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Partido de Erdogan tenta formar coligação, mas há quem peça novas eleições

A lira caiu, com os mercados receosos da instabilidade política, já que nenhuma força política mostra vontade de se juntar ao AKP.

Apoiantes do HDP com as cores do Curdistão comemoram a entrada do partido no Parlamento turco
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Apoiantes do HDP com as cores do Curdistão comemoram a entrada do partido no Parlamento turco BULENT KILIC/AFP

Nenhum partido pode governar sozinho, sublinhou o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, antes de o seu Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) se reunir nesta segunda-feira para analisar o que fazer com os resultados das eleições de domingo, que puseram fim a 13 anos de maioria absoluta. Com 41%, o AKP tem mesmo de fazer uma coligação para se manter no poder, mas isso será muito difícil – e há quem esteja já a reclamar novas eleições.

O AKP obteve 41% dos votos e 258 deputados, falhando assim o mínimo de 276 assentos necessários para uma maioria. A surpresa foi o recém-criado Partido Democrático do Povo (HDP), uma formação secularista pró-curda, de esquerda, que apostou tudo nestas eleições. O HDP assegurou a fasquia mínima de 10% dos votos exigida pela Constituição para que um partido entre no Parlamento turco. As últimas contagens colocam o HDP nos 12%, com cerca de 80 deputados.

A pálida vitória do partido de Erdogan provocou uma queda da cotação da nova lira turca e das acções na bolsa de valores, indicando a apreensão dos mercados financeiros, sempre receosos do que consideram ser uma situação política instável.

Na manhã desta segunda-feira, a bolsa de Istambul deu um trambolhão de 8% e a lira viu a sua cotação face ao dólar cair para mínimos históricos. Em resposta, o banco central anunciou um corte nas taxas de juro dos depósitos estrangeiros, para tentar erguer a cotação da moeda turca.

"A opinião da nossa nação está acima de tudo", afirmou o Presidente Erdogan na sua primeira reacção ao resultado eleitoral, citado pelo Guardian, num tom bastante conciliatório, diferente do que usou durante a campanha. "Estes resultados, que não dão a possibilidade a nenhum partido de formar governo sozinho, têm de ser avaliados de uma forma realista e saudável por cada uma das forças políticas", afirmou.

Objectivamente, este resultado eleitoral trava os planos de Erdogan para alterar a Constituição para obter poderes executivos enquanto Presidente da República. Por isso, Segahattin Demirtas, um dos dois líderes do HDP, afirmou que "esta é uma vitória dos que querem uma Constituição pluralista e uma solução pacífica para a questão curda", relativa a 20% da população da Turquia. "O debate sobre o sistema presidencial acabou hoje", sentenciou.

O que não é claro é quem poderá ser o parceiro de coligação do AKP. O Partido Movimento Nacionalista (MHP), de extrema-direita, que conquistou 31 deputados, seria o candidato mais provável – mas o líder, Devlet Bahceli, disse à agência noticiosa Anadolu que não considerava essa hipótese. Preferia ser "um dos principais partidos da oposição", afirmou.

O HDP também pôs de parte a possibilidade de formar governo com o AKP. "Mantemos a nossa palavra. Não vamos formar coligação. Estaremos no Parlamento a fazer uma oposição forte", afirmou Demirtas.

É por isto que os jornais pró-AKP apelavam à realização de novas eleições – logo deste domingo à noite, quando foram conhecidos os resultados destas, diz o Guardian. Durante os próximos 45 dias, é possível convocar eleições a qualquer momento.