Falta transparência, sobram suspeitas

Os 17 anos que Blatter leva na presidência da FIFA foram férteis em casos polémicos e geraram muitas suspeitas.

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Que a FIFA não é propriamente um paradigma de transparência, já se sabe. E as suspeitas de corrupção que motivaram a acusação de 14 pessoas, entre as quais sete altos responsáveis da FIFA que foram detidos em Zurique, estão longe de serem caso isolado. Os 17 anos de presidência de Joseph Blatter foram férteis em episódios polémicos e controvérsias. As polémicas começaram logo em 1998, quando foi eleito para suceder a João Havelange: houve denúncias de subornos e compra de votos para garantir a vitória sobre Lennart Johansson. “A FIFA não vai investigar porque demasiadas pessoas implicadas neste esquema de corrupção que dura há 25 anos ainda estão em posições de poder”, dizia em 1999 o britânico David Yallop, autor de How They Stole The Game, livro sem tradução portuguesa em que expõe os meandros do poder na FIFA.

Foi um início conturbado, a dar o mote para o que se seguiria. Com Blatter, a FIFA esteve sempre imersa em casos pouco claros. A agência AFP seleccionou “os principais escândalos” dos 17 anos de presidência, começando pelos casos Mastercard e ISL: no final de 2006, o então director de marketing da FIFA, Jérôme Valcke, foi destituído por negociar um contrato com a Visa, violando um acordo que dava preferência à Mastercard. A FIFA seria multada, mas seis meses mais tarde Valcke estava de regresso – foi nomeado secretário-geral do organismo que tutela o futebol mundial, cargo que ainda ocupa. O caso ISL, que era a sociedade através da qual a FIFA geria os direitos de transmissão e marketing do Campeonato do Mundo até à sua falência, em 2001, está relacionado com subornos que teriam sido pagos a Havelange e Ricardo Teixeira, então presidente da federação brasileira, na negociação de contratos exclusivos de direitos televisivos. Mas o caso seria encerrado devido a lacunas na legislação e todos foram ilibados.

Dessa vez não aconteceu, mas em 2012 rolaram mesmo cabeças. No caso, a de Mohamed Bin Hammam, que era líder da confederação asiática e pretendia concorrer contra Blatter nas eleições de 2011. O empresário do Qatar seria alvo de um procedimento da comissão de ética da FIFA, assim como o presidente da confederação da América do Norte, Central e Caraíbas, Jack Warner, e ambos foram suspensos. Bin Hammam retirar-se-ia da corrida presidencial e seria depois irradiado de actividades relacionadas com o futebol. Já Warner optou por demitir-se à luz das acusações de utilização da sua posição para obter lucros pessoais.

Mas o caso mais emblemático do reinado de Blatter na FIFA é o processo de atribuição dos Mundiais 2018 e 2022 à Rússia e Qatar, respectivamente, em Novembro de 2010. A decisão foi controversa e as acusações de compra de votos não se fizeram esperar. Dois elementos do comité executivo da FIFA, o taitiano Reynald Temarii e o nigeriano Amos Adamu, seriam suspensos por violar o código de ética por suspeitas de corrupção.

O processo de atribuição dos mundiais levou à abertura de um inquérito pela comissão de ética da FIFA, liderado pelo ex-procurador de Nova Iorque, Michael Garcia. Este responsável pugnaria pela publicação integral do relatório produzido pela comissão, mas sem sucesso – e acabaria por demitir-se em Dezembro de 2014, em protesto, denunciando pressões disciplinares de Blatter e de responsáveis do comité executivo da FIFA pelo apelo público à publicação integral do relatório. Blatter diria dias depois que o relatório Garcia seria publicado no futuro, mas “de uma forma apropriada”.

A acção ontem levada a cabo pelas autoridades suíças esteve, em parte, relacionada com este caso: o Ministério Público suíço apreendeu documentos electrónicos na sede da FIFA no enquadramento de suspeitas de “branqueamento de capitais e gestão danosa”.

O mais recente capítulo da odisseia Blatter na FIFA escreveu-se nos EUA, com o Departamento de Justiça a entrar em cena, com acusações para 14 actuais ou antigos dirigentes da FIFA, dos quais sete foram detidos em Zurique (onde se encontravam para participar no congresso e eleições do organismo que tutela o futebol mundial) pela polícia suíça. Segundo as autoridades helvéticas, estes sete elementos são suspeitos de terem vindo a receber subornos desde a década 1990, relacionados com atribuição de mundiais, direitos de marketing e televisão, mas também fraude electrónica, extorsão e lavagem de dinheiro.

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