Prémio PT de Literatura passa a ser patrocinado pelo Itaú Cultural

Durante os próximos dias será anunciado o novo nome, formato e curadoria.

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Valter Hugo Mãe na cerimónia da 10ª edição do Prémio Portugal Telecom de Literatura em Lingua Portuguesa

A Portugal Telecom (PT) deixa de estar ligada ao prémio literário que criou há treze anos e da qual era até aqui a única patrocinadora. Mas o prémio vai continuar a existir com um novo nome, que ainda não está decidido, um novo formato e um novo patrocinador: o Itaú Cultural. E irá realizar-se ainda a edição deste ano.

Esta foi a solução encontrada para que o prémio não acabasse a partir do momento em que a Portugal Telecom/Oi decidiu que não iria investir e o comunicou a Selma Caetano. A curadora-coordenadora explica ao PÚBLICO que o novo modelo é uma “parceria aberta, com vários protagonistas” – entre eles uma equipa de intelectuais que “viabilizam intelectualmente o prémio” e o Itaú Cultural a financiar toda a operação. 

A Portugal Telecom remeteu as perguntas feitas pelo PÚBLICO para a Oi, que não quis comentar este assunto. 

“Com essas parcerias podemos entregar novamente o prémio para a sociedade, com todo aporte necessário à realização da edição 2015. O Itaú Cultural realizará todo o operacional do prémio, do recebimento das inscrições no site do prémio, que estará hospedado dentro do site do Itaú Cultural, até a realização da festa dos vencedores, que será no Auditório Ibirapuera”, afirma Selma Caetano. "Pretendemos manter o valor monetário praticado pelo patrocinador anterior", até aqui o prémio era no valor de 50 mil reais (cerca de 14 mil euros) para o Grande Vencedor (escolhido entre os vencedores de cada categoria) e de  50 mil reais para os vencedores em cada categoria de romance, conto e crónica e poesia.

Por sua vez, Eduardo Saron, director do Itaú Cultural, explica que actuarão "como co-realizadores em sistema colaborativo" e que irão focar-se em todo o processo necessário até à cerimónia final. “Este prémio possui uma tal estatura que já não pertence a esta ou àquela empresa, ele pertence à literatura escrita em língua portuguesa, e isso é o mais importante”, defende, respondendo por email. Por isso escolheram colaborar "e sem naming rights”, o que significa que poderão não ter o seu nome no prémio, como acontecia com o patrocinador anterior. 

"O novo nome, assim como a sua estrutura, formato, curadoria, será decidido na reunião do Conselho, que deve acontecer nos próximos dias. Como co-realizador, para o Itaú Cultural o mais importante é fazer parte do processo, que será ancorado na própria estrutura do instituto." O director diz que o prémio vai ligar-se ao programa Conexões, projecto que mapeia a literatura brasileira no exterior, lembrando que o Banco Itaú já apoia festas e feiras literárias como a FLIP, a Flupp e a Fliporto e, através da Fundação Itaú Social, têm outras acções de estímulo à leitura. Mas o que lhes interessou aqui foi a capacidade que este prémio tem em estabelecer um diálogo com a literatura e a língua portuguesa sem fronteiras.

“O prémio tem uma história de 13 anos, e com o trabalho da Portugal Telecom e da curadora Selma Caetano, conquistou credibilidade, e possui um legado construído ao longo deste tempo que não se pode perder. Queremos garantir perenidade a este património”, acrescenta Eduardo Saron. Entre os seus vencedores estão os escritores portugueses Valter Hugo Mãe, o grande vencedor em 2012, Gonçalo M. Tavares em 2011, António Lobo Antunes em 2008. 

Apesar de ter perdido o patrocínio, é "inegável o empenho e investimento" dedicado pela Portugal Telecom e, posteriormente, pela operadora OI nas doze edições do prémio realizadas entre 2003 e 2014. "A maneira democrática e aberta do patrocínio transformou o prémio, ao longo dos anos, em um projecto do meio literário e editorial", diz a curadora.  Na edição passada os outros curadores eram o poeta Sérgio Medeiros (para a poesia), o professor e crítico literário Lourival Holanda (para o romance) e a escritora Cintia Moscovich (para a crónica e conto). 

"Desde o início, os maiores críticos literários [brasileiros] estavam envolvidos no projecto. A cada edição faziam um balanço e propunham mudanças e aperfeiçoamentos na edição seguinte." Foi ao meio literário, portanto, que a curadora voltou para resolver o futuro do prémio. 


"Todos esses críticos literários estavam dispostos a encarar um ano de crise, sendo parceiros do projecto, realizando o prémio sem o cachê, para que eu tivesse tempo de buscar novo patrocinador para 2016", conta. Criaram, então, um Conselho Curatorial Consultivo para discutir as possibilidades da continuidade e, em nome desse Conselho, Selma Caetano foi procurar o seu segundo parceiro. Conseguiu assim o apoio do Itaú Cultural, que viabilizou o prémio ainda em 2015.