O enigma FKA Twigs no arranque do Nos Primavera Sound

O que esperar do concerto da inglesa FKA Twigs? É essa a grande incógnita num primeiro dia de festival onde evoluirão também Patti Smith, Interpol, Mac DeMarco e Caribou.

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Pode sempre haver surpresas, como é evidente, mas quando se parte para um festival é também possível projectar cenários, a partir dos dados da realidade, sem grandes riscos de falhar.

Olhe-se para o cartaz do primeiro dia do festival que decorre a partir desta quinta-feira e até sábado no Parque da Cidade do Porto. Não custa imaginar que os Interpol irão ter admiradores fervorosos nas primeiras filas, que Patti Smith e Mac DeMarco, actuando à mesma hora, irão dividir as hostes, com uma assistência mais madura para ela e outra mais novata para ele, e que Juan Maclean e Caribou proporcionarão os momentos mais dançantes da noite.

E a inglesa FKA Twigs? É a grande incógnita, e ao mesmo tempo é sobre ela que recairão as maiores expectativas da primeira noite do evento, quando subir ao palco pelas 21h10.

Em primeiro lugar, porque é a única que nunca actuou em Portugal. Mas, claro, não é apenas isso. O ano passado lançou o álbum de estreia, LP1, transformando-se de forma fulgurante num dos acontecimentos do ano, com o que isso acarreta de sedução perante novas audiências, mas também de resistência perante outras. Por outro lado, a sua música tem qualquer coisa de alienígena – uma sonoridade de rumores, indícios e texturas, sublinhadas por percussões sintéticas e voz angelical –, estando longe de corresponder ao modelo daquilo que se diz ser música que funciona num festival ao ar livre para grandes massas.

É claro que esse lugar-comum todos os anos é contrariado na maior parte dos festivais, inclusive no Primavera do Porto  basta pensar nos triunfos de James Blake, The xx, Beach House ou Kendrick Lamar nas três primeiras edições , mas persiste.

Vimos FKA Twigs ao vivo, em Fevereiro, em Londres, e constatámos que o seu espectáculo contém marcas de singularidade no contexto pop onde se insere e outras de familiaridade. Mais do que um concerto no sentido clássico, é uma experiência imersiva, um misto de performance e música.

Nos festivais, a inglesa tem optado por uma formação bem mais reduzida (acompanhada por três músicos) do que aquela que lhe vimos (seis músicos e oito bailarinos), mas, ao nível do imaginário projectado, não deverá haver muitas diferenças.  

É como se o que arquitecta nos seus vídeos – as formas fluídas pós-humanas, a sensualidade disforme, o erotismo negro e a linha por vezes ténue que separa o prazer da dor – fosse transportado para o palco através de gestos teatrais, voz sensual, baixos subsónicos e batidas lentas e claustrofóbicas. 

Para quem vai à procura de um concerto convencional, as hipóteses de desilusão são reais, mas quem vai disponível para ser envolvido por percussões industriais, por uma voz que suspende os sentidos, por cenários voluptuosos e pelo carácter obsessivo e estilizado da sua música, pode ser conquistado.

Do resto do guião para o primeiro dia não se esperam tantas incertezas. O festival começa, pelas 17h, com o português Bruno Pernadas e o seu colectivo de músicos, responsáveis por um dos mais celebrados álbuns do ano transacto, How Can We Be Joyful In A World Full Of Knowledge?, numa brilhante visão caleidoscópica do mundo pop actual. Seguir-se-á mais pop, numa linha delicada, com os ingleses Cinemara (17h55) e, num rumo mais ardente, com o californiano Mikal Cronin (18h50).

Mas a maior parte das atenções estão viradas para mais tarde, pelas 20h, quando se tiver que optar entre mergulhar na abordagem singular do cancioneiro indie do canadiano Mac DeMarco, ou na arte de dizer palavras de pendor existencial da histórica Patti Smith, apenas acompanhada pela sua guitarra, na primeira de duas apresentações durante o festival, já que na sexta-feira tocará na íntegra o seu primeiro álbum, Horses.

Dos americanos Interpol (22h20), espera-se a habitual dose de canções rock com tanto de vigor como de romance e solenidade. Para final de festa, duas excelentes formações, Juan Maclean (00h) e Caribou (01h), que prometem música de dança pouco ortodoxa, com qualquer coisa de psicadelismo e hipnose. Em particular os Caribou do canadiano Dan Snaith costumam ser uma máquina de ritmo estonteante em palco.

Da programação de sexta e sábado, distribuída por quatro palcos, destaques para nomes como Einstürzende Naubauten, Belle & Sebastian, Antony, Jungle, Run The Jewels, Sun Kil Moon, Thurston Moore, Ride, Ariel Pink ou os Underworld.

Depois da edição consolidada de 2014, com 75 mil espectadores durante três dias, que terão deixado na economia local um valor a rondar os 18 milhões de euros, a expectativa para este ano é uma audiência média a rondar as 27 mil pessoas por dia, com quase metade do público proveniente de Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália ou Estados Unidos.

Nas três primeiras edições, a concepção do espaço, o aproveitamento do relevo do local, uma iluminação cuidada, a presença não massificada da publicidade e uma área de alimentação que beneficiava de algumas características da gastronomia local constituíram algumas das mais-valias do acontecimento. Esperemos que aí não existam surpresas.