Crónica Urbana

Parar e olhar

O desafio partiu do Fórum Cidadania Lx e o colectivo de desenhadores Urban Sketchers aceitaram-no imediatamente: desenhar (alguma da) Lisboa pela qual passamos todos os dias e que se foi tornando quase invisível aos nossos olhos. E, por isso, hoje o João Catarino partilha esta página com vários outros desenhadores, entre os muitos que participaram na iniciativa e cujos trabalhos podem ser vistos até dia 30 no Museu de Lisboa – Palácio Pimenta.

“O que resta das grandes avenidas de Novecentos projectadas para colocarem Lisboa no mapa das capitais da Europa, ou dos bairros e vilas operárias, dos palacetes de uma burguesia que então se afirmava, das inovadoras instalações científicas, das lojas de referência da sociedade, das casas de espectáculos de uma Lisboa boémia?”, pergunta o Fórum Cidadania Lx, movimento que reúne cidadãos em defesa do património lisboeta. .

O João Catarino – há muito, com os seus desenhos, co-autor destas crónicas sobre Lisboa (intercalando com a Mónica Cid) — disse-me que o desafio os “obrigou a parar e a olhar” para estes edifícios. Ser desenhador é saber olhar. É prestar atenção. Ver os detalhes e ver o conjunto. Um fotógrafo pode procurar o melhor ângulo e tirar uma foto. Um desenhador precisa de mais tempo. Enquanto a cidade continua a acelerar à sua volta – carros, motos, pessoas, num movimento constante – ele pára e olha.

Neste caso, os Urban Sketchers olharam para os edifícios da lista elaborada pelo Fórum Cidadania Lx (necessariamente muito reduzida em comparação com o património daquele período que existe na cidade e que, em parte, se encontra ameaçado) e desenharam-nos, devolvendo-lhes, por instantes, a importância que muitos deles um dia tiveram na cidade.

“É engraçado pensar que um dia muitos deles foram edifícios grandiosos”, disse o João Catarino. Quando surgiram tinham a escala da cidade ou, em alguns casos, seriam, talvez, os maiores, os mais modernos, os mais ousados. Depois foram “encolhendo”, à medida que à volta deles cresciam prédios maiores, mais modernos, mais ousados. Muitos dos antigos desapareceram, outros resistem, anacrónicos, no meio das grandes avenidas.

PÚBLICO - Palácio Leitão, Rua Marquês da Fronteira
Palácio Leitão, Rua Marquês da Fronteira Filipe Almeida
PÚBLICO - Escola Industrial Marquês de Pombal
Escola Industrial Marquês de Pombal Teresa Ruivo
PÚBLICO - Av. Almirante Reis, 2
Av. Almirante Reis, 2 José Rosa
PÚBLICO - Palacete Valmor, A. da República
Palacete Valmor, A. da República João Catarino
PÚBLICO - Pavilhão dos Desportos
Pavilhão dos Desportos Miguel Resende
PÚBLICO - Armazéns Abel Pereira da Fonseca
Armazéns Abel Pereira da Fonseca Rodrigo Briote
PÚBLICO - Av. Liberdade, 226
Av. Liberdade, 226 Eduardo Salavisa
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Subitamente, entre dois prédios altos, surge o céu. Aí, o nosso olhar desce e encontra um desses palacetes resistentes, alguns ainda em bom estado, outros nem tanto. E outros decididamente condenados ou com as frágeis fachadas seguras por andaimes para (muitas vezes) os fazer renascer como uma caricatura deles próprios.

Na exposição vão estar também alguns dos desenhos de alçados dos edifícios escolhidos. São trabalhos do início do século, de impressionante detalhe, cada pormenor do edifício desenhado com rigor e elegância – e muitas vezes acompanhados por legendas escritas em letra que é, ela própria, uma obra de arte. E faz sentido que voltem também a ter um breve momento de glória aqui.

Houve um tempo em que alguém olhou e pensou nestes edifícios, dedicando-lhes o melhor da sua atenção e arte. Um século depois, outros homens e mulheres pararam e olharam novamente para eles, desenhando as mesmas curvas e rectas e ornamentos. É um olhar diferente, como é suposto que seja. A nós, só nos é pedido que visitemos a exposição e que, por momentos, sejamos também capazes de parar e olhar. 

A exposição Lisboa Entre Séculos, a Arquitectura Ameaçada dos Séculos XIX e XX vista pelo Olhar dos Urban Sketchers pode ser vista no Museu da Cidade - Palácio Pimenta até 30 de Junho