Os cursos de mestrado e o mercado educativo

Com a reforma de Bolonha, a tutela, seguindo tendências emergentes em outros países da OCDE, promoveu um mercado educativo dual. Essa reforma tinha vários objetivos. Por um lado, visava encurtar a formação de nível superior através de um ciclo mais breve (3 anos), favorecendo por essa via o sucesso escolar e melhorando as estatísticas relativas às qualificações académicas dos portugueses. Por outro lado, pretendia amenizar o agravamento dos custos de frequência do ensino superior, uma vez que os alunos pagariam, para obter o diploma, propinas mais elevadas, mas durante menos anos. Esse mercado dual concretizava-se por via da divisão estruturada entre formação graduada (para muitos, desejavelmente cada vez mais) e formação pós-graduada (para alguns, designadamente os que a pudessem pagar).

Aparentemente, esta reforma ancorava num compromisso que satisfazia todas as partes. Os alunos alcançavam o sucesso mais fácil e mais rapidamente, cumprindo-se o desejo das famílias de ver os seus educandos obter o “canudo”. A tutela libertava-se de parte dos custos de formação e consolidava o sistema binário, não afastando os politécnicos da formação pós-graduada de segundo ciclo, mas marcando as diferenças para as universidades (reservando-lhes o monopólio dos doutoramentos). As ordens e as associações profissionais mais influentes ficavam satisfeitas com o reconhecimento dos mestrados integrados, que distinguia as áreas onde uma formação de nível superior mais sólida era formalmente reconhecida como fundamental para o exercício profissional. As instituições de ensino superior encaravam os mestrados como uma etapa incontornável da formação académica e, consequentemente, como uma fonte garantida de ingresso de alunos e de receitas. O mercado, stricto senso, via no sistema de empréstimos bancários uma oportunidade emergente, uma vez que os estudantes seriam mais responsabilizados em termos de financiamento da sua formação académica mais qualificada (a de segundo ciclo).

A explosão da oferta formativa pós-graduada na última década resulta de um contexto baseado em expetativas que, grosso modo, não se confirmaram. Numa época de carestia do emprego, ainda que as oportunidades de emprego para diplomados sejam mais e melhores que para não diplomados, a incontornabilidade dos mestrados enquanto etapa da formação académica não se confirmou. Devemos juntar a isso o facto de, neste contexto, a posse da licenciatura preencher plenamente o desiderato da valorização social garantida pela titulação académica. Estudos científicos e relatos de empregadores revelam também que, em termos de empregabilidade, as experiências de mobilidade e os estágios profissionais, são pelo menos tão importantes, ou mesmo mais importantes, que a posse de um mestrado.

O momento atual é de balanço. Por iniciativa própria das instituições e por controlo externo (sobretudo por via dos sistemas de avaliação e de acreditação), o redimensionamento da oferta de cursos de mestrado não escapa às lógicas mais estritas do mercado.

CES-UC / OP.Edu