Lisboetas sentem-se cada vez mais acossados pelos turistas

Eles já aí estão, aos magotes. E hão-de vir mais. Mas quem vive em Lisboa começa a olhar assustado para tão grande invasão. Perde as suas lojas de bairro, aumenta o ruído e a sujidade, mal circula nos passeios e sente-se pressionado para sair de sua casa. “Nós ainda moramos aqui”, insistem.

Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

Não há dia que no correio de alguns habitantes do centro histórico de Lisboa não apareçam ofertas para que vendam as suas casas. Em todas as ruas, becos e vielas pululam turistas, estando a cidade – desde o comércio à habitação - a transformar-se para os acolher. As críticas têm subido de tom e muitos advogam que a capital não aguenta este turismo de massas. O alvo das acusações varia mas a maior parte das baterias é apontada à câmara. O certo é que cresce o mal-estar entre os lisboetas, que se sentem um dano colateral desta nova dinâmica económica.

Um pouco por todo o centro histórico, multiplicam-se cafés, restaurantes e lojas cujo mote é o very typical. Em todo o lado nascem hostels, serviced apartments e boutique hotels e já não há quem consiga contar os tuk tuk que se acotovelam pelas estreitas ruas da cidade. Por entre o ruído dos trolleys na calçada, os moradores pedem ao poder local que se lembre de que (ainda) há quem viva aqui.

Lisboa está nas bocas do mundo. Tem, nos últimos anos, vindo a somar inúmeras distinções: Melhor Destino Europeu, Melhor Destino Urbano, Melhor Destino Low-Cost, Melhor Destino Low-Cost para Lua-de-Mel, Melhor Porto de Cruzeiro, e até foi considerada a quarta cidade Mais Bonita do Planeta. No entanto, há quem não esteja contente com esta visibilidade.

“Lisboa está na moda e isto é muito negativo para os moradores, pois coloca em causa a sua qualidade de vida pelos problemas de ruído, segurança, mobilidade e estacionamento, higiene e salubridade urbana”, diz Luís Paisana, presidente da Associação de Moradores do Bairro Alto (AMBA).

Uma "feira popular"

O consultor considera que a imagem utilizada para vender a cidade tem sido a de uma “feira popular” onde os turistas podem usufruir de um espaço onde tudo é literalmente possível: fazer barulho, gritar, cantar ou beber na via pública com várias consequências, sobretudo a nível de higiene, “transformando estas zonas em gigantescas casas-de-banho e depósitos de lixo público, esquecendo-se do fundamental: o centro histórico é uma zona residencial”.

Para Fernando Marta, agente da PSP aposentado, que reside no Bairro Alto há 59 anos, o aumento do turismo significou uma revitalização positiva no comércio, especialmente a nível da restauração. No entanto, considera que os preços do arrendamento subiram muito, motivados pela procura do alojamento temporário: “Há proprietários de imóveis no centro histórico que se mudam para zonas limítrofes da cidade, alugando a casa a estrangeiros como forma de rendimento livre de impostos”.

Só no Airbnb, um site onde qualquer pessoa pode disponibilizar a sua casa ou parte dela para aluguer temporário, existem mais de 1000 espaços para arrendar em Lisboa. A esmagadora maioria não está legalizada.

Tomás Berger, que trabalha na área dos alugueres de curto-prazo há cerca de três anos, diz que a oferta tem tido um aumento exponencial e que, “se o aumento do turismo tem descaracterizado a cidade, a culpa não é de quem visita, mas da forma como se gere este turismo”. Para este responsável, este fenómeno deve-se ao facto de a gestão camarária estar a criar e a promover zonas especificamente para turistas.

O debate entre moradores, operadores turísticos e a Câmara Municipal de Lisboa (CML) tem vindo a intensificar-se nos últimos meses. Na terceira edição dos Encontros de Urbanismo, promovidos pelo Centro de Informação Urbana de Lisboa (CIUL) há poucos meses, Manuel Salgado, vereador com o pelouro do Urbanismo na CML, reconheceu que o fenómeno provocou uma alteração no modo de vida dos lisboetas e que os alojamentos low-cost e os sites como o Airbnb têm “um efeito muito perverso” no mercado de arrendamento e “um grande impacto no comércio”.

Sobre esta questão, Luís Mendes, investigador do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa (CEG-UL), diz que há “um fenómeno cada vez mais intenso a afectar o parque imobiliário do centro histórico lisboeta, sobretudo nos últimos cinco anos, com a proliferação de hostels e outras formas de alojamento turístico, pondo mesmo em risco a função residencial sobretudo da população autóctone que já habita nesses bairros há várias décadas.”

“Desde o início deste século que a política de reabilitação urbana da CML tem ganho um pendor claramente neoliberal, esvaziando a habitação do seu estatuto de direito para ganhar o de mercadoria”, diz o investigador. “Ao invés, a CML devia assumir um papel regulador e estabilizador do mercado imobiliário, que continua a seguir ao sabor dos grupos mais privilegiados, menosprezando os direitos da população.”

