Torne-se perito

Ao fim de sete meses, a sonda File acordou e a telenovela continua no cometa

Em Novembro, a File ficou sem energia e calou-se, pousada no cometa que a Agência Espacial Europeia está a estudar na missão Roseta. Agora, mais próxima do Sol, recarregou as baterias e pode voltar a trabalhar.

A primeira fotografia tirada pela File já pousada no cometa 67P, que foi divulgada pela ESA
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Uma imagem do ambiente do cometa captada pelo File depois de ter pousado no 67P ESA
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A File fotografada pela Roseta na descida até ao núcleo do cometa ESA
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Núcleo do cometa fotografado pela sonda Roseta em Agosto de 2014 ESA
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Núcleo do cometa fotografado pela sonda Roseta a 5 de Junho a 208 quilómetros de distância ESA
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Visão artística da sonda File a pousar no núcleo do cometa ESA/ATG medialab
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Cartoon da sonda File a acordar na superfície do cometa ESA

Desde Março que a Agência Espacial Europeia (ESA) estava à espera de receber sinais da File. O aparelho foi lançado da sonda Roseta, em Novembro, e pousou no cometa 67P/Churiumov-Gerasimenko. Durante três dias, a File manteve-se activa com a energia que levava nas baterias. Mas como tinha caído num lugar escondido, o sol que recebia não era suficiente para alimentar as baterias e adormeceu. Durante sete meses não se soube nada do aparelho. Este domingo de manhã, a ESA revelou que, finalmente, esta bela adormecida acordou.

“Olá Terra! Conseguem ouvir-me?”, lia-se este domingo na conta do Twitter da File. Várias pessoas responderam imediatamente: “Ouvimos-te alto e bom som.” Ao mesmo tempo, um comunicado da ESA explicava melhor o que se tinha passado: “A File está muito bem: está a uma temperatura de 35 graus Celsius negativos e tem disponível uma potência de 24 watts”, informou Stephan Ulamec, responsável pela missão no Centro Aeroespacial da Alemanha. “O robô está pronto para iniciar as operações.”

A ESA recebeu os sinais no sábado às 21h28 (hora de Lisboa). Para a informação chegar à Terra, a File tem de estar na mira da sonda Roseta, que está a girar em redor do 67P. Depois, os dados recebidos pela Roseta são transmitidos para a Terra.

Os cientistas da ESA analisaram mais de 300 pacotes de informação para avaliar o estado da sonda. O contacto durou apenas 85 segundos, mas ficou claro que a File estava acordada há algum tempo. “Recebemos informação histórica – no entanto, o aparelho não nos tinha conseguido contactar antes”, explicou a ESA.

A sonda Roseta partiu da Terra em 2004 levando com ela a File. O objectivo da missão é estudar de perto um cometa. Há séculos que estes objectos preenchem o imaginário da humanidade, ao surgirem e desaparecem no céu com as suas caudas observadas a olho nu. Os cientistas pensam que estes pedaços de areias e gelos agregados surgiram no início da formação do sistema solar. E esperam, com os cometas, aprender mais sobre esses primeiros momentos. O que esta missão inédita permite é acompanhar durante meses a actividade de um cometa, à medida que ele se aproxima do Sol e vai libertando mais e mais material.

Quando a sonda Roseta alcançou o 67P/Churiumov-Gerasimenko, a 6 de Agosto de 2014, ficando a cerca de 100 quilómetros do cometa, ele ainda estava entre a órbita de Júpiter e Marte, a 538 milhões de quilómetros do Sol. Nessa altura, a Terra recebeu imagens detalhadas do cometa tiradas pela sonda. O 67P é composto por um corpo arredondado colado a uma cabeça mais pequena, que, visto de perto, é um território inóspito com escarpas, buracos, declives.

A partir de Agosto, iniciou-se o estudo do cometa graças aos 11 instrumentos científicos da Roseta. Os cientistas definiram o lugar de aterragem da File, cuja descida estava já programada para Novembro. Este aparelho conta com dez instrumentos científicos para analisar in situ o cometa, produzindo dados que a Roseta, estando em órbita, não tem acesso.

A 12 de Novembro, a Roseta largou a File, que foi atraído pela ténue força gravítica do 67P, acertando no alvo desejado, a cabeça do cometa. Mas o mecanismo criado para disparar os arpões e prender o robô ao solo não foi accionado. Por isso, a File ressaltou, voltou a descer e bateu em rochas, subiu de novo, voltou a cair, deu ainda mais um pequeno pulo e, finalmente, pousou perto da falésia. Pela primeira vez, a humanidade tinha um aparelho pousado num cometa.

O problema é que o local apanhava pouco sol e os painéis solares da sonda, que tem o tamanho de uma máquina de lavar, não conseguiram alimentar a sua bateria. A 15 de Novembro a File adormeceu, depois de ter feito uma série de experiências cujos resultados foram sendo divulgados nos meses seguintes. Mas os cientistas esperavam que, ao aproximar-se do Sol, o cometa recebesse luz suficiente para aquecer as baterias da File e recarregá-las. Desde de 12 de Março que a Roseta estava preparada para ouvir a pequena sonda lá em baixo, na superfície do cometa.

Agora, a 306 milhões de quilómetros do Sol, já a cruzar a órbita de Marte, a espera acabou. Os próximos meses vão ser muito importantes. A 13 de Agosto, o cometa vai atingir o ponto mais próximo do Sol, algures entre a órbita de Marte e da Terra. Nessa altura, a sua actividade vai atingir o pico. A File estará, literalmente, no meio dos acontecimentos e, se tudo correr bem, ainda estará acordada.

“Temos de esperar por mais sinais da File, para obter mais informação sobre as suas condições e para começarmos a fazer ciência”, disse este domingo ao PÚBLICO o astrofísico Matt Taylor, um dos responsáveis da Roseta e da File. “Como sempre, é preciso esperar. A missão Roseta é assim: uma telenovela!”

Notícia actualizada às 17h30 de 14 de Junho de 2015