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Design: o plágio é uma ofensa capital?

Ninguém gosta de ser plagiado, mas também não acredito que alguém goste de plagiar

Destilado diretamente do pecado mortal da inveja, o plágio é a mais grave transgressão dentro da academia. Cometer plágio no meio artístico é algo semelhante a um médico que mata o paciente. Dificilmente voltará a exercer… Geralmente, quando se rouba um objeto para gozo próprio, é porque se gosta dele, existe identificação com o que ele comunica e vontade de o tornar “porta-voz” de si próprio. Mas será possível apropriarmo-nos realmente de uma ideia?

Há pouco tempo, o Porto sofreu, literalmente, um roubo de identidade. Identidade gráfica neste caso. A marca “Porto.”, desenvolvida pelo conterrâneo White Studio em Setembro de 2014, foi descaradamente copiada pelo gabinete de design alemão 3BKE para a imagem de promoção turística do bairro Friedrichshain-Kreuzberg, em Berlim, e apresentada pelo mesmo em Março de 2015.

Portugal, não habituado a estar do lado do lesado neste tipo de arrufo, reagiu bombasticamente, pelo menos no mundo online. Insultos e impropérios assolaram a página do projeto, de nome “Fair Kietz.”, assim como toda uma gama de comentários irónicos e satirizantes àcerca da capacidade criativa do 3BKE . A marca “Porto.”, alvo de destaque internacional na comunidade criativa, está agora a confrontar-se com o “outro lado da fama”. Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto foi o primeiro a tomar a cópia como um elogio, seguido de Eduardo Aires responsável pelo projeto.

O mistério permanece. Não saberá a 3BKE que cometeu uma ofensa capital? Terá sido um jovem estagiário (certamente remunerado) em desespero criativo, ou um membro sénior com um sentido de humor arrojado? Pensarão eles que não há internet em Portugal? A verdade é que a própria marca “Porto.” sofreu a sua quota parte de controvérsia pela semelhança que apresentava com a imagem criada pela designer russa Anna Kulacheck para a identidade da sessão de Inverno da Prague Design School, em 2012.

Ninguém gosta de ser plagiado, mas também não acredito que alguém goste de plagiar. A área do design tem sofrido, mais do que lucrado, com as novas tecnologias. As nossas ferramentas de trabalho colocam cada vez mais a parte técnica num patamar acessível ao leigo, o que, por sua vez, vem acrescentar mais ruído à entropia criativa que se acumulda naturalmente com o passar da história. Assim, é difícil criar algo totalmente novo. É suposto haver sempre um certo nível de “plágio”. Sem ele não existiria uma “moda”.

Na maioria das vezes, o plágio sucede por falta de pesquisa, pela semelhança de tema ou pelo seguimento de determinada tendência ou movimento estético-visual. Cabe a cada um o bom senso de temperar a sua “inspiração” com algo realmente novo e relevante.

Quando a empresa 3BKE se esqueceu de “temperar” a imagem do “Porto. “, ela não se apropriou apenas do conceito; o que ela está no fundo a prometer é ser o tipo de equipa capaz de pensar daquela forma. É uma farsa. Assim, espera-se dela aquela personalidade e uma consistência que não é possível nem plausível. Da mesma forma, será também correto atribuir a capacidade criativa de uma equipa de designers ao patrão que apenas aprova o projeto e dá o nome ao gabinete como sucede tantas vezes? Ou será esta compra de ideias uma forma de plágio consentido?