Filipa tem uma morada mas não vai lá, Rafaela decidiu ir ao encontro do pai

Estudos internacionais indicam que a curiosidade é comum, mas poucas pessoas adoptadas procuram os pais biológicos. Muitas questões se levantam, como se vê pelos dois testemunhos recolhidos pelo PÚBLICO.

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Rui Gaudêncio

Filipa, 26 anos, entregue aos cinco meses

Filipa tinha cinco meses quando a mãe biológica a deixou à porta da mãe adoptiva. Nunca mais a viu. Tem a morada dela há três anos, mas nunca se atreveu a bater-lhe à porta. “Se já fui rejeitada uma vez, posso vir a ser outra vez, não é?” E não é só ela que está em jogo. “Isso ia apavorar a minha mãe.”

A mãe biológica tinha três crianças e entregou-as todas à família paterna antes de desaparecer. Sofia, a de sete anos, e Luís, o de cinco anos, foram entregues aos cuidados dos avós e criados por uma tia. Filipa foi adoptada por uma prima, que queria muito ter um bebé. Só quando entrou na escola primária, para prevenir maldades infantis, lhe contaram que fora adoptada e que Sofia e Luís não eram seus primos, mas seus irmãos.

Tinha Filipa onze anos quando morreu o pai biológico e a mãe biológica reapareceu. Filipa não a viu. Naquele sábado à noite, decidiu ir à missa. A irmã é que lhe abriu a porta. Fartou-se de chorar, “com medo que ela a quisesse levar”, mas ela voltou a desaparecer, sem deixar morada nem número de telefone.

Há uma curiosidade que não desaparece por mais anos que passem. “Se alguma vez estivesse com ela, queria perguntar-lhe por que nos deixou assim. Sei que ela não teve pai, que a mãe dela morreu cedo, que ela foi criada por uma tia, que se casou nova e que se perdeu por aí, mas... será que não lhe toca? Será que não sente saudade? Eu sou mãe e, para mim, era impossível deixar a minha filha, não querer saber dela.”

Pensou muito nisto tudo quando estava grávida. Perguntavam-lhe se tinha doenças hereditárias, que doenças havia na família, e ela não sabia responder. Teve de dizer que fora adoptada. Acabara ela de ter a criança, perguntou-lhe um enfermeiro: “Não quer meter um processo em tribunal para saber quem são os seus pais biológicos?” Não, não queria. Não queria, mas aquilo ficou a martelar na cabeça dela.

Descobriu a morada da mãe biológica há três anos. Pediu ajuda a um advogado, amigo do irmão. E ele fez uns contactos na Segurança Social e arranjou-lha. Filipa ficou a olhar para a morada. “Vou? Não vou? Vou? Não Vou? Não fui.” Guardou-a, muito bem guardada. “Não tenho ligação. Queria saber como é que ela é. Queria saber se é alta, se é baixa, se é gorda, se é magra.E queria conhecer os meus irmãos mais novos.” Até agora, medos superaram a curiosidade. Não quer sentir-se rejeitada, muito menos quer que a mãe, a mãe mesmo, se sinta rejeitada por ela: “Ela é insegura, sempre teve medo que eu um dia preferisse ir ter com a outra.”

Rafaela, 30 anos, entregue com quase dois anos

A mãe biológica morreu quinze dias depois de ter o segundo filho. Rafaela tinha quase dois anos. Ela e o irmão foram entregues à família para a qual a mãe trabalhava, que a tratava como se ela fosse um dos seus membros.

Lá em casa moravam um idoso e uma filha, presa a uma cadeira de rodas. Uma empregada cuidava de todos. Outra filha, que morava no Canadá, veio ajudar e acabou por ficar. Foi ela que adoptou Rafaela e o irmão. Para Rafaela, porém, a mãe sempre foi a tia presa à cadeira de rodas.

Perguntava-se, muitas vezes, o que tinha acontecido, por que não tinha o pai assumido as devidas responsabilidades. Lembrava-se que, antes de ter sido decretada a adopção, ela e o irmão experimentaram viver com ele e com a nova mulher. Imaginava que se tivesse crescido com ele não sentisse aquele vazio que a sugava por dentro. Imaginava que em vez disso sentiria amor.

Quando a tia, que encarava como mãe, morreu, Rafaela decidiu procurar o pai. “Sempre soube onde ele trabalhava. Fui à procura dele. Ele já estava com outra mulher. Tinha-se casado pela terceira ou quarta vez.”

O irmão zangou-se. Não percebia o que podia ela querer com aquele homem. “Eu queria perceber quem é que eu era”, diz ela. “Ele não soube explicar muita coisa.” Talvez não soubesse. “Ele disse que telefonava lá para casa, que mandava dinheiro. Lá em casa, nunca me falaram nisso e eu nunca tive coragem de perguntar.”

Ainda se refugiou num convento. Nem o pai, nem a religião substituíram o tal vazio, a tal falta de afecto. Rafaela não ganhou auto-estima, não perdeu medo de rejeição. Um dia, ao espreitar os pais que iam levar as crianças à creche, percebeu que "era daquele lado que queria estar". Queria ter uma família: ia formar uma. E que medo de falhar quando teve a filha, já lá vão seis anos.

 “A minha relação com o meu pai não é de pai e filha e nunca há-de ser, mas falo com ele”, conta. Vivem longe, ela no continente, ele numa das ilhas. Telefona-lhe de vez em quando. Não falam no passado, só do presente, das peripécias da filha. Nunca lha apresentou. Tão-pouco à família adoptiva. Não tem tido dinheiro para viajar, mas não é só isso. Há distâncias que o dinheiro não encurta.