O Apartamento é uma casa aberta para partilhar Lisboa

Podemos entrar e dar com uma loja temporária de uma grande editora internacional, uma exposição de fotografia ou um churrasco. O Apartamento convida revistas internacionais a instalar-se nele e a explorar Lisboa. E convida-nos a todos para partilhar essas descobertas.

Fotogaleria
Miguel Manso
Fotogaleria
Armando Ribeiro, Inês Matos Andrade e Paula Cosme Pinto Miguel Manso
Fotogaleria
Miguel Manso
Fotogaleria
Miguel Manso
Fotogaleria
Miguel Manso

O prédio é o primeiro do lado esquerdo de quem começa a descer a Av. Duque de Loulé, o nº 1. Tocamos na campainha do 5º andar dt. e ouvimos o som da porta a abrir. Subimos no elevador de grade de metal e somos recebidos por um Armando Ribeiro sorridente. O Apartamento é claro e luminoso. E está aberto a quem o quiser visitar.

O projecto já vem de trás, mas só há poucos meses é que Armando, que entretanto se juntou a Paula Cosme Pinto e Inês Matos Andrade, ambas vindas do jornalismo, encontrou o espaço ideal para uma ideia em que andava a pensar há já algum tempo. “Tenho uma paixão por revistas há muitos anos, sempre as comprei muito, umas 40, 50, 60 por mês”, conta. “E a minha ideia era ter um apartamento e convidar as revistas de que gosto a vir cá, mostrar-lhes Lisboa, pô-las em contacto com as pessoas de cá.”

Agora, dizem os três parecendo ainda nem acreditar bem, “está a acontecer”. A partir do dia 23 e até 28 de Junho, O Apartamento recebe, vindos de Barcelona, Mari Luz Vidal, Andrew Trotter e Nobu Kawagoe, da revista Openhouse, que se ocupa precisamente de casas abertas. Os membros da revista são convidados a instalar-se no espaço, que tem seis assoalhadas, com quarto de dormir, cozinha, sala, e tudo o que é necessário numa casa.

E, ao mesmo tempo, são desafiados a trazer a sua própria programação – que neste caso será uma exposição fotográfica (Mariona y yo, um trabalho de Mari Luz Vidal, directora criativa da Openhouse, sobre a perda da relação com a sua maior amiga), a marca espanhola de produtos de beleza naturais Alex Carro e um jantar preparado pelo chef japonês Nobu Kawagoe, que acontece no dia 24 marcando a inauguração oficial do Apartamento.

A única experiência anterior do projecto foi com a revista Cereal, que esteve em Lisboa em 2014 mas num espaço ainda provisório, onde organizou uma loja pop-up. Um dos resultados dessa visita foi um longo artigo sobre Lisboa na Cereal e um guia da cidade que deverá sair em Novembro. E esse é também um dos objectivos desta troca de experiências – dar a conhecer Lisboa.

“Eles vêm, nós podemos levá-los a um arraial, a jantar fora, conhecem uma pessoa ligada ao turismo, um artista, e se calhar nasce um projecto”, diz Paula. “É o que acontece quando pessoas com este tipo de interesses se cruzam, é uma coisa natural, nós só providenciamos um espaço onde isso pode acontecer.”

Sobre pessoas nas cidades
No dia em que visitamos O Apartamento, ainda está a decorrer a loja temporária da editora berlinense Gestalten. Os (poucos) livros que ainda não foram vendidos estão espalhados por uma mesa e pelas estantes da sala. Desde que a loja “abriu”, a 26 de Maio, todos os dias têm aparecido pessoas para ver e comprar os livros, conta Armando. Alguns porque já conheciam o projecto desde a vinda da Cereal, outros vieram pela primeira vez porque ouviram falar.

A agenda do Apartamento está completamente cheia para os próximos meses. “Até ao final do ano temos o programa já preparado”, conta Armando. Para já, depois da Openhouse, vai haver um “churrasco à americana” com o chef Nuno Bergonse, do Duplex, marcado para 25 de Julho. “As pessoas inscrevem-se, pagam e vêm, como se fosse a casa de um amigo”. Na lista de iniciativas, ainda sem data confirmada, está ainda um “workshop de snacks macrobióticos para levar para a praia” com Marta Varatojo.

