Carlos Maria Trindade: "Esta é uma viagem pelos timbres da minha vida"

Aprendeu piano mas a sua real paixão são os órgãos de igreja. Músico, compositor, teclista dos Madredeus, Carlos Maria Trindade apresenta esta quarta-feira em Lisboa e sábado no Porto o seu novo disco a solo, Oriente.

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Carlos Maria Trindade Daniel Rocha

Carlos Maria Trindade sempre olhou mais para a carreira de músico e produtor, ou seja, mais para o seu trabalho em grupos ou para outros, do que para a sua carreira individual. Mesmo assim, tem já quatro discos editados em nome próprio, o mais recente dos quais está agora a chegar à lojas e é pretexto para dois concertos, em Lisboa e no Porto. Chama-se Oriente, traz o selo da Uguru, e inclui treze temas, entre inéditos e regravações. O primeiro concerto é no Pequeno Auditório do CCB, esta quarta-feira, dia 3 de Junho, às 21h, e o segundo será na Casa da Música, sábado dia 6, às 21h30.

“Oriente é um conceito. Muita gente ouve o disco e acha-o oriental. Mas também é verdade que eu tenho um fascínio por um certo oriente, que é mais japonês do que chinês. Nas viagens que fizemos com os Madredeus tive essa relação com o Japão como país: primeiro odeia-se, porque é uma sociedade altamente industrializada, tecnológica, onde parecem todos autómatos; mas tem uma riqueza e um humanismo de que só depois nos apercebemos. E tem o zen-budismo, de que sou grande fã.”

E a música, o que herda disso? “O silêncio. Porque eles são silenciosos. Não há desacatos, não há gritaria. É um povo introvertido e socialmente muito amigável, que eu admiro pela sua civilidade.” As atmosferas mais exóticas, diz Carlos Maria Trindade, são por princípio associadas pelas pessoas ao oriente. Mas este novo disco, apesar do nome, tem também pulsões rítmicas mais africanas, com percussões e vozes. “Sempre tive esse fascínio também, não pelo lado do transe electrónico mas do transe tribal. Sempre me interessou a maneira como eles se servem da música nas suas cerimónias para chegar a um determinado estado espiritual.”

Nascido em Lisboa, em 1954, Carlos Maria Trindade fundou e integrou os Corpo Diplomático (que gravaram um único disco, o LP Música Moderna, em 1979), os Heróis do Mar e, mais tarde, os Madredeus, onde se mantém até hoje. Em nome individual estreou-se com o single Princesa, em 1982, gravando em 1991 com Nuno Canavarro o seu primeiro LP, Mr. Wollogallu. Em 1996 lançou Deep Travel e em 2011 a “colectânea conventual” 20 Músicas Nómadas. Pelo meio, produziu discos dos Rádio Macau, Xutos & Pontapés, António Variações, Delfins ou Mariza.

Um órgão de igreja em casa
No CCB, Carlos Maria Trindade terá consigo dois outros músicos: Alexei Tolpygo, que toca violino eléctrico no disco (tocará ainda violino acústico, baixo eléctrico e sintetizadores) e Sara Afonso, cantora lírica que tocará também sintetizadores. “Vamos interpretar seis canções com a Sara, todas inéditas. É um material composto muito recentemente e que não teve tempo de entrar no disco. Duas dessas canções são do Alexei, gosto muito do trabalho dele. É um músico russo que se apaixonou por Portugal, está cá há muitos anos na [Orquestra] Metropolitana e fez uma pesquisa sobre cantigas de amigo em galaico-português. Tem um fascínio por D. Dinis e por essa época. Vamos, portanto, cantar duas cantigas de amigo, com as letras originais, só os arranjos é que são completamente revolucionários: música electrónica, sintetizadores, violino.”

Carlos Maria Trindade, por sua vez, tocará piano, sintetizadores e clavinet. “É um instrumento que não é muito utilizado fora da pop, uma espécie clavicórdio com pick-ups eléctricos. Tem um som muito cristalino. Vou fazer uma viagem tímbrica, pelos timbres da minha vida: o falso cravo, timbre que eu inventei para tocar música barroca (com ele, vamos tocar peças de Carlos Seixas e duas peças de Händel); o piano acústico; esse clavicórdio que é o clavinet; e, pela primeira vez em público, um sample que eu fiz do som do órgão da Sé de Évora e com uma peça original que compus exclusivamente influenciado por esse timbre.” Isto tem uma história por detrás. Quando Carlos trabalhou na editora Polygram (hoje Universal) foi aliciado por um colega a fazer uma gravação de quatro órgãos ibéricos, entre os quais o da capela de Coimbra, o da Sé de Évora e o da Sé de Braga. Iam lá aos fins-de-semana, punham os microfones, os organistas tocavam, eles gravavam e depois vinham-se embora. “O meu preço foi pedir aos organistas que me dessem o timbre do órgão para eu organizar para teclado, para sintetizador. Nota a nota, para organizá-lo nas teclas e ficar com o órgão em casa. E vou revelar esse som neste concerto.”

Mas a paixão de Carlos pelos órgãos de igreja e pela sua sonoridade é muito anterior. “Quando fui estudar música clássica para o Conservatório eu não queria estudar piano, queria era o órgão. Fascinava-me. Não só pela imponência do som como pelo facto de o organista estar de costas para o público e geralmente invisível.” Aconteceu-lhe precisamente o inverso. “Acabei a vida nos palcos, com os Madredeus, completamente exposto e virado para o público.” O órgão, contudo, manteve-se para ele como a imagem quase mágica dessa utopia. “O órgão tinha e tem a função de aliciar as pessoas a um estado espiritual, e depois faz aquela reverberação nas pedras…”