Wirathu, o monge budista que apela ao genocídio dos rohingya na Birmânia

O racismo contra uma etnia muçulmana birmanesa está a assumir proporções que não ficam atrás da aplicação das leis raciais nazis contra os judeus. E o seu porta-estandarte é um religioso.

Protestos na Indonésia contra o monge Wirathu
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Protestos na Indonésia contra o monge Wirathu Beawiharta/REUTERS

A voz é tranquila, as palavras saem-lhe como um mantra repetido até se embalar a si próprio, e só os músculos retesados da face redonda deixam trair a violência do que diz o monge budista birmanês Ashin Wirathu: “Estamos a sofrer violações em todas as cidades, a ser sexualmente molestados em todo o lado, a ser agredidos por muçulmanos em toda a parte. Em todas as cidades são uma maioria bruta e selvagem”.

Os sermões racistas do influente Wirathu que caracterizam a minoria muçulmana como um perigo coincidiram com o início da onda de violência contra os rohingya, a minoria muçulmana a que o Estado birmanês retirou a cidadania em 1982. Em 2012, quando se deram os primeiros episódios graves de violência contra os rohingya, em Sittwe, e 140 mil pessoas foram obrigadas a fugir das suas casas, os discursos do monge gravados em DVD já eram distribuídos por todo o país. Em Sittwe, a maior parte das mesquitas da cidade foram incendiadas, e as zonas da cidade onde viviam muçulmanos foram completamente destruídas pelo fogo, transformadas em cinzas.

Wirathu tinha sido condenado em 2003 a 25 anos de prisão, por incitamento ao ódio religioso – as suas palavras tinham levado ao assassínio de uma família de dez pessoas, morta pelas chamas na sua própria casa na pequena cidade de Kiyauk Hse. Mas foi libertado numa das várias amnistias concedidas pela junta militar a partir de 2010 e tornou-se o líder do movimento 969, um grupo nacionalista radical que incita à violência contra os rohingya e ao boicote das empresas e lojas dos muçulmanos.

A prisão não fez abrandar o desprezo de Wirathu por esta minoria de pouco mais de um milhão de pessoas, que representa no máximo 5% da população birmanesa, mas que as Nações Unidas classificam como “a minoria étnica mais reprimida do mundo”.

Os rohingya são considerados estrangeiros, de etnia bengali porque a sua origem é o Bangladesh – mas vieram de lá no século XVI, numa primeira leva, e no século XIX, numa segunda onda migratória, desta feita incentivada pelos conquistadores britânicos. No entanto, apesar de terem raízes tão antigas na Birmânia, após a independência, e sobretudo depois do golpe militar de 1962, foram cada vez mais marginalizados. A partir de 1982, foram excluídos da lista de 135 etnias reconhecidas oficialmente na Birmânia e declarados apátridas. Aí radica a sua situação actual.

Não têm quaisquer direitos civis reconhecidos, nem sequer direito a um médico, ou a ir escola. Por isso tentam fugir em massa do país – e se tornaram protagonistas este mês de uma crise humanitária, com milhares de pessoas à deriva no mar, sem que nenhum país aceitasse recebê-las.

“Vão capturar o nosso país”
Apesar de ser um monge budista, de quem se espera ouvir mensagens de paz e tolerância, a sorte dos rohingya não inquieta Wirathu – aliás, não esconde que quer expulsá-los a todos do território birmanês ou eliminá-los, numa espécie de solução final. “Se não protegermos o nosso próprio povo tornar-nos-emos fracos, e vamos ter de enfrentar assassínios em massa, quando eles se tornarem tantos que nos vão ultrapassar”, disse a um jornalista da BBC.

A preocupação com a taxa de natalidade dos rohingya, superior à do resto da população, é uma constante no discurso do monge, que fala na “explosão populacional” dos muçulmanos birmaneses como um dado seguro, e que só pode ter um resultado: “Vão acabar por capturar o nosso país”, disse ao Guardian. Por isso tem feito lobby durante os últimos anos – e conseguiu, recentemente, fazer aprovar uma lei sobre o controlo da natalidade que gerou protestos internacionais, por se considerar que está redigida de forma a ser usada contra as minorias.

A lei aprovada a 14 de Maio prevê que os governos dos 14 estados e regiões birmanesas possam requisitar uma ordem presidencial para “organizar” as mulheres para que tenham um intervalo de 36 meses entre o nascimento dos seus filhos, cumprindo o prazo recomendado pela Organização Mundial de Saúde para reduzir a mortalidade infantil. Mas, segundo o Guardian, a lei considera como motivos válidos para pôr em acção esta medida também “um elevado número de migrantes na área, um elevado crescimento populacional e uma alta taxa de natalidade”.

O uso destes argumentos faz temer que a lei seja usada sobretudo para controlar a natalidade da comunidade muçulmana – que já foi alvo de medidas semelhantes no passado.

“Neo-nazi”
“Os muçulmanos só se comportam bem quando estão fracos”, afirmou à BBC, olhando para um dos cartazes que forram os muros exteriores do seu mosteiro, em Mandalay, a segunda maior cidade birmanesa: todos mostram cenas de enorme violência que ele afirma ter sido praticada pelos rohingya, como corpos cobertos de sangue e templos destruídos. “Estas imagens estão aqui para protegermos a nossa religião e os nossos interesses nacionais”, disse calmamente à BBC. “Se nos tornarmos fracos não protegeremos o nosso povo. E se eles ficarem fortes são como lobos ou chacais, caçam em matilhas como outros animais.”

Esta desumanização da minoria étnica e religiosa que são os rohingya é uma característica do seu discurso, e algo que leva as organizações de direitos humanos a chamar-lhe “neo-nazi”, ou a afirmar que este discurso não ficaria mal ao pé das leis raciais do regime nazi.

Ele assume o gosto de chocar – diz que tem prazer em ser conhecido como “radical”. Num perfil publicado pela revista Time em 2013, disse que gostaria de ser conhecido como “o Bin Laden birmanês”. Depois de publicado o artigo, sob o título “O rosto do terror budista”, quis corrigir a citação, mas o cognome assentava-lhe bem demais, relata o Washington Post.

Diz-se que o movimento que lidera, o 969, tem o apoio dos militares, que governaram o país no último meio século e continuam, efectivamente, a deter o poder, apesar da transição para a democracia. Tem as suas raízes ideológicas num livro dos últimos anos da década de 1990, da autoria de U Kyaw Lwin, um funcionário do Ministérios dos Assuntos Religiosos, e tem por base a crença tradicional na numerologia, explicou Alex Bookbinder na revista The Atlantic, em 2013. Este número representa as “três jóias”: os nove atributos de Buda, os seis atributos dos seus ensinamentos e os nove atributos da Shanga, ou ordem monástica. Será o oposto cósmico do 786, através do qual os muçulmanos da Ásia do Sul representam a frase “Em nome de Alá, o compassivo e o misericordioso”.

A mensagem deste movimento, que estabeleceu relações com outra organização budista radical no Sri Lanka, o Bodu Bala Sena, que se levanta contra outra minoria perseguida, os tâmiles – é de defesa da “pureza racial e religiosa” da Birmânia. Elege como bodes expiatórios de todos os problemas económicos e de decadência social e cultural os muçulmanos a etnia historicamente desprezada dos rohingya,. Os birmaneses são apresentados como vítimas, que sofrem às mãos de uma corja de parasitas islâmicos organizados, explica um texto no Asia Times.

Tudo isto é bastante semelhante à diabolização de um grupo étnico e religioso, como aconteceu na Alemanha nazi dos anos 1930. E as instituições do Estado, toleram, quando não cooperam, com a discriminação e a violência cometida contra a comunidade rohingya.

Por exemplo, em Março de 2013, uma disputa entre um cliente budista e o proprietário muçulmano de uma ourivesaria, na cidade de Meiktila, resultou em 44 mortos e na fuga de pelo menos 8000 pessoas, enquanto a polícia se deixou ficar a ver sem impedir a destruição. A multidão, incentivada por monges budistas, arrasou os sectores muçulmanos da cidade: pelo menos 828 edifícios foram reduzidos a nada, em três dias de motins, disse na altura a Human Rights Watch.

Críticas do Dalai Lama
Wirathu não é o teórico deste movimento, mas é o seu porta-voz. Hoje está na casa dos 40 anos, e não é um monge particularmente culto – críticos sublinham que só esteve na escola até aos 14 anos, e depois entrou para um mosteiro, conta o Guardian.

O Dalai Lama manifestou a sua insatisfação com que se passa na Birmânia. “É impensável matar pessoas em nome da religião. É muito triste. Rezo para que [os monges] pensem no rosto de Buda, que foi um protector dos muçulmanos”, afirmou, citado pela Reuters.

Na semana passada, o líder espiritual budista pediu também à Nobel da Paz birmanesa, Aung San Suu Kyi, para sair do seu silêncio e agir em defesa da minoria rohingya - o seu silêncio prende-se com o receio de perder apoiantes para as eleições que se devem realizar no Outono, e o com o facto de ser também atacada por Wirathu, que lhe chama "amante de muçulmanos". “É triste. Encontrei-me com ela duas vezes, a primeira em Londres e depois na República Checa. Mencionei o problema e ela disse-me que previa dificuldades, que as coisas não eram simples, que eram muito complicadas. Mas apesar de tudo isso, penso que ela pode fazer alguma coisa", afirmou o Dalai Lama.

De forma pouco convincente, Wirathu nega ser responsável pela violência contra os rohingya – mas chama-lhes frequentemente “kalars”, um termo depreciativo, mais grave do que “preto” em português. E menciona constantemente histórias de mulheres birmanesas violadas por muçulmanos. O grupo Justice Trust, com base nos Estados Unidos, sublinha que muitas vezes os episódios de violência acontecem depois de Wirathu colocar mensagens ou discursos mencionando essas histórias na página dele do Facebook.

Campos de concentração
Actualmente, a maioria dos rohingya vivem em campos de refugiados na costa do estado de Rakhine, de onde eram originários, e alguns permanecem num ghetto cercado perto da cidade de Sittwe, no centro de país. É destes campos esquálidos que tentam escapar-se, imigrar para qualquer lado onde possam ter esperança de viver.

As agências de ajuda internacional foram expulsas de Rakhine em 2014 – não há médicos, não há escolas. É um passeio pelo inferno que relata o jornalista Alex Preston na revista GQ britânica em Fevereiro deste ano: “Vejo bebés cegos e inchados por causa da fome, doentes de HIV que, agora que as agências humanitárias se foram embora, deixaram de receber medicamentos anti-retrovirais. ‘Talvez consiga receber tratamento fora do campo’, diz-me um deles, ‘mas tenho medo. Eles matavam-me mais depressa do que a doença.’ Um rapaz de seis anos, a idade do meu filho, está com a mãe em frente da barraca deles. Ele tem tuberculose está sempre a tossir, os olhos saltam-lhe para fora do rosto. Cospe expectoração vermelha para os meus pés. Tem tumores na pele à volta do pescoço e debaixo dos braços. A mãe acaricia-lhe o cabelo, a chorar.”

Saber que existem hoje lugares como este – algo como só se imaginava nos campos de concentração nazis da II Guerra, é um choque, diz o jornalista. Mas sobretudo saber que existem num país que recebe ajudas ao desenvolvimento dos Estados Unidos e da União Europeia, para apoiar a transição para a democracia, e que de forma tão flagrante namora com o genocídio – é uma bofetada capaz de arrancar o nosso mundo do eixo.