Julho será também mês de receber outro projecto, os Freunde von Freunden, de Berlim, que farão em Lisboa a apresentação oficial de dois livros sobre casas de criativos no mundo, organizarão um jantar, e trarão com eles vários dos objectos que vendem habitualmente, “de óculos de sol a skates, passando por plantas com vasos específicos, fotografias de artistas, t-shirts, malas.” E em Setembro, as portas do Apartamento abrem-se para os livros da editora Rizzoli, de Nova Iorque.

“Não queremos que este espaço seja apenas de uma coisa, um projecto de design ou de arte”, explicam os três. “Queremos que seja de quatro, cinco, seis coisas.” O que os surpreendeu foi a reacção das revistas e editoras que contactaram. “Todos têm adorado a ideia e aceitam imediatamente”. Para o projecto funcionar, contam já com vários parceiros oficiais “que limitam muito os custos”, desde a marca de mobiliário Magis, que ajudou a decorar o apartamento, até à TAP, que apoia as viagens das revistas internacionais. E para a viabilidade financeira esperam também vir a alugar o espaço para marcas que queiram fazer lançamentos, sessões fotográficas ou simplesmente a quem queira organizar um jantar.

Conversamos com Armando, Paula e Inês enquanto os três vão preparando o almoço, porque O Apartamento é também o espaço onde trabalham naquela que é a actividade profissional de todos, a agência de comunicação e consultoria Plataform-a. Na cozinha, decorada com um mapa do mundo, cada um ocupa-se de uma tarefa diferente e em pouco tempo a mesa está posta e a comida está servida na sala de refeições ao lado. É aí que continuamos a falar sobre os projectos que estão para vir.

“O objectivo é a casa vir a servir também para residências artísticas”, diz Inês. Às ideias iniciais de Armando juntaram-se entretanto as de Paula e Inês. E como todos têm personalidades e interesses diferentes, a programação vai reflectir isso mesmo. “Eu e o Armando temos uma onda mais holística”, reconhece Paula. “E eu gostava muito de trazer cá o [monge budista, escritor e fotógrafo] Matthieu Ricard. É uma daquelas pessoas que à partida parece impossível.”

“Mas”, interrompe-a Armando, “tudo isto à partida parecia impossível.” Porque é que está a resultar? Porque há uma espécie de linguagem comum que une muitos destes projectos. Apesar de terem características diferentes, revistas como a Openhouse, a Cereal ou a Kinfolk, e um projecto como O Apartamento falam a mesma língua. “O que une estas revistas é serem sobre cidades, sim, mas sobretudo sobre pessoas, pessoas nas cidades”, explica Armando. “E o nosso também é um projecto de pessoas”.

E há mercado para este tipo de revistas? “Sim, porque são visões completamente diferentes, não estão vendidas à publicidade, não dependem disso. Têm uma estrutura mínima, geralmente de duas ou três pessoas, e trabalham muito com parcerias. Muitas vezes fazem trabalhos de fotografia ou styling que ajudam a pagar estes projectos, que são pessoais”. O facto de serem em inglês garante-lhes uma audiência global. “A Kinfolk já vai numa tiragem de 100 mil, se contarmos que têm uma edição em russo, uma em coreano e uma em chinês.” Há leitores em Portugal, garante Armando, “e a maioria são pessoas de vinte e poucos anos”.

Ao mesmo tempo que têm identidades muito próprias – “nos últimos dois, três anos, saíram muitas ligadas à natureza, uma só de plantas, outra sobre pessoas que se juntam à volta de uma mesa” – estas revistas têm em comum essa visão do mundo que parte da ideia de que “há cada vez mais pessoas que estão a mudar de vida e a fazer aquilo que querem”. Armando lembra, por exemplo, que essa é “a aposta da Monocle desde o primeiro dia: mostrar pessoas que conseguiram mudar de vida”.

Estes projectos, apesar de pequenos, “partem de uma vontade de partilhar uma visão do mundo, um ideal, coisas bonitas, especiais”. No fundo, conclui Armando, “eles fazem aquilo que querem, que é o maior luxo, e nós aqui também podemos fazer o que quisermos”.

As portas estão abertas. É só tocar à campainha, apanhar o elevador e entrar. O Apartamento (também) é nosso.