Isabel dos Santos e Estado angolano asseguram 65% da Efacec

Operação foi feita em parceria com a Ende, empresa estatal de distribuição eléctrica. Áreas de manutenção e de energias renováveis ficaram fora do negócio.

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Cerca de dez anos depois de ter se ter estreado nos negócios em Portugal com a entrada na Galp Energia, associada à Sonangol, Isabel dos Santos voltou agora a juntar-se a uma empresa estatal angolana para entrar no capital de uma empresa portuguesa.

Esta quinta-feira, a empresária assegurou 65% da Efacec Power Solutions, a maior empresa portuguesa de electrónica e electromecânica, em parceria com a Empresa Nacional de Distribuição de Electricidade (ENDE), detida a 100% pelo Estado angolano e presidida por Francisco Talino. O negócio, avaliado em 200 milhões de euros, envolveu a José de Mello SGPS e a Têxtil Manuel Gonçalves, que controlavam a empresa em partes iguais desde 2006. Agora, os dois grupos ficam com 17,5% cada um.
 
Assim, esta nova aquisição da empresária traz três novidades face aos últimos negócios: entra num novo mercado (está nos combustíveis via Galp, na banca através do BPI e do BIC, e nas telecomunicações por via da NOS, associada à Sonae, além de investimentos no imobiliário); assume desde logo a maioria do capital de uma empresa portuguesa para controlar a gestão; e volta a aliar-se a uma empresa estatal angolana.
 
A operação foi feita através de uma empresa criada para o efeito, denominada de Winterfell (curiosamente, é o nome do castelo da casa de Stark, os guardiões do Norte, na série Guerra dos Tronos), controlada maioritariamente por Isabel dos Santos.Aqui, há ainda uma outra diferença, já que a Sonangol tem uma posição superior à de Isabel dos Santos na Galp (ligados a Américo Amorim através da Esperaza), enquanto no caso da Efacec quem lidera é a empresária angolana. Um sinal que demonstra o percurso feito por Isabel dos Santos no mundo dos negócios na última década.
 
Em comunicado enviado às redacções, os grupos José de Mello e Têxtil Manuel Gonçalves afirmam que permanecem detentores da totalidade da Efacec Capital (agora dona de 35% da Efacec Power Solutions), e que esta empresa vai ficar com os negócios de manutenção e de energias renováveis, que ficaram fora do negócio com Isabel dos Santos.
 
Já a Winterfell, também através de um comunicado, destaca que a operação “visa reforçar financeiramente a empresa portuguesa, aumentar a sua capacidade de investimento e actuação no mercado e relançar a sua estratégia de internacionalização”. Destacando que este é um “investimento estratégico e de longo prazo”, a sociedade de Isabel dos Santos diz que “as competências da Efacec Power Solutions assumem uma particular relevância para os novos accionistas dado que esta parceria contribuirá para o desenvolvimento da exportação de conhecimento e para a partilha de tecnologia”, e que a economia angolana em paricular “sairá beneficiada dado o know how da Efacec para áreas-chave do seu crescimento económico”.
 
A empresa portuguesa já prestou vários serviços a grupos angolanos, e a mudança accionista surge numa altura em que o sector eléctrico de Angola precisa de se desenvolver, desde a produção à distribuição. Além de muitas pessoas ainda não terem acesso a electricidade, o abastecimento é instável. Por outro lado, a necessidade de criar novas indústrias locais cria desafios do ponto de vista da distribuição, algo em que a tecnologia e os trabalhadores qualificados da Efacec podem revelar-se úteis.
 
Actualmente, a Efacec Power Solutions opera em cerca de oito dezenas de países, na área da engenharia e da energia (transformadores, automação e mobilidade eléctrica).
 
De acordo com o comunicado, a empresa factura cerca de 500 milhões de euros por ano e emprega perto de 2500 trabalhadores. Segundo os dados disponibilizados pelo grupo, desde 2009 que os mercados externos têm sido a principal fonte de receitas. No entanto, as contas da Efacec foram afectadas por factores como um mau resultado nas operações do Brasil, através do consórcio MABE.
 
O negócio neste mercado obrigou o grupo a assumir perdas e a elevar o passivo financeiro líquido (em 2012 chegou aos 444,3 milhões, mais cem milhões face ao ano anterior). As contas de 2011 tiveram de ser reexpressas, e a Efacec passou de um lucro de seis milhões de euros a perdas de 41,1 milhões nesse mesmo ano. Actualmente, a Efacec é liderada por João Bento, e, pelo menos até estarem resolvidas todas as autorizações regulamentares, não haverá alterações ao nível da gestão.

PÚBLICO -
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