Há milhares de peças arqueológicas esquecidas num museu fechado há anos

Museu Hipólito Cabaço, em Alenquer, está fechado há cinco anos por problemas de infiltrações. Família do arqueólogo contesta “esquecimento” de espólio com mais de 13 mil peças que foi doado ao município.

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O modo como o Município de Alenquer tem tratado o espólio deixado por Hipólito Cabaço, um dos mais reputados arqueólogos portugueses do século passado, está a gerar muitas críticas.

Familiares do investigador (falecido em 1970) lamentam a forma como a autarquia fechou, em Junho de 2010, o Museu Municipal com o seu nome, onde estava exposta parte da colecção de mais de 13 mil peças arqueológicas que recolheu e organizou ao longo de décadas de trabalho. A autarquia, por seu lado, alega que o antigo edifício do Museu revelava inúmeros problemas de infiltrações e diz que está a recuperar exactamente uma antiga casa de Hipólito Cabaço para instalar um novo “Museu de Alenquer”, onde o espólio do arqueólogo terá o destaque principal.

Certo é que familiares de Hipólito Cabaço não se conformam com a forma como o assunto tem sido tratado. É o caso de António Hipólito Cabaço, neto do investigador, que não aceita que a necessidade de fazer algumas obras no telhado seja razão para fechar e para manter o museu com o nome do seu avô encerrado já há cinco anos. “Não é por infiltrações que se fecha seja que museu for. E não se fecha um museu porque é um elemento de estudo importante para jovens e adultos. Está ali um património arqueológico único que o meu avô foi descobrindo ao longo dos anos. E sentimos, de facto, uma grande tristeza, porque não passa pela cabeça de ninguém que se feche um museu porque há algumas infiltrações e o telhado precisa de obras”, lamenta António Hipólito Cabaço, em declarações ao PÚBLICO. 

O neto do arqueólogo alenquerense garante que todos os anos aborda o problema com os sucessivos presidentes da Câmara de Alenquer e que todos lhe têm prometido reabrir o museu no ano seguinte, sem concretizarem, depois, esse compromisso. “O meu desgosto é que não passa pela cabeça de ninguém fechar um museu durante tanto tempo, não resolverem e não concretizarem aquilo que dizem”, sustenta.  

Câmara planeia abertura de novo espaço em Dezembro
Já Rui Costa, vice-presidente da Câmara de Alenquer e responsável pelo pelouro da cultura, explicou, ao PÚBLICO, que o antigo Museu Hipólito Cabaço foi encerrado em 2010 “devido às más condições do edifício, que em nada valorizavam a colecção aí presente”. O autarca do PS lembra que o actual executivo camarário está em funções apenas desde Outubro de 2013 e que, entretanto, “decidiu, no âmbito da promoção cultural do concelho, apostar em alguns projetos de dimensão significativa, nomeadamente o realojamento da coleção Hipólito Cabaço”.

De acordo com o autarca, ao longo de vários meses, decorreram trabalhos de “esvaziamento” da chamada Casa da Torre (antiga residência de Hipólito Cabaço) com o objectivo de criar aí o “novo Museu Municipal de Alenquer”. Rui Costa acrescenta que a coleção Hipólito Cabaço “será então realojada neste equipamento museológico, sendo, inclusive, a principal atracção do mesmo, devolvendo-lhe a dignidade que todos certamente reconhecerão”. O vice-presidente da autarquia alenquerense revela, também, que o futuro museu terá 10 salas com exposição: sete de exposição permanente e três de exposição temporária. “A Colecção Hipólito Cabaço ocupará as seis salas principais da Casa da Torre, num circuito que, com o apoio das peças, contará a história do concelho. É a coleção principal do museu, complementada com uma sala para o Museu do Presépio e duas para exposições temporárias, a juntar ainda a uma sala polivalente/ multiuso no primeiro andar”, salienta, frisando que decorrem obras de adaptação e que a Câmara projecta inaugurar este novo Museu Municipal em Dezembro próximo.

Espólio tem sido “maltratado”
“Ver para crer, como São Tomé”, é o comentário de António Hipólito Cabaço a esta informação do executivo camarário, lembrando outras promessas que já ouviu em anos anteriores. “É evidente que o nome e o trabalho de investigação do meu avô têm sido maltratados em Alenquer. É uma obra que, em qualquer parte do Mundo seria de louvar. Na minha terra está fechada”, lamenta o neto do investigador, que considera que a atitude da Câmara, se não tinha mais meios, deveria ter sido distribuir a verba que atribuiu ao Museu João Mário pelos dois museus e tratar de garantir que o Museu Municipal Hipólito Cabaço também permanecia aberto. 

“Alenquer, nesta altura, tem um museu que está aberto (João Mário) e que recebe a respectiva verba. Verba essa que, se fosse democraticamente distribuída, o Museu Hipólito Cabaço tinha estado sempre aberto. Existem dois museus, existe essa verba, tinha que ser dividida pelos dois”, defende António Hipólito Cabaço, frisando que o museu onde estão guardadas mais de 13 mil peças recolhidas pelo seu avô até é municipal. “Todo o resto do País abre museus e abre bibliotecas e, em Alenquer, um homem que fez esta obra tremenda de investigação tem um espaço destes fechados. Isso incomoda-me, porque acho que é injusto”, conclui.

Uma vida dedicada à arqueologia
Hipólito Cabaço foi um dos percursores da arqueologia em Portugal e o seu trabalho de investigação foi reconhecido pela Associação de Arqueólogos Portugueses como o mais importante no estudo da pré-história na primeira metade do século XX. O investigador alenquerense (nasceu em 1885 em Paiol, na freguesia de Aldeia Galega) mostrou-se “incansável” na descoberta e no estudo da pré-história em toda uma região que vai de Alenquer até Peniche, passando por todo o Ribatejo e estendendo-se até à zona de Elvas.

Filho de lavradores abastados, viajou, em 1901, para a região francesa de Bordéus para se especializar nas técnicas de tratamento e fabrico de vinhos. Mas foi em terras de França que ganhou força a sua paixão pela arqueologia. Dois anos depois, quando regressou a Alenquer, começou logo a fazer as primeiras escavações arqueológicas na quinta da família e não mais parou.   

Ao longo de perto de quatro décadas descobriu, localizou e identificou 88 estações arqueológicas do paleolítico, 16 do mesolítico e 33 do eneolítico. Estudou, ainda, 14 locais com vestígios de ocupação humana na Idade do Bronze e cinco do período romano, para além da investigação que fez no castelo medieval de Alenquer. Produziu, igualmente, estudos paleontológicos e antropológicos sobre os concelhos de Alenquer e de Peniche, descobriu algumas espécies de dinossauro e recolheu cerca de 15 mil objectos e artefactos diversos, que restaurou e organizou. Chegou mesmo a ter a maior colecção de pontas de seta pré-históricas da Europa.

Todo este espólio foi adquirido, em 1944, pelo Município de Alenquer. Esteve durante três décadas encaixotado e foi já depois do 25 de Abril de 1974 que a então comissão administrativa da Câmara reuniu condições para abrir o Museu Municipal Hipólito Cabaço numa antiga escola da Calçada do Espírito Santo, próximo dos Paços do Concelho. Mas das 15 mil peças só já restavam pouco mais de 13 mil. Muitas desapareceram, outras tinham sido cedidas a entidades de Lisboa.

As descobertas arqueológicas de Hipólito Cabaço foram por diversas vezes realçadas em certames locais, mas já no início deste século agravaram-se os problemas estruturais do edifício e a Câmara de Alenquer decidiu fechar o antigo Museu em Junho de 2010.