Análise

Depois das eleições: Borgen em Espanha

Uma série dinamarquesa encanta os espanhóis mas não os transforma automaticamente em nórdicos. Só a força das coisas os fará a mudar de cultura política.

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O sistema espanhol está a passar de um modelo bipartidário para um quadro tetrapartidário Andrea Comas/AFP

1. Sinal do tempo: duas séries de televisão foram utilizadas para ilustrar “duas Espanhas”. Pablo Iglesias, líder do Podemos, impôs como referência o Guerra dos Tronos, a ideia de uma brutal luta pelo poder em que vale tudo. Em Abril, ofereceu uma cópia da série ao rei Felipe, para o ajudar “a compreender a política espanhola”. E coordenou um livro intitulado Ganar o morir. Lecciones políticas en Juego de tronos.

Na volatilidade que hoje caracteriza a Espanha, outra série veio substituí-la como paradigma: Borgen, a arte dinamarquesa do pacto e das coligações. Na imprensa, analistas e jornalistas multiplicam títulos a pensar no pós-eleições, as de hoje e as legislativas do fim do ano: A arte da coligação, Por uma cultura de pacto, Uma política dinamarquesa, Elogio da fragmentação política, A cultura do pacto: instruções de uso...

Hoje vota-se e festeja-se, amanhã faz-se o balanço dos ganhos e perdas e, depois, segue-se o prosaico teste da realidade: conceber coligações ou pactos para governar 13 regiões autónomas. Ganhar eleições é uma coisa, outra é a tarefa de governar. Não basta denunciar a corrupção. Nos municípios é diferente pois o alcalde é (em princípio) o candidato da lista mais votada: atenção às eleições de Madrid e Barcelona.

2. O sistema espanhol está a passar de um modelo bipartidário para um quadro tetrapartidário: Partido Popular, PSOE, Podemos e Cidadãos. Os partidos vão ter de aprender rapidamente as novas regras — praticadas na maioria dos países europeus. Durante um ano, a tónica dominante foi o desgaste dos dois grandes partidos que governam desde 1982 (PSOE e PP), em queda livre nas sondagens, e a vertiginosa ascensão de dois partidos “emergentes”: Podemos e Cidadãos. As eleições de Março na Andaluzia confirmaram a nova realidade.

Há alarmes sobre os riscos de ingovernabilidade perante a dificuldade de fazer coligações com os novos partidos. “É um terror injustificado”, responde o politólogo Víctor Lapuente Giné. “A mudança tectónica de uma política fundamentalmente bipartidária para uma multipartidária é em geral um benção. Sobretudo em tempos de crise, os governos débeis produzem resultados mais robustos. São mais reformistas, menos corruptos e mais progressistas.”

Lapuente Giné, que ensina em Gotemburgo, é um adepto dos modelos nórdicos de consenso e coligação. “Os espaços de debate público estavam virtualmente oligopolizados pelos dois grandes partidos. A política era uma coisa de dois. Agora, por causa da crise, a política é uma coisa de quatro. Os eleitores percebem hoje que têm mais do que duas alternativas políticas com perspectivas de influir decisivamente nos governos. (...) Sem dúvida que isto implica riscos, já que os governos de coligação são criaturas delicadas. Exigem mimos.”

Outro cientista político, Fernando Vallespín assinala: “Esta nova ordem partidária está a conseguir relegitimar o sistema político espanhol.”

3. “A função primordial das eleições é produzir governos”, escreve o politólogo José Ignacio Torreblanca. “Este facto óbvio, essencial para a vida democrática, parece no entanto uma verdade incómoda para as novas forças políticas.” Estas prefeririam esperar pelas legislativas. Temem perder “a virgindade política”, ou seja, ficarem sem o discurso da mudança até às eleições gerais de Novembro. Iglesias não quer ser acusado de ter integrado a “casta” mas também não quer ficar fora do jogo político. O Podemos tem um programa vago e “transversal” para conquistar votos no centro, bom para fazer oposição mas não para governar: não basta dizer que fará os que “as pessoas” desejam.

Por sua vez, Albert Rivera, líder do Cidadãos, diz só governará quando ganhar eleições. Teme o desgaste se aparecer como sócio subalterno do PSOE antes da prova das legislativas. Tem um projecto político e, se sobreviver nas legislativas, poderá ser um indispensável partido-charneira nas coligações futuras.

O quadro “normal” seriam coligações entre um dos “grandes” e um dos “emergentes”, ou executivos minoritários sustentados pelos novos partidos, o que exige pactos programáticos e não meros “arranjos”. Os novos partidos estão perante uma prova de fogo. Os eleitores votam neles: saberão ajudar a mudar a cultura política e a promover as reformas de que a Espanha precisa? Ou acabarão por ser mero factor de instabilidade? Se as sondagens estiverem certas, serão eles quem terá a chave da governabilidade.

Avisa o filósofo Daniel Innerarity: “Os partidos estão condenados a fazer acordos sob pena de irrelevância. Ser fiel aos princípios é uma conduta admirável, mas defendê-los sem flexibilidade é condenar-se ao marasmo.”

Os espectadores do “Borgen” observaram que a Dinamarca é outro mundo. Os partidos pensam que estar no poder é sempre melhor que estagnar na oposição. Na oposição não podem servir as aspirações e os interesses dos seus eleitores, correndo o risco de declínio. Os programas das coligações são sólidos porque duramente negociados.

Há ainda o exemplo sueco. Perante a ameaça da extrema-direita, que queria ser o árbitro das coligações, o governo minoritário social-democrata e a aliança dos conservadores fizeram um pacto até 2022 sobre as grandes questões nacionais. Não se coligaram. São governo e oposição. Mas garantiram uma estratégia a longo prazo, ganhe quem ganhe as próximas eleições.

A tentação de fuga ao poder por parte dos novos partidos é o cenário que dá ao PP a esperança de “ressuscitar” nas legislativas. O impasse na Andaluzia alimentou a tese de uma Espanha “ingovernável quando a economia começa a recuperar” — Rajoy teria um lema mobilizador para os próximos meses: “Nós ou o caos”. Também a ele convém a retórica da Guerra de Tronos.

Mas tem um problema: se sofrer mais uma derrota pode contar com uma “revolta” no PP, inspirada por José-Maria Aznar.

4. O combate político em Espanha é menos crispado do que parece. A crispação é uma táctica. Um dos factores a ter em conta é o facto de a luta política se travar em torno da conquista do centro. Os partidos sabem que “quanto mais se afastem do centro menos votos terão”, observava José Paulo Ferrandiz, do instituto Metroscopia. “E há outro [factor] mais ideológico: os espanhóis querem mudanças mas desejam que estas se realizem dentro dos mesmos parâmetros ideológicos moderados.” Marcante será a “fractura geracional”. A mobilização do voto jovem joga contra “os velhos partidos”.

Escutemos de novo Innerarity: “A democracia é um sistema que gera decepção... especialmente quando é bem feita. Quando funciona bem, converte-se num regime de desocultação, em que se vigia, descobre, critica, desconfia, protesta e impugna.” Decepciona porque a política “gira em torno da negociação, do compromisso” e de difíceis concessões mútuas que “são o preço a pagar pelo poder partilhado e pela soberania limitada. (...) E as nossas melhores aspirações não deveriam ser incompatíveis com a consciência da dificuldade e dos limites de governar no século XXI.”

Uma série dinamarquesa encanta os espanhóis mas não os transforma automaticamente em nórdicos. Só a força das coisas os fará a mudar de cultura política.