Só 40% dos anestesiologistas trabalham em exclusivo nos hospitais do SNS

Estudo da Ordem dos Médicos aponta para falta de mais de 400 especialistas nesta área, mas defende que o principal problema está na falta de capacidade dos hospitais públicos de atraírem os clínicos.

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As cirurgias são apenas uma parte do trabalho destes especialistas CARLOS LOPES/arquivo

Os números fazem parte de um trabalho conduzido pelo Colégio de Anestesiologia da Ordem dos Médicos com o objectivo de apresentar uma fotografia da realidade nacional nesta especialidade. A ideia é que os restantes colégios façam trabalhos semelhantes. Para as conclusões, a ordem contou com inquéritos feitos em meados de 2014 aos hospitais do sector público e do sector privado. No total, há 1121 especialistas integrados nos serviços de anestesiologia e mais 71 que tendo esta especialidade trabalham noutros serviços dos hospitais do SNS. Há ainda 62 internos que já terminaram a especialidade, mas que ainda não foram colocados e 200 especialistas a trabalhar só no privado.

Para o presidente do Colégio de Anestesiologia, Paulo Lemos, estes valores contradizem as afirmações do Ministério da Saúde de que há falta de anestesistas no país, referindo-se antes a um problema de distribuição. Paulo Lemos contrapõe que o que tem faltado é vontade política para conseguir fixar estes profissionais nos hospitais públicos e em horários mais completos. Como exemplo desta realidade, o médico destaca que dos 1121 clínicos desta especialidade integrados nos serviços de anestesiologia, só 10% estão no topo de carreira, no grau de assistente graduado sénior. Há ainda perto de 50% de anestesiologistas no grau mais baixo e com “carreiras congeladas”.

Já o bastonário da Ordem dos Médicos alertou que muitos destes especialistas tiveram de passar a trabalhar 18 horas semanais nas urgências, em vez das anteriores 12 horas, o que compromete o tempo que podem dedicar a outras actividades. “É um dia que não vão bloco operatório [para cirurgia programada]”, alertou José Manuel Silva. Aliás, o bastonário considera que, ao contrário do que indicam os dados da Administração Central do Sistema de Saúde, a actividade cirúrgica do SNS não está a aumentar. “Muito do aparente aumento da actividade assistencial tem a ver só com registos”, garantiu, dando como exemplo de intervenções a retirada de alguns sinais cutâneos, feita sem a intervenção de anestesista mas que conta como outras “grandes operações”.

Em Março, o ministro Paulo Macedo tinha afirmado que a tendência de crescimento do Serviço Nacional de Saúde não poderá ser mantida. “Não nos iludamos, o número de cirurgias não continuará a aumentar por causa essencialmente não de blocos operatórios, não de financiamento, não de cirurgiões, mas porque não há anestesistas”, explicou. “Chegámos aí devido a uma falta de planeamento e restrições no acesso a idoneidades para qualificação e planos de formação que não acautelaram esses aspectos”, acrescentou Paulo Macedo.

Até 2020, Paulo Lemos acredita que se podem formar dois terços dos mais de 400 profissionais em falta. Mas o problema poderá manter-se se o sector público não os conseguir fixar e ter outro tipo de organização. Além disso, reforça que de 2002 a 2011 o número de novos especialistas nesta área cresceu quase 28%. Por outro, o representante dos anestesiologistas assegura que as cirurgias são apenas uma pequena parte do trabalho desta especialidade. Segundo o estudo, o tempo em bloco operatório fica-se pelos 35% do global do trabalho destes médicos.

Paulo Lemos alerta que o que fica por realizar são muitas vezes outros serviços como o controlo da dor e apoio a exames de cardiologia, gastroenterologia, medicina da reprodução, psiquiatria ou mesmo analgesia nos partos. As estimativas apontam para que só 56% dos doentes operados tenham uma consulta de anestesia e para que mais de 20% dos partos ocorram sem anestesia (epidural) – ainda que em alguns casos tal possa acontecer por vontade das mulheres.

O estudo identificou também problemas na organização das salas em que trabalham os anestesistas. Em média, 75% das salas são ocupadas de manhã e só 25% durante o período da tarde. Sobre esta divisão dos profissionais entre o sector público e o sector privado, José Manuel Silva acusou o Ministério da Saúde de “hipocrisia política”. “A separação das águas tem sido referida apenas com base em hipocrisia política e não com nenhuma medida concreta. Se a fixação [no SNS] fosse imposta com as remunerações actuais havia um êxodo ainda maior. Os médicos estão obrigados a trabalhar no sector público e privado para compensar os magros vencimentos”, reiterou o bastonário.