. “O que contam pode não ser a verdade, no sentido de verdade histórica, mas o que é a verdade?”, questiona Graça Alves.

“Estamos habituados à perspectiva histórica da distância”, achega Cláudia Faria. O historiador lê os documentos, analisa-os, reflecte sobre eles, produz informação. “Não é possível manter a mesma distância quando ouvirmos pessoas, que choram ou riem à nossa frente.” Estão ambas a aprender a gerir as emoções que vão desencadeando na exacta medida em que convocam as memórias dos outros.

Cláudia Faria faz parte da IABA – Associação internacional de Auto/Biografia, uma organização fundada por Philippe Lejeune em França com o objectivo de salvaguardar arquivos pessoais e familiares. O grupo interdisciplinar tem por mote: “Queremos ler estas narrativas sem estudá-las, queremos apreciá-las sem avaliá-las, queremos torná-las acessíveis à leitura sem publicá-las”. 

Não por acaso, no mês passado, a IABA realizou o seu encontro bianual na Madeira. O Centro de Estudos de História do Atlântico organizou-o em parceria com o European Journal of Life Writing. Durante três dias, peritos de diversos países discutiram as dimensões do diálogo nas narrativas de vida.

Está tudo no blogue, que lhes serve de janela para o mundo. Chama-se Memória das Gentes. Usam-no para divulgar excertos das histórias recolhidas na Madeira, mas também como chamariz para novos narradores. Com o entusiasmo de estar, de certo modo, a “corrigir” a História, a ajudar a fazer a “História de todos”.