Número de inscritos em mestrados aumentou quase dez vezes na última década

Processo de Bolonha foi o grande responsável pela criação de um mercado que até então não existia. Licenciaturas mais curtas passaram a ser vistas como insuficientes para assegurar entrada no mercado de trabalho.

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Os números oficiais mostram bem esta evolução. Em 1995/1996, estavam inscritos 6139 estudantes em mestrados nas universidades portuguesas. Dez anos volvidos, esse número tinha aumentado para quase o dobro (12.007). Mas a grande mudança estava ainda para chegar. Esse ano lectivo (2005/2006) foi o último antes da introdução da reforma resultante da declaração de Bolonha e marca o início da grande transformação no sector: o número de pessoas inscritas em mestrados aumentou quase dez vezes desde então. Em 2013/2014, último ano para o qual existem estatísticas, havia 117.701 pessoas a frequentarem mestrados (integrados ou independentes) no ensino superior nacional. No mesmo período, o número de inscritos em licenciaturas diminuiu 33%, fixando-se em 220.783 no último ano lectivo.

Após Bolonha coexistem também dois tipos de mestrados. Em algumas áreas científicas (Arquitectura, Ciências Farmacêuticas, Engenharias, Medicina, Medicina Dentária, Medicina Veterinária e Psicologia), na altura da transição foi definido que os três anos de curso não seriam suficientes para dar uma formação que preparasse para o exercício de determinadas profissões. Por isso, foram criados os mestrados integrados, que implicam que, após a licenciatura de três anos, os alunos seguem obrigatoriamente para um mestrado de mais dois anos. Nesses casos, o ingresso é feito através do concurso nacional de acesso ao ensino superior, no final do 12.º ano, e que tem por base as notas do ensino secundário e dos exames nacionais. No concurso de 2014/2015 havia 99 mestrados integrados num universo de 1067 cursos oferecidos.

Nos mestrados de 2.º ciclo, ou mestrados independentes, qualquer aluno licenciado pode concorrer. A candidatura é feita directamente junto das faculdades ou escolas das universidades e politécnicos, que podem estabelecer um conjunto de critérios de seriação para preencher as vagas determinadas (média final da licenciatura, conhecimentos anteriores em determinadas áreas ou experiência profissional, por exemplo).

No ano lectivo 2013/2014, os mestrados integrados representaram a maioria das inscrições (53,4%). No entanto, a proporção entre os dois regimes muda significativamente em relação ao número de estudantes que acaba os cursos. Setenta por cento deles são dos mestrados independentes e são também mais rápidos a terminá-los. É à volta destes que se desenvolveu um verdadeiro mercado em Portugal.

O crescimento do número de diplomados ao longo dos anos mostra uma evolução positiva: entre 2005/2006 e 2013/2014, o número total de alunos que concluíram mestrados em cada ano lectivo aumentou quase seis vezes, passando de 4248 para 25.014 diplomados.
Há duas explicações para este fenómeno de crescimento da procura dos mestrados, mas ambos estão relacionados com o processo de Bolonha, diz Amélia Veiga, cientista do Centro de Investigação em Políticas do Ensino Superior e que pertence também à Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES). Há um aumento de procura por parte dos alunos, mas também uma nova estratégia das instituições de ensino superior.

Do lado dos estudantes, a maior procura dos mestrados é vista como uma resposta para colmatar o facto de a duração das licenciaturas ter sido encurtada com a reforma de Bolonha (tipicamente, de cinco para três anos). “Os mestrados adquiriram assim um valor que não tinham. As licenciaturas passam a ser vistas como uma curta formação, que não têm o valor esperado para o mercado de trabalho”, explica a investigadora.

Por outro, houve também uma estratégia das universidades no sentido de aumentar a sua oferta formativa. “O número de mestrados aumentou muito”, afirma Veiga. Neste momento, existem 2657 cursos de mestrado autorizados para funcionar em Portugal (78% em instituições públicas), ainda que nem todos abram vagas em cada ano lectivo.
Não existem dados sobre o panorama antes de Bolonha, mas num artigo científico de Amélia Veiga (em co-autoria com António Magalhães, da Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, e Alberto Amaral, presidente da A3ES) sobre as “lições” do processo de Bolonha em Portugal são analisados os casos de três universidades, e em todas o número de mestrados oferecidos tem um crescimento assinalável, entre 2005/2006 e 2010/2011. No primeiro caso, os mestrados passam de 122 para 151 cursos, no segundo de 45 para 62 e, no terceiro, de 12 para 48.

“As instituições foram obrigadas a reposicionar a sua oferta face a um novo conceito de mestrado”, analisa a investigadora. De algum modo criou-se um novo de mercado, um mercado de mestrados, que não existia antes. Para as universidades e politécnicos, esta resposta foi também uma estratégia de sobrevivência. Com as licenciaturas mais curtas, as instituições corriam o risco de perder os alunos ao fim de três anos, com o impacto que isso tinha em termos de financiamento e de manutenção da sua organização, incluindo número de professores e funcionários. Hoje em dia, os alunos de mestrado representam cerca de um terço do total de inscritos dos estabelecimentos de ensino superior.

A reforma de Bolonha significou, portanto, o grande momento de viragem para os mestrados. E não foi só porque as licenciaturas ficaram mais curtas, os próprios mestrados passaram a ser diferentes. Os chamados mestrados pré-Bolonha eram uma formação científica, que eram seguidos sobretudo por quem pretendia fazer carreira académica e ingressar, em seguida, num doutoramento. Hoje, por exemplo, a permitir a substituição da tradicional dissertação ou tese por um período de estágio ou projecto que, em algumas formações, tem uma dimensão claramente profissionalizante. 

No caso dos alunos que terminam a licenciatura e que querem candidatar-se a mestrados independentes como é feita a escolha? Fazem mestrado numa área próxima da da formação original? Passam a estudar numa área de algum modo associada? Ou estão abertos a mudanças mais radicais nos seus estudos? Ao contrário das licenciaturas e dos mestrados integrados, a candidatura aos mestrados independentes não está centralizada num único concurso nacional de acesso. Esse é um dos motivos pelo qual existem poucas estatísticas nacionais sobre esta realidade. Os dados existentes variam entre as diferentes instituições de ensino superior e, portanto, não permitem fazer comparações. Por isso, não é possível perceber quais os motivos que presidem às escolhas dos alunos depois de concluída a licenciatura.

A experiência dos responsáveis das instituições de ensino superior permite, porém, avançar com algumas hipóteses de resposta.
“Não se pode dizer que haja uma única direcção dos alunos”, defende o presidente do Instituto Politécnico de Bragança, João Sobrinho Teixeira. Nas engenharias, por exemplo, procuram seguir a área formativa, para conseguirem o número de créditos necessários para cumprirem as exigências de acesso à ordem profissional, diz aquele responsável. Nas áreas que não estão tão regulamentadas, não será assim. “Os alunos procuram adquirir no mestrado uma formação que acrescente alguma coisa ao que tiveram na licenciatura”, defende Sobrinho Teixeira.

“Temos a percepção de que uma grande parte dos estudantes prefere mudar de área de estudos quando vão para mestrado”, concorda Rui Antunes, que preside ao Politécnico de Coimbra. Essa opção tem que ver com o facto de nos mestrados independentes entrarem alunos de outras licenciaturas que não as que estão mais directamente relacionadas com aquela área de estudos. “Os professores têm de repetir algumas coisas para uniformizarem conhecimentos e isso dá aos alunos uma sensação de que é mais do mesmo.”