Gerador de riqueza

A presidente da Freguesia da Misericórdia, Carla Madeira (PS), defende que o turismo é um dos principais factores de desenvolvimento da cidade e a sua actividade geradora de crescimento económico. Acerca do aumento das rendas e da perda de moradores, Carla Madeira aponta erros ao Governo: “Este é um fenómeno mais ligado às alterações que foram introduzidas na legislação e ao desaparecimento de mecanismos de protecção da população mais carenciada ou idosa. A indústria do turismo certamente se aproveitará das oportunidades criadas mas não é o gatilho dessa situação”.

Por outro lado, Vasco Morgado (PSD), Presidente da Junta de Freguesia de Santo António, entende que a cidade não está preparada para o turismo em massa e que os lisboetas passaram a ser considerados danos colaterais. Para ele, a culpa é da Câmara: “Não foram pensadas alternativas de defesa de quem cá mora e vive o seu dia-a-dia. Todos esses vectores foram substituídos pela vaidade de quem governa a cidade”.

Lisboa foi a cidade europeia com maior crescimento turístico em 2014 (15,4% face ao ano anterior), atingindo os 11,53 milhões de dormidas, segundo a Associação de Turismo de Lisboa (ATL). Só em Janeiro de 2015, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), os estabelecimentos hoteleiros registaram aproximadamente dois milhões de dormidas (um aumento de 13,4% face a 2014). Para este ano está ainda prevista a abertura de 20 novos hotéis, o equivalente a 1600 novos quartos.

Para Luís Paisana, o problema reside na concentração da oferta face à área e ao número de habitantes. Aliás, Lisboa tem vindo a perder população de uma forma dramática. Em 1980, os alfacinhas ultrapassavam os 800 mil. Hoje, a cidade conta com cerca de 547 mil habitantes, sendo que destes, apenas pouco mais de 110 mil residem no centro histórico.

“O centro histórico de Lisboa é demasiado pequeno e não tem capacidade para absorver tantos turistas. Não nos podemos esquecer que aqui vive gente e que é essa gente que constrói aquilo que os estrangeiros vêm ver”, diz o presidente da AMBA. “Temos de acabar com esta venda de Lisboa a qualquer preço. Este turismo low cost destrói mais do que paga”.

Pressão para sair

De acordo com Luís Paisana, a procura de espaços para hotéis e para arrendamento temporário é maior que a oferta, o que inflacciona os preços e impede a fixação de novos moradores. “Os que ainda cá estão têm a pressão diária de sobreviver aos problemas que se agravam e começam a pensar em sair”, continua.

Este processo reflecte-se também no comércio, uma vez que as lojas tradicionais que serviam a antiga população são substituídas por outras mais adequadas às necessidades dos novos habitantes. De facto, só na zona da Baixa existem cerca de 40 lojas que vendem bebidas e produtos de baixa qualidade, como camisolas da selecção nacional e souvenirs. A Associação de Moradores do Bairro Alto (AMBA) diz ter conhecimento de situações em que existe pressão dos senhorios, a fim de substituírem os actuais arrendatários por estas lojas de conveniência. O mesmo fenómeno acontece também no mercado de arrendamento para habitação.

João Lobo, arquitecto a viver na Baixa há quatro anos, confirma a intimidação por parte do sector imobiliário. “Recebo todos os dias no correio folhetos de agências interessadas em comprar o meu apartamento. Aos poucos, a Baixa está a deixar de ser um bairro para passar a ser um spot turístico”, afirma. “Houve uma mudança radical na poluição sonora e visual, no início era calmo viver aqui. Hoje em dia quem frequenta os supermercados e cafés da zona são apenas os estrangeiros e, no verão, chega a ser impossível ouvir falar português”.

Carla Madeira considera que só o Governo pode encontrar um equilíbrio entre turistas e residentes. “Há que sensibilizar o poder central para a necessidade de entender a reabilitação e a requalificação como setores estratégicos para um desenvolvimento sustentável”. Do outro lado, Vasco Morgado entende que “a única política pública que poderia salvaguardar o êxodo da cidade seria não permitir mais de determinada percentagem de alugueres temporários por freguesia” mas que “não há interesse [da CML] em ter pessoas na cidade, pois quando menos opinião e votos houver mais fácil se tornará ganhar eleições”.

Numa entrevista à Revista 2

no último Verão, Fernando Medina, presidente da câmara, contrapôs que a cidade tem beneficiado do

boom

turístico, referindo que o impacto é positivo sobretudo do ponto de vista da reabilitação dos edifícios. E, sublinhou, "toda a cidade vibra e está mais animada, até com espaço para novas actividades que são geridas por habitantes”, acrescentando estar convencido que ainda há espaço para crescer.

Texto editado por Ana Fernandes