Morreu Nuno Melo, um "actor fora da norma"

Actor de 55 anos, que trabalhou no teatro, no cinema e na televisão, morreu nesta terça-feira em Lisboa. Nuno Melo lutava contra um cancro no fígado.

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Nuno Melo em 2001 Pedro Cunha/Arquivo

Ausente dos ecrãs da televisão desde o ano passado, depois de terminar as gravações da novela O Beijo do Escorpião, na TVI, Nuno Melo morreu nesta terça-feira em Lisboa.

O actor sofria há nove anos de hepatite C e descobrira recentemente que tinha cancro no fígado, segundo noticiou em Maio o Diário de Notícias. Estava hospitalizado e aguardava um transplante hepático. O PÚBLICO confirmou a notícia junto do gabinete de imprensa da TVI.

Nuno Melo começou a carreira no Teatro de Animação de Setúbal, no início da década de 1980, mas foi como Caniço, personagem de uma das primeiras telenovelas portuguesas, Chuva na Areia, que se tornou conhecido dos portugueses. Foi, aliás, na televisão que fez boa parte do seu percurso como actor, um trajecto que passou também pelo cinema, onde trabalhou com realizadores como José Nascimento, João César Monteiro, João Botelho e Edgar Pêra, e pela colaboração com o Teatro da Cornucópia (Plume) e os Artistas Unidos, onde foi dirigido por encenadores como Jorge Silva Melo (Terrorismo, dos Irmãos Presniakov), Pedro Marques (Cicatrizes, de Anthony Neilson) ou Solveig Nordlund (Há Tanto Tempo, de Harold Pinter).

"Era um actor fora da norma, diferente dos actores que há em Portugal", disse Jorge Silva Melo ao PÚBLICO. "Era muito afirmativo, mas ao mesmo tempo muito receoso. Tinha ali uma fragilidade que me encanta. Impunha-se à bruta, ao mesmo tempo que pedia carinho. Sentia-me desafiado quando trabalhava com ele."

Na televisão, Nuno Melo fez também vários programas de humor, destacando-se Casino Royal  e Crime na Pensão Estrelinha, com Herman José, e Camilo e Filho, com Camilo de Oliveira, em que o actor interpretava um homem de 35 anos que ainda vivia com o pai, ambos sucateiros.

“Tenho óptimas recordações da fase de trabalho intenso com ele no final dos anos 1980, inícios de 90. Foi uma relação sempre com muito boa onda”, diz ao PÚBLICO Herman José, lembrando como o actor se integrou perfeitamente na equipa. “Era muito profissional.” Depois disso, pouco se encontravam, acontecia em alguns momentos sociais, mas “havia sempre aquela coisa simpática”.

Para o apresentador, a vida fez com que Nuno Melo perdesse nos últimos anos “uma certa frescura”. “Acho que apanhei a fase mais feliz dele, foram tempos felizes”. “Mas nunca teve falta de trabalho.”

Nas telenovelas, e depois de Vila Faia e de Chuva na Areia, Nuno Melo saltou de canal em canal e chegou a trabalhar no Brasil, onde fez, por exemplo, Senhora do Destino, uma produção de grande audiência que também passou em Portugal, na SIC. Vingança, Flor do Mar e Morangos com Açúcar foram outros dos títulos em cujo elenco participou.

Do currículo de Nuno Melo, e na ficção televisiva extra-novelas, há que mencionar Alentejo Sem Lei, de 1988, série realizada por João Canijo em que o actor contracena com Herman José, Rita Blanco, Paulo Branco e Fernando Luís. Mais recentemente, em 2008, foi o Albano de Equador, uma produção histórica da TVI baseada no romance homónimo de Miguel Sousa Tavares.

No cinema, Melo desempenhou, sobretudo, papéis secundários. Excepção feita a títulos como O Barão, de Edgar Pêra, que em 2011 lhe valeu o prémio de melhor actor da Sociedade Portuguesa de Autores; e Tarde Demais, de José Nascimento, filme em que Canijo (argumento) conta a história do naufrágio de um pequeno barco de pesca no Tejo que vai testar a capacidade de resistência de quatro homens que tentam, na água gelada e perante a força das correntes, sobreviver. Contracenando com Vítor Norte, Adriano Luz e Carlos Santos, Nuno Melo é Joaquim, o mais forte dos quatro pescadores.

Nas redes sociais surgem agora algumas mensagens de homenagem ao actor. O actor Nuno Lopes lembra, no Facebook, o trabalho de Nuno Melo em Tarde Demais: “Ainda me lembro de ter frio enquanto, sentado no cinema, via o Nuno Melo a tremer, enfiado no Rio Tejo com água quase até ao pescoço”. “Um dos muitos personagens peculiares, estranhos, carismáticos e intrigantes que interpretou.”

Ainda este ano, chegará aos cinemas Adeus Carne, de Edgar Pêra que conta com Nuno Melo no elenco. As rodagens terminaram no final de Fevereiro e o filme está neste momento em fase de pós-produção. O actor entra ainda em O Grande Circo Místico, do realizador brasileiro Carlos Diegues. O filme, cuja rodagem foi feita em Portugal, tem estreia marcada para o próximo ano.

“A sua sensibilidade artística, aliada ao talento e carisma que lhe são reconhecidos, fez dele um actor multifacetado, de vários palcos, capaz de se adaptar aos mais diversos registos e papéis e, através deles, contribuir para um enriquecimento e valorização das artes dramáticas portuguesas nos seus vários meios”, reagiu em comunicado o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto xavier.

“Seja em televisão, cinema, teatro ou em registo de comédia, romance ou drama, Nuno Melo conseguia despertar no seu público os mais diversos sentimentos ou emoções e é essa proximidade e capacidade de adaptação aos mais variados papéis que fazem dele um dos mais talentosos atores da sua geração”, acrescentou ainda. com Kathleen Gomes