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Foi a fazer voluntariado em Moçambique que Rita descobriu a sua vocação DR
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Manuel Roberto

Ser “bombeira de serviço” para garantir os direitos das crianças

Como se pode construir um futuro mais feliz para as crianças? Fazendo mais trabalho de prevenção e junto das famílias, diz Rita Esteves. No Dia da Criança, o P3 foi conhecer o trabalho — profissional e voluntário — da técnica social de 30 anos

Rita Esteves fez o curso de Economia por um “claro erro de percurso”. A verdadeira vocação descobriu-a pelo segundo ano da faculdade, quando decidiu ir para o Norte de Moçambique fazer voluntariado. O que a movia era aquilo: fazer trabalho social para ajudar a construir sociedades mais justas e felizes. Agora, é técnica do Projecto Família, do Movimento Defesa da Vida (MDV), e coordenadora em Portugal de um projecto internacional de voluntariado que propõe modelos de educação baseados na ética e uma união das diversas religiões em prol da criança. Neste 1 de Junho, Dia da Criança, o P3 apresenta estes projectos e uma exposição itinerante que é uma viagem pela cabeça dos mais novos. O que é urgente fazer para os proteger mais? “Trabalhar as famílias.”

O telemóvel de Rita, 30 anos, está sempre ligado. As famílias com quem trabalha, sobretudo nas empobrecidas freguesias de Campanha e do Bonfim, na zona Oriental do Porto, têm o número dela e autorização para o usar a qualquer hora. Podem ser duas da tarde ou duas da manhã. E já aconteceu: pedidos de ajuda por casos de violência doméstica durante a madrugada ou telefonemas a pedir conselhos. Esta metodologia norte-americana do “técnico amigo” não é consensual, mas o trabalho do Projecto Família, do MDV, já foi galardoado em Portugal. Em 2014, foi o vencedor do Prémio Manuel António da Mota e, desde que começou a trabalhar, em 2006, e até ao final de 2013, já interveio junto de 2240 crianças de 982 famílias. Em Lisboa, o projecto trabalha com verbas do Estado. No Porto, só continua a existir graças ao apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

O trabalho dos técnicos — que trabalham apenas e só em “meio natural”, na casa das famílias, e nunca no gabinete — é feito junto de famílias com crianças, com base numa “relação de proximidade” e por um período de tempo limitado. “Há situações em que uma intervenção na família pode fazer toda a diferença na prevenção de uma retirada ou numa reunificação familiar”, considera Rita Esteves. Também eles reportam às autoridades competentes situações em que a criança deve ser retirada, mas esse cenário é o menos desejável. "Por muito boa que seja uma instituição de acolhimento, não há nada como uma família biológica ou de afecto. E, além disso, o Estado pouparia milhões se investisse nessa política", diz. A intervenção dos técnicos deste projecto pode passar por trabalhar as competências parentais, questões de higiene, gestão doméstica ou financeira, de acesso aos serviços. Ou por algo tão “simples” como ouvir.

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Uma das fotografias feitas por menores para exposição sobre a Convenção dos Direitos da Criança

Esta filosofia de acção tem alguns pontos de contacto com o manual de educação ética para crianças da Arigatou International, que Rita Esteves “descobriu” há cerca de três anos. Um livro — aprovado pela UNESCO, UNICEF e conselho inter-religioso — que “trabalha essencialmente valores como o respeito, a empatia, a reconciliação e a responsabilidade” e tem em conta a diversidade cultural e religiosa. Foi num "workshop" que esta ONG com sede em Tóquio fez no Porto que o clique surgiu: “Achei que fazia todo o sentido implementá-lo cá”, contou ao P3. “Cada vez mais, e no Porto em particular, há uma enorme diversidade cultural e religiosa. E não temos profissionais preparados para dar resposta a essa diversidade. Ainda há muitos tabus e muito preconceito.”

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Exposição da associação de voluntariado que Rita coordena é itinerante DR

A "miséria citadina"

Para quem fez trabalho social no Norte de Moçambique, onde “falta quase tudo”, o Porto é um terreno fácil? Longe disso, considera a técnica: “Digo muitas vezes que o meu trabalho em Moçambique acabava por ser mais fácil do que o que faço aqui.” A “miséria citadina”, considera a jovem, passa frequentemente pela solidão. “Muitas vezes, as pessoas nem têm a quem pedir um conselho. Estão verdadeiramente sós. Assistimos, neste momento, a histórias de mães que não comem para dar de comer aos filhos. Ainda há pouco tempo me relataram o caso de uma criança que roubava o leite achocolatado da escola para dar à avó em casa.”

Depois de ter feito uma formação da Arigatou International como “youth leader for peace”, na Suíça, Rita foi convidada a fazer parte da Global Network of Religions for Childrens (GNRC), “o projecto onde estão os voluntários dos vários países que põem a máquina a funcionar.” E há dois anos assumiu a posição de coordenadora. Com parcerias com várias instituições (a Comissão de Protecção das Crianças e Jovens em Risco (CPCJ) do Porto Oriental foi uma das primeiras a abraçar a ideia), o projecto tem formado vários técnicos sociais e educadores (e não só: todos podem ser voluntários) e tem iniciativas no terreno durante todo o ano.

A mais recente, para assinalar o mês de prevenção dos maus-tratos contra crianças, foi uma exposição (que vai passar por diversos locais nos próximos meses) com fotografias de crianças entre os 4 e os 18 anos, institucionalizadas ou não, sobre a Convenção dos Direitos da Criança. Os professores e educadores desafiaram as crianças a fazer fotografias (ou desenhos, em alguns casos) sobre um dos artigos da Convenção e os resultados foram, em alguns casos, surpreendentes: “Houve muitos miúdos a representar a questão do tráfico, alguns com fotos bem pesadas, muitos a representar a mendicidade, os maus-tratos, a própria religião. Também o direito à alimentação e à família. Sobretudo o direito ao carinho e ao amor. Foi muito comovente.”

O manual da Arigatou — que está agora a ser adaptado ao trabalho com famílias, com colaboração da equipa portuguesa —, tem sido utilizado como projecto piloto em várias escolas públicas de outros países. “Tem funcionado muitíssimo bem.” Este não é um manual religioso, sublinha a voluntária,“é um manual que trabalha os valores e a espiritualidade das crianças”. “Isto é tão simples como dar-lhes tempo e espaço para aprenderem por elas próprias. Exigimos demasiado às nossas crianças hoje em dia. A educação formal não dá tempo para reflectir as coisas.”

Esta falta de tempo – e de meios — é uma realidade bem conhecida de quem trabalha em projectos sociais actualmente. “As comissões de protecção das crianças e jovens estão a rebentar pelas costuras e precisam de muito apoio. Perceber em que é que têm de actuar urgentemente e o que é que podem encaminhar para instituições como nós. Que fazemos muito trabalho de prevenção. O problema é que também nós já temos listas de espera. O que não devia acontecer. O ideal era dar sempre resposta em 48 horas no máximo. Mas só temos duas técnicas, por isso não dá para mais.” Qual seria a medida prioritária para intensificar a defesa dos direitos das crianças em Portugal? “O que falta é trabalhar com as famílias. Não adianta trabalhar a criança se esquecermos a família”, responde Rita. E acrescenta: “Falta apostar na prevenção. Neste momento somos bombeiras de serviço demasiadas vezes. Não pode ser.”