Este “mito urbano” não é como os outros: existiu

O primeiro-ministro desafiou “qualquer um a recordar” uma frase sua que fosse um incentivo à emigração dos jovens. O PÚBLICO recorda o que disseram Passos, Relvas e outros membros do Governo.

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O primeiro-ministro na visita ao Portugal dos Pequenitos, em Coimbra Sérgio Azenha

Na segunda-feira à tarde, Pedro Passos Coelho deixou um desafio à nossa memória recente: "Há uns quantos mitos urbanos, um deles é que eu incentivei os jovens a emigrar. Eu desafio qualquer um a recordar alguma intervenção ou escrito que eu tenha tido nesse sentido."

A frase do primeiro-ministro que mais se aproxima de um “incentivo” à emigração dos jovens foi publicada, em Dezembro de 2011, pelo Correio da Manhã, numa entrevista com o primeiro-ministro. É uma resposta a uma pergunta do jornal sobre a situação dos professores excedentários (na sua maioria jovens, à procura de vínculo profissional) e não, especificamente, sobre jovens. E foi esta: "Nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que, das duas uma, ou consegue, nessa área, fazer formação e estar disponível para outras áreas ou, querendo manter-se, sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado de língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa."

A frase pode ser interpretada de várias formas: como um conselho, uma sugestão ou, lá está, como um “incentivo”. Mas esta declaração do primeiro-ministro tem, como tudo, um contexto. E é a história da declaração que explica o tal “mito urbano” que – como se verá – tem pouco de mito.

Dois meses antes da frase de Passos, já Alexandre Mestre, secretário de Estado do Desporto, aconselhara os jovens a emigrar. De uma forma tão expressiva que deixou marcas na nossa memória. Disse o governante: "Se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras." Isto foi dito em São Paulo, no Brasil, e testemunhado pelos gravadores da agência Lusa, que difundiu a declaração.

Em Lisboa caiu o Carmo e a Trindade. Não só o governante apelava à emigração dos seus compatriotas, como classificava o desemprego como “zona de conforto”, acusou, na altura, a oposição. De tal maneira que, um mês depois, ainda se falava disto em Lisboa. E Miguel Relvas, ministro adjunto de Passos, foi confrontado com a opinião do secretário de Estado, no Parlamento (durante o debate do Orçamento do Estado para 2012). Criticou-o? Repreendeu-o? Discordou? Não…

Relvas, falando da bancada do Governo, em resposta a uma interpelação da oposição, subscreveu a opinião de Mestre e acrescentou um ponto: "Quem entende que tem condições para encontrar [emprego] fora do seu país, num prazo mais ou menos curto, sempre com a perspectiva de poder voltar, mas que pode fortalecer a sua formação, pode conhecer outras realidades culturais, é extraordinariamente positivo. Também nesta matéria é importante que se tenha uma visão cosmopolita do mundo.”

É na sequência destas declarações, e do debate por elas suscitado, que o primeiro-ministro responde ao Correio da Manhã. Aliás, a pergunta do jornal faz uma referência clara à polémica criada pelas declarações do secretário de Estado (“Nos professores excedentários, o senhor primeiro-ministro aconselhá-los-ia a abandonar a sua zona de conforto e procurarem emprego noutros sítios?”) Passos responde, como vimos, que sim. Em nenhum momento Passos contradiz os seus colaboradores. Até parece dar-lhes razão, classificando a emigração como “alternativa” ao desemprego em Portugal. Aí, sim, se fosse essa a sua vontade, o primeiro-ministro poderia ter acabado com aquilo a que agora chama de “mito urbano”. Dizendo que não.

Na altura, aliás, toda a gente acreditou no "mito urbano". Até alguns dirigentes do PSD, que apareceram na imprensa a criticar as palavras de Passos. Ou a elogiar a ideia, considerando, como o fez Paulo Rangel, à entrada para uma reunião da cúpula do PSD, em Dezembro de 2011, que não havia "motivo para escândalo".  Rangel sugeriu, até, que podia ser criada uma "agência nacional" para ajudar "as pessoas que tivessem essa vontade" de deixar o País. O próprio Presidente da República, Cavaco Silva, deixou um recado, na sequência destas declarações: "Não pode faltar a esperança de construir um país com condições de realização do emprego para os jovens", deixando claro que desejava que os portugueses acabassem "por preferir a nossa terra para exercer as suas profissões".

A primeira vez que Passos disse que não disse o que toda a gente percebeu foi em Janeiro de 2013. Em Paris... "Ninguém no Governo aconselhou os portugueses a emigrarem", disse, acrescentando que a emigração não deve ser considerada "um estigma". Já durante esta terça-feira, depois do repto que lançou para que se descobrisse o seu "incentivo", Passos voltou ao tema confrontado pelos jornalistas: "Já conseguiram investigar uma frase minha?", ironizou, reafirmando que o que disse na entrevista citada "não é convidar ninguém para a emigração".