Opinião

A coragem de José Sócrates

Desligadas da sua dimensão moral, a coerência e a coragem não só não são qualidades, como podem ser terríveis defeitos, próprios dos fanáticos.

Na sua relação com José Sócrates, os colunistas políticos portugueses dividem-se em dois campos.

De um lado, aqueles que levaram anos a denunciar o perigo que Sócrates representava para a democracia portuguesa, e que, portanto, estão bastante convencidos de que ele é culpado daquilo de que o acusam. Do outro, aqueles que, independentemente de terem estado em acordo ou desacordo pontual com as suas opções políticas, nunca vislumbrarem nele defeitos particularmente graves, e até lhe foram reconhecendo ao longo dos anos qualidades assinaláveis, como a energia, a resiliência, a capacidade de motivação e de trabalho, e – claro – a coragem.

Estes últimos colunistas, de um modo geral, estão a fazer figas para que a justiça portuguesa não consiga provar as suas acusações contra Sócrates. Ainda que as justificações que ele e os seus advogados têm vindo a dar para a circulação do dinheiro e para a sua relação com Carlos Santos Silva sejam patéticas e politicamente insustentáveis, existe ainda a vaga esperança de que elas possam vir a ser juridicamente sustentáveis, dada a dificuldade de prova nos casos de corrupção. Se defender Sócrates em 2015 é ainda mais estapafúrdio do que defender Sócrates em 2011, há uma boa razão para essa defesa: a sua condenação por corrupção tem graves consequências reputacionais não só para ele, mas também para quem andou durante anos e anos a argumentar que todos os casos em que Sócrates esteve envolvido eram meras cortinas de fumo, porque de outra forma as polícias e a magistratura teriam actuado.

Claro que, hoje em dia, Sócrates já não é defendido da mesma maneira, mas as reacções à sua decisão de recusar a pulseira electrónica foram sintomáticas daquilo que vai no interior dos articulistas que sempre sentiram simpatia por ele. De Miguel Sousa Tavares a Daniel Oliveira, de Nicolau Santos a Pedro Marques Lopes, fartei-me de ouvir e ler elogios à opção de Sócrates, seguindo uma linha de argumentação que reforça a mitologia do “animal feroz” e do político que quebra mas não torce, como se ele fosse um Churchill do Alto Alentejo em vésperas da Batalha de Inglaterra.

Escreveu no Expresso Nicolau Santos, num artigo vitaminado com versos heróicos de Rudyard Kipling: “Goste-se ou odeie-se José Sócrates, há um mínimo que se deve a um homem: respeito pela sua dignidade, pela sua coerência e pela sua coragem.” Também no Expresso, Daniel Oliveira colocou a “coragem” de Sócrates nos píncaros: “o que obriga as pessoas, independentemente das suas convicções sobre a culpa ou inocência de Sócrates, a reconhecer-lhe pelo menos essa qualidade”. Ora, parece-me extraordinário que duas pessoas inteligentes não se apercebam dos perigos de uma argumentação 100% carismática, onde coerência e coragem surgem como qualidades puras, sem qualquer ligação à culpa ou à inocência. Caros Nicolau e Daniel: desligadas da sua dimensão moral, a coerência e a coragem não só não são qualidades, como podem ser terríveis defeitos, próprios dos fanáticos.

O mesmo Expresso onde trabalham Nicolau Santos e Daniel Oliveira distribuiu recentemente a história da Segunda Guerra Mundial de Martin Gilbert. Deitem uma espreitadela: do kamikaze ao oficial japonês que abre a barriga com um sabre, para evitar a rendição, passando pelo nazi que se suicida com cianeto, o que mais há por ali são homens corajosos e coerentes. Digam-me: devemos elogiar essas suas qualidades, “independentemente da culpa ou da inocência